* Por Hiran Eduardo Murbach

Uma pessoa que quer empreender, principalmente com uma startup, pode reclamar de qualquer coisa, menos da falta de materiais, conteúdos e eventos na área. Neste sentido, são incontáveis as formas de se ter acesso ao conhecimento necessário para iniciar o processo de se transformar uma ideia em um negócio.

Modelo de negócios, validação, prototipação, iteração, canvas, lean startup, investimento-anjo. Todos aqui dominam, pelo menos na teoria, esses conceitos e, de uma ou de muitas outras formas, já os colocaram em prática na sua busca pela startup perfeita. E muitos chegaram lá – ou quase.

Acontece que, depois de tudo isso, das imersões, codificações e testes, a startup chega onde todos querem chegar, ao ponto em que ela deixa de ser “apenas” uma startup, e passa a ser uma empresa, como outra qualquer.

Vocês podem se perguntar, mas como o nosso negócio pode ser uma empresa como outra qualquer se este é inovador, disruptivo e escalável, diferentemente daquelas? Porque eu não estou falando de modelo de negócio.

Quando chega o momento da startup começar a faturar e buscar um investimento, ela não pode se livrar das obrigações legais de outras empresas. Para o Estado elas são todas iguais, então esta startup vai precisar de um Contrato Social registrado na Junta Comercial do seu estado, de um CNPJ, de um regime tributário, de emitir notas fiscais, de calcular e recolher os impostos corretamente e em dia, de ter uma conta em banco, de ter um fluxo de caixa equilibrado e diversas outras questões burocráticas que permeiam o ambiente empresarial brasileiro.

Só que neste momento, o empreendedor que sabe tudo sobre o seu negócio e tem todo o caminho desenhado para fazê-lo crescer, muitas vezes fica preso no seu desconhecimento nos itens acima, uma vez que raramente se preparou para isto.

E, para muitos, é então que os problemas ocorrem: eles acreditam que esses são apenas “detalhes”, e resolvem cuidar disso tudo sozinhos, ou pior, colocam essa responsabilidade na mão de profissionais que podem até ser competentes, mas que nada entendem deste universo das startups. E o prejuízo pode ser enorme.

Acontece que, ao mesmo tempo que o empreendedor pode achar isso irrelevante ou menor, para os investidores e fundos de investimento, isso é extremamente importante. Cansei de ver investimentos darem errado porque as startups demoraram para se formalizar, tinham problemas contábeis, se endividaram por besteiras ou, mesmo depois de receberem o aporte, se “esqueceram” de ter um mínimo de controle, e deixam de cumprir pré-requisitos mínimos como enviar relatórios periódicos aos investidores.

Portanto, empreender, principalmente no Brasil, não é apenas dominar o seu modelo de negócio e entender o seu cliente, é a arte de lidar com uma máquina estatal complexa e burocrática e não perder o controle da sua situação financeira.

Tenha em mente que um investidor vai levar isso em conta na hora de investir. Começando com o pedido de uma due diligence da startup, que é a grosso modo uma devassa de todos os dados e informações desta e dos sócios, para entender onde ele está pisando e, só assim, investir o seu dinheiro. E, se nessa hora alguma coisa estiver errada, esse dinheiro pode escapar por entre os dedos do empreendedor.

Por isso empreender é ter o controle de todas as variáveis do negócio. E controle não significa necessariamente colocar a mão na massa, e sim escolher as pessoas mais competentes para gerir cada área e estar sempre ciente do que está acontecendo. Sem isso, a startup jamais vai deixar de ser apenas uma ideia.


Hiran Eduardo Murbach é Advogado com MHiranBA em Marketing na PUC-SP, vive o ambiente das startups há pelo menos cinco anos. Foi o responsável pelas relações com os investidores no Startup&Makers da Campus Party 2014, professor convidado do Laboratório de Startups, do Centro de Inovação e Criatividade – ESPM, e Autor dos livros “Quebrando: aprendendo com os erros dos outros”, “O Grátis no Marketing Digital” e “O que é essa tal criatividade?”. Atualmente é sócio e responsável pela área de startups e novos negócios na empresa SeuApoio.