Em um país com proporções continentais como o Brasil, a dificuldade em erradicar desigualdades sociais e promover o básico para áreas carentes como saúde, educação e meio ambiente esbarra não só na necessidade de políticas públicas, mas também em um mercado que pode ser lucrativo e sustentável para o setor privado: os negócios de impacto social. De acordo com a Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais, são negócios com ou sem fins lucrativos, que podem assumir diferentes formatos: associação, fundação, cooperativa ou empresa. Há alguns fatores que determinam se um negócio é de impacto, uma ONG ou uma empresa puramente comercial:

Fonte: Força Tarefa de Finanças Sociais

Fonte: Força Tarefa de Finanças Sociais

Lucro

Investimentos de impacto são aqueles realizados em organizações, empresas ou fundos que tem a intenção de gerar retorno financeiro e em impacto ambiental, provendo recursos para soluções em desenvolvimento sustentável.

“Todos os negócios de impacto que estão na Bolsa de Valores nos últimos três anos renderam mais do que seus concorrentes com negócios puramente comerciais”, diz André Lara Resende, presidente da ONG Um Pé de Biblioteca e sócio da Baanko, empresa que ajuda projetos sociais a se qualificarem e se tornarem negócios de impacto.

A empresa promove anualmente no Brasil, Argentina e Chile, uma série de eventos chamados Baanko Challenge, onde são selecionados 17 projetos, baseados em 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU – da qual a Baanko é representante –  e em três semanas o desafio é lançado para quem quiser desenvolver uma solução para os objetivos. “Nós temos um relatório de impacto do evento. 70% das pessoas que participam do evento fecham alguma conexão de primeiro grau, ou seja, fecharam uma parceria, arrumaram um cliente, um sócio ou alguma coisa grande”, diz André.

“‘Por que não gerar impacto?” A gente sempre se pergunta isso, e sempre falamos para as empresas que querem começar a gerar impacto social. Mas temos também outro problema: por que não gerir a minha ONG de forma empreendedora?”, diz. A organização ser sem fins lucrativos não significa que ela não deve ser gerida como uma empresa como as outras e ter os melhores profissionais. De acordo com André, existem grandes ONGs que pagam bons salários para os executivos que têm, para que eles gerem cada vez mais impacto. “Os executivos que mais cresceram o salário nos últimos 10 anos são do terceiro setor”, diz.

Ricardo Scacchetti, gerente do Instituto Ekos Brasil, organização que promove o desenvolvimento sustentável, diz que o programa Itaú EcoMudança, gerido pela ONG, investe em projetos socioambientais com foco em redução de gases de efeito-estufa. “Nós já investimos em 34 projetos, cerca de R$ 4 milhões. Nós recebemos 400 projetos por ano, que é um número bastante representativo”, explica. “Como nós não vamos gerir os projetos em que investimos, temos critérios bem concretos, e tratamos destes projetos com uma linguagem bem financeira, apresentando para o banco Itaú o impacto gerado pelo retorno versus risco, só que o nosso retorno é socioambiental”.

Um dos exemplos de projeto financiado pelo programa do Instituto foi a organização de uma cooperativa de coletadores de resíduos recicláveis no Pernambuco. Um catador de recicláveis ganha individualmente, em média, 400 reais por mês. Organizando a atividade em cooperativa, ele passa a ganhar 1200 reais, triplicando sua renda.

“Quando você coloca equipamentos para ele trabalhar, como uma prensa, ele pode passar a ganhar até 2 mil reais. O potencial de renda é gigantesco, você tira a pessoa da miséria”. Para que a cooperativa comprasse equipamentos para expandir a produção, a ONG ofereceu a ela um financiamento a juros zero. “Essa forma de impacto pode mudar o modelo, que hoje é totalmente dependente de doação. Hoje há 100 vezes mais recursos disponíveis para empréstimo do que para doação, desta forma, é possível expandir o impacto das ONGs e dos investimentos”, diz.

modelo de negócio proposto

Quem acelera

A Artemisia, organização sem fins lucrativos, é pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil. Fundada em 2004 pela Potencia Ventures, a Artemisia foi a primeira organização do Brasil a fazer parte da Omidyar Foundation, uma das mais respeitadas instituições do setor de investimento de impacto, fundada por Pierre Omidyar, empreendedor do Ebay.

