*Por Anderson Thees

Apesar da notícia positiva e o interesse dos investidores internacionais no País, a crua realidade é que o Brasil está sofrendo. O País sofreu uma profunda crise financeira durante os últimos anos. O caminho para a recuperação econômica tem sido adiado por uma crise política em massa, agravada pela exumação de vários casos de corrupção cometidos durante os anos de expansão do Brasil.

 As duras condições macroeconômicas servem como um teste para o build-out do ecossistema de startups do Brasil durante os últimos 10-15 anos. O que tem sido um ponto brilhante para o Brasil é o setor de tecnologia, conforme um relatório recente da LAVCA. “O medo é o caminho para o lado negro“, mas os empreendedores do Brasil estão confiantes e continuam a fundar e crescer empresas viáveis e inovadoras, independentemente da economia em geral.

De certa forma, a crise financeira ainda cria condições interessantes para os empreendedores, como menor custo global para construir um negócio, maior disponibilidade dos melhores talentos e incentivos reais para os usuários finais e empresas que buscam a eficiência que startups de tecnologia normalmente desencadeiam.

Apesar da recente volatilidade, a crise política do País tem um fim em vista. O Brasil tem uma democracia vibrante, uma classe média crescente e seus US$ 1.530.000 milhões do PIB, colocam o Brasil em nona posição no ranking de maior economia global. Além disso, enquanto mais de 100 milhões de pessoas no Brasil já estão online hoje, existem ainda cerca de 100 milhões que ainda precisam migrar para essa tecnologia, o que indica um crescimento sustentado nos próximos anos. Há agora um universo cheio de oportunidades para as startups no Brasil, com a adoção acelerada de smartphones como o dispositivo principal para acessar a internet.

Maturidade do ecossistema de tecnologia no Brasil

Se você der um passo para trás para analisar o que aconteceu com o ecossistema de tecnologia no Brasil, vai perceber que houve uma evolução notável. Enquanto dizemos que a crise macroeconômica no Brasil tem sido positiva, ela teve um efeito sóbrio e trouxe a região a um nível mais alto de maturidade muito mais rápido.

A qualidade dos empreendedores brasileiros aumentou dramaticamente. Hoje as startups têm enfrentado problemas mais profundos, com mais criatividade e inovação, em vez de simplesmente tentar trabalhar e recriar modelos de negócios, “copiar e colar. O ecossistema de tecnologia do Brasil tem crescido inspirado pela forma como o Vale do Silício funciona, em vez de apenas copiar o que o Vale fez no passado. Uma característica de um ecossistema próspero são as relações simbióticas entre empresas e startups. Por exemplo, uma disposição em expansão e prontidão das grandes empresas para comprar produtos e serviços das startups.

Outras relações de construção incluem: acordos de licenciamento, distribuição e aquisições. Eles trazem ciclos dinâmicos, vibrantes e mais curtos para o ecossistema. Tudo isso é uma prática comum no Vale do Silício, mas era inédito nos novos ecossistemas, ou pelo menos era no Brasil até recentemente.

Uma explicação recorrente de que isso é comum no Vale do Silício e não em outros lugares é o “DNA startup dentro de gigantes globais fundadas em garagens. Como ex-startups que foram financiadas por capital de risco, com ciclos de crescimento acelerado, ou seja, o VC sempre esteve presente. Pela mesma razão, um ecossistema de tecnologia emergente em um mercado menos maduro teria que esperar por loops orgânicos para esta opção se repetir. O mesmo padrão está em andamento no Brasil, com empresas como Buscapé, MercadoLivre, Movile e TOTVS. Elas são todas empresas apoiadas por VC que cresceram e agora desempenham um papel importantes no mercado latino-americano.

Corporate Venture

As decisões estratégicas das grandes corporações para investir no ecossistema de inovação de uma forma organizada se acumularam significativamente durante os últimos cinco anos. Já existem mais de 1.500 Corporate Ventures globalmente, e os investimentos estão aumento em número total e também no número de deals, de acordo com James Mawson, editor-chefe da Global Corporate Venturing. Isto é, independentemente do “DNA startup”, mesmo para empresas familiares centenárias. Isso está acontecendo globalmente, do Vale do Silício e Detroit, até China, Suíça e, mais recentemente, no Brasil e em toda a América Latina.

O Corporate Venture no Brasil foi provocado por corporações internacionais com longa experiência no campo. Eles usaram isso como um mecanismo para entrar, aprender e ajudar a desenvolver o ecossistema da região ao ganhar retornos financeiros adequados.

Em 2012, quando a Redpoint levantou seu primeiro fundo para o Brasil, quatro empresas internacionais se uniram com ambições semelhantes. Além de investir como sócia limitada, a Cisco lançou um centro de inovação no Rio, com um plano de longo prazo muito interessante e ambiciosa para a região. Outros Corporate Ventures ativos no Brasil incluem Intel, Naspers e Qualcomm.

Novas Corporate Ventures estão florescendo no Brasil

Os VCs têm interesse na evolução dos ecossistemas e em trabalhar em estreita colaboração com as empresas que investem em fundos. Em setembro, foi lançado um espaço inovador de coworking chamado Cubo em parceria com o Itaú, a maior instituição financeira privada da América Latina. O Cubo é um marco importante para startups e grandes empresas para desenvolver relacionamentos mais profundos e de longo alcance no Brasil. Desde o seu lançamento, mais de 100 grandes empresas e a equipe do Cubo discutem a melhor forma de interagir com o ecossistema de startups no Brasil.

Por exemplo, a Embraer, fabricante de aviões, investiu em um fundo empresarial focado em aviônicos e tecnologia relacionada. A Porto Seguro, companhia de seguros, lançou recentemente seu primeiro fundo e um novo braço de investimentos chamado Porto Seguro Capital. No final de junho, a Naspers levantou 40 milhões de Série F para a  Movile através do Naspers Ventures.

Na mesma semana, a Qualcomm anunciou que está financiando um novo programa para alcançar a visão de um drone em cada exploração agrícola no Brasil por meio da sua iniciativa Wireless Reach. A Monsanto e Microsoft se comprometeram recentemente a investir US $ 92 milhões em startups voltadas para o Agronegócio. Claro, a agricultura é uma parte significativa da economia do Brasil, já que o país é um produtor líder mundial e exportador de muitas culturas.

Outubro passado, o Brasil sediou seu primeiro evento de corporate venture para ajudar a mostrar que o governo reconhece a importância da tendência do risco corporativo e está empenhada em apoiar o processo. Liderado e organizado por Jayme Queiroz, diretor de investimentos da Apex-Brasil, o evento irá acontecer novamente em outubro.

Ainda no início, acreditamos que o aumento dos Corporate Ventures no Brasil será um importante catalisador para o ecossistema de inovação. As simbioses entre grandes empresas e startups é muito valiosa.

*Anderson Thess é Diretor da Redpoint eventures. Acesse o conteúdo original no TechCrunch.