Empreender muitas vezes é uma tarefa solitária e árdua, principalmente quando o assunto é encontrar o sócio ideal para começar o seu negócio. Nesta hora, há centenas de pontos que devem ser levados em consideração, desde qualidades que agreguem valor à empresa até pontos negativos onde ambos os sócios divergem. Por isso, começar uma startup com algum familiar pode parecer um erro, certo? Errado!

Para Sergio Ribeiro, mentor e cofundador da Hospital Plus – startup especializada em desenvolver aplicativos mobile e soluções em nuvem para a área da saúde – empreender ao lado dos próprios filhos foi o caminho de sucesso para colocar a ideia da startup em prática, em 2014, embora trabalhar em família seja ainda mais desafiador.

Jônathas Ribeiro, CEO, cofundador e filho do Sergio, diz que a ideia da startup surgiu de uma vontade em sempre inovar e, após uma viagem para a Bahia, onde ficou de cama por mais de um dia, a ideia começou a tomar corpo. “Naquele momento, eu e minha esposa não sabíamos o que fazer se precisássemos de um atendimento médico. Na volta a SP, comecei a pesquisar sobre essa necessidade e encontrei essa oportunidade”.

Para Jônathas, o maior pró de trabalhar em família é saber que sempre pode confiar nos sócios. “Empreender em família é muito bom, poder estar perto deles no dia a dia é ótimo. Uma das coisas mais legais é poder ver o crescimento do seu irmão mais novo como empreendedor e sócio. Isso para mim é uma realização”, diz. O maior contra, entretanto, é a dificuldade de separar assuntos pessoais dos profissionais.

Jônathas e Rafael Ribeiro, sócios e filhos de Sergio, ao centro, também cofundador da startup. Foto: Divulgação

Jônathas e Rafael Ribeiro, sócios e filhos de Sergio, ao centro, também cofundador da startup. Foto: Divulgação

Quando se empreende em família, disciplina e respeito devem ser ainda mais fortes neste tipo de relação. “Estabelecer regras estruturais de hierarquia em uma relação patrão-empregado é normal e simples de exigir o cumprimento delas. Agora, quando essa estrutura é inserida entre parentes, que mantêm um convívio familiar fora do ambiente corporativo, é necessário ter em mente, de forma muito clara, os objetivos comuns, e todos devem ser cúmplices disso”, diz Sergio.

A Hospital Plus não é a primeira empresa da família Ribeiro. Desde 1992 pai e filho já empreendiam juntos, mostrando que, via de regra, o sucesso de uma empresa familiar depende do alinhamento da educação empreendedora que é passada de pai para filho desde o berço e de quão alinhados estão os dois na direção da empresa. “Quando visualizamos os motivos pelos quais saímos de casa todos os dias para trabalhar, enxergamos o preço a ser pago para construirmos um negócio sólido, e, dentro desse aspecto, o relacionamento deve ser pautado primeiramente pela razão, depois pela emoção. Há sempre a tendência dos pais protegerem os erros dos filhos, e isso é um grande erro”, explica o patriarca.

“Existem muitos benefícios que transformam o seu dia em uma grande bênção. É bom saber que haverá uma continuidade do seu negócio, que os filhos seguirão em frente, que todo o investimento da sua vida valeu a pena. Tudo faz mais sentido”, completa Sergio.

Inspiração

Não é só no dia a dia da empresa que um pai se faz presente. A prova disso é a Plimpo – startup para encontrar e contratar diaristas -, fundada por Daniel Soares que, inspirado pela trajetória do pai, começou a empreender. “Claro que hoje admiro alguns empreendedores, mas com certeza meu pai é a minha inspiração”.

A avó de Daniel, hoje falecida, era esquizofrênica e, com a doença se agravando aos poucos, deixou de trabalhar como diarista, e o pai de Daniel acabou se tornando o arrimo da família. Caçula de mais 23 irmãos, ele começou a vender picolés aos nove anos de idade para ajudar no sustento da casa. “Quando sua avó tinha crise, eu tinha que cuidar dela e de mim”, dizia o pai para Daniel.