A Aceleradora é um dos programas da organização que tem como objetivo potencializar empreendedores que irão transformar o Brasil. A Aceleradora surgiu em 2007, sendo uma das primeiras do Brasil, com o intuito de fomentar e apoiar os primeiros negócios de impacto social do país que tivessem impacto relevante para a população de baixa renda, com vista a se tornar um negócio lucrativo e escalável.

“Buscamos e selecionamos empreendedores que tenham a intenção genuína de transformar o Brasil por meio de negócios lucrativos, com potencial de atender milhares de pessoas de baixa renda”, diz Maure Pessanha, diretora executiva da Artemisia. De acordo com ela, a instituição elabora teses de mudança para os setores de impacto social estruturantes na vida dessa população. Essas teses orientam a identificação dos negócios mais adequados para o contexto brasileiro que irão acelerar a construção de um país com oportunidades iguais para todos.

Entre os critérios de seleção da Aceleradora estão o impacto social, potencial de escala e estágio de maturidade. “São elegíveis negócios de impacto social com protótipo/produto em fase de testes no mercado até startups com produtos lançados e que buscam rápido crescimento”, diz Maure. Entre as novidades da única seleção do ano de 2016, a Artemisia anunciou a ampliação da busca para os setores de Água/Saneamento e Empregabilidade, além dos quatro setores nos quais já atua: Saúde, Educação, Serviços Financeiros e Habitação. A ampliação da aceleração para cinco meses de duração também é uma das novidades da edição deste ano.

Quem investe

A Vox Capital, criada em 2009, é uma empresa de investimentos de impacto, que tem como objetivo investir em tecnologias inovadoras que estão criando soluções para problemas sociais reais e que tem como resultado tanto impacto social positivo quanto retorno financeiro, contribuindo para a melhoria do país.

O sócio e diretor executivo da empresa, Daniel Izzo, diz que para uma startup despertar o interesse da Vox é necessário que, primeiramente, tenha uma vontade genuína de causar impacto positivo através do desenvolvimento de soluções para problemas reais da população de baixa renda. “Essa paixão por melhorar o mundo é fundamental”. Além disso, o negócio precisa ser escalável, de preferência ter base tecnológica, uma tese de mudança e de impacto social clara e ter uma equipe complementar, com experiência relevante e com potencial para colocar o negócio em pé e de torná-lo em sucesso. “O time é o nosso principal critério e a vontade de mudar o mundo para melhor deve ser o ponto central da motivação desse time”.

Até hoje, 20 empresas já receberam investimento da Vox, o que representa mais de R$50 milhões entre rodadas de Series A e B. Além do investimento em dinheiro, a empresa tem um papel bastante ativo no suporte aos empreendedores. “Fazemos parte do conselho, ajudamos a estruturar a governança, as contas e os controles internos. Também pensamos junto com o time empreendedor a tese de mudança e a proposta de valor da empresa”, diz Daniel.

Agora está em desenvolvimento na empresa uma nova área multidisciplinar para oferecer ainda mais suporte às empresas investidas através de análise e diagnóstico de oportunidades de melhoria em áreas como pessoas, design estratégico, negócios e tecnologia.

“Temos um potencial enorme para esse tipo de negócio no Brasil, pela combinação entre o tamanho do mercado interno e a profundidade das questões sociais. É um dos países do mundo com maior potencial para o desenvolvimento de soluções de mercado para problemas reais”, diz.

Segundo Daniel, muitos investidores globais e nacionais institucionais estão interessados no tema: a última chamada de fundos do BNDES, por exemplo, foi explícita em priorizar fundos com objetivo de gerar impacto social. “Existe a oportunidade e existe a necessidade. Faltam mais indivíduos e gestores com a visão de que investir com impacto gera um mundo melhor para todos, não só para o público que se quer servir”.

O segundo fundo de investimento da Vox começará a operar a partir de julho desse ano e a empresa pretende investir em mais duas empresas, pelo menos. Daniel diz que a preferência será por soluções em educação, saúde e/ou serviços financeiros. Mas Daniel destaca que a Vox está aberta para outros setores, desde que atendam os critérios de impacto, retorno financeiro e escalabilidade”, explica.

Os empreendedores que quiserem apresentar seus negócios para a Vox Capital podem enviar um e-mail ou participar de um dos eventos mensais gratuitos que acontecem no escritório da empresa, que é sempre divulgado com antecedência na página da Vox no Facebook.