Como sempre teve vontade de dar uma condição melhor para sua família, aos poucos foi buscando novas profissões. Passou de engraxate a lavador de ônibus, cobrador, motorista intermunicipal e depois interestadual. Com suas economias, o pai de Daniel comprou um caminhão em sociedade com um tio, depois comprou a parte do tio e foi prestar serviço transportando combustível à rede de postos do mesmo. Aos poucos comprou mais caminhões e fez sua transportadora. Mais tarde comprou um posto de combustível em Uruaçu, cidade do Interior de Goiás. Hoje ele atua como produtor rural.

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O pai de Daniel começou como vendedor de picolés e se tornou produtor rural. Foto: Divulgação

“Desde pequeno, ao admirar a trajetória do meu pai por ter saído da situação complicada e poder dar à minha mãe e meu irmão conforto de classe A com as melhores escolas, intercâmbio etc., percebi que queria ser empreendedor como ele”, conta o fundador da Plimpo, que acompanhava o pai no trabalho todos os dias durante as férias escolares na infância. “Enquanto meus amigos achavam ‘programa de índio’, eu ia observando como ele negociava, lidava com clientes e funcionários. Como meu pai às vezes lembrava alguma passagem da lida com minha avó, ele sempre comentou que a vida de uma diarista melhorou muito”. Foi aí que quando se formou, abriu uma empresa de serviços domésticos e posteriormente a Plimpo.

A influência do pai é fundamental na vida e empresa de Daniel, que hoje lida com mais de 50 diaristas e 10 mil serviços já realizados. “Como todo empreendedor, quero solucionar problemas de mercado trabalhando com o que gosto e ajudando pessoas, como meu pai sempre fez. A simplicidade, humildade, honestidade e perseverança vem de berço, não aprendi na escola”, completa.

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Daniel Soares, da Plimpo. Foto: Divulgação

Legado

Conquista, competição, realização, gratidão, humildade, resiliência, tenacidade, liderança e interdependência. Estes são valores que são cultivados pelos empreendedores de maior sucesso e que, com certeza, são aprendidos em casa, ensinados pelos pais. João Kepler, investidor-anjo, procura incentivar seus três filhos seguindo a risca estes valores para que eles sejam bem sucedidos em quaisquer atividades que realizem.

“Meus três filhos foram incentivados desde cedo a adotarem uma postura empreendedora diante da vida. Eu e minha esposa optamos por uma educação de autonomia, de maneira que nossos três filhos, Théo, Davi e Maria, são instruídos de como as coisas funcionam no mundo real”, explica ele.

Davi Braga, de 15 anos, já está em seu terceiro negócio e agora é fundador de uma startup chamada de List-IT, de lista de material escolar. O filho mais velho de Kepler, de 17 anos, o Theo Braga, é um negociador nato, produtor de eventos e vendedor de ingressos, e Maria Braga, de 12 anos, já produz cupcakes desde os 8 anos. Sobre o papel do pai no espírito empreendedor dos filhos, Kepler garante, que é apenas de mentor. “Como pai eu participo sim ativamente de todos os projetos, acompanho, quando necessário, oriento, mas sempre respeitado as escolhas individuais de cada um deles”, diz.

Os filhos Davi, Théo, Maria e a esposa Cristina ao lado de João Kepler. Foto: Divulgação/Facebook

Os filhos Davi, Théo, Maria e a esposa Cristina ao lado de João Kepler. Foto: Divulgação/Facebook

Recentemente, João publicou o livro “Educando os Filhos para Empreender”, com o intuito de repassar um pouco de suas experiências como empreendedor e ajudar pais e filhos a adotarem o empreendedorismo como estilo de vida. “Como esse livro é direcionado para ajudar a tornar os filhos empreendedores, eu sugiro que os pais orientem seus filhos no sentido de buscar novos caminhos e possibilidades, além dos tradicionais. Pais não estudam para ser pais, mas nós somos guiados e movidos pelo amor incondicional que desenvolvemos pelos nossos. Entre erros e acertos, o grande desafio dessa jornada é buscar e encontrar os melhores caminhos, sempre juntos”, completa.

Depois de lançar o livro, João diz que uma das perguntas que mais recebe é “é possível ensinar meu filho a empreender?”, e finaliza com a resposta: Sim! Dê o exemplo dentro e fora de casa para que eles comecem a ter outra visão, tenham um propósito, orgulho de alguma coisa, para que eles procurem ser, pelo menos, igual ou melhor do que você foi ou é.