A Cisco, multinacional norte-americana, é uma das maiores empresas de tecnologia do mundo e, como tal, tem voltado seus esforços há vários anos para o foco na inovação, empreendedorismo e, mais importante, o fomento deste ecossistema. Para falar sobre as iniciativas que a companhia tem no Brasil para incentivar startups e como compartilha suas competências e experiências, Nina Lualdi, Diretora Sênior de Inovação para América Latina da Cisco, conversou com o Startupi.

De acordo com Nina, uma das partes mais importantes da estratégia da empresa a nível mundial, é transformar os países e cidades, ajudando-os a se digitalizarem.”Nós acreditamos que a inovação e o empreendedorismo são fundamentais para isso, e também é uma necessidade diretamente relacionada com o nosso negócio, que são as necessidades dos nossos próprios clientes e os tipos de soluções que eles precisam”, diz a diretora.

Inserir estas cidades no mundo da digitalização é algo que está baseado cada vez mais na Internet das Coisas. Para ela, há cada vez mais a necessidade de criar soluções que na verdade são como “quebra-cabeças”: algumas das peças são da própria Cisco, outras são de empresas parceiras da companhia, mas cada dia que passa, mais e mais clientes acreditam que as peças complementares devam ser disruptivas, que geralmente são encontradas no mundo das startups.

Pensando neste contexto, o que a empresa realiza para entregar aos clientes e às suas próprias soluções essa inovação?

Continuidade

Há uma série de iniciativas, e a primeira delas é a continuidade que a empresa dá anualmente no monitoramento das soluções disruptivas em base às necessidades que encontra nos próprios clientes não só atualmente, mas a visibilidade que a Cisco tem de enxergar as necessidades que eles terão nos próximos dois, três e quatro anos.

Com base nessa visibilidade, a empresa faz análise de quais serão os prováveis casos de uso das necessidades desses clientes. “Assim, nós fazemos durante todo o ano uma busca no mundo da inovação não só no Brasil. O centro de Inovação do Rio, por exemplo, faz a busca no Brasil, América Latina e, em alguns casos, temos que olhar fora, porque não existe o produto por aqui”, explica Nina. Nessa busca proativa, assim que a empresa encontra uma solução que acredita estar perto das necessidades do “quebra-cabeça”, conecta a startup ao cliente.

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Nina Lualdi, Diretora Sênior de Inovação para América Latina da Cisco. Foto: Divulgação

Estratégia

Hoje, a Cisco tem cerca de US$ 30 milhões divididos em dois fundos de VC brasileiros: Monashees e Redpoint eventures. Além destes fundos de venture capital, a empresa faz periodicamente parcerias formais com hubs de inovação e organizações que fomentam o ecossistema, como o Cubo, por exemplo, que tem a Cisco como parceira oficial desde sua abertura, em setembro do ano passado. Agora a companhia também está trabalhando em conjunto com a Wayra, programa de inovação da Telefónica e, segundo Nina, observando e buscando outros ecossistemas onde mais parcerias podem se encaixar.

No momento em que uma parceria é fechada entre a Cisco e a aceleradora ou coworking, por exemplo, a companhia começa a ter uma maior visibilidade do portfólio da empresa, conhecendo as startups que estão sendo incubadas, aceleradas ou financiadas por aquela organização. “Tendo esta visibilidade, nós fazemos um scanning destas empresas, quais têm soluções disruptivas que nós achamos que cabem e podem ser utilizadas pelos nossos clientes daqui a três ou quatro anos? Nós começamos então a fazer um engajamento uma a uma com estas empresas e criamos uma relação onde todo mundo ganha”, explica.

Centro de Inovação da Cisco no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Centro de Inovação da Cisco no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Com o foco em ajudar sempre a startup a melhorar o produto dela onde for possível, as startups beneficiadas por estas parcerias têm à disposição a infraestrutura adequada para desenvolverem e aprimorarem características de seus produtos com a tecnologia da companhia, fazendo com que seus produtos sejam mais eficientes ou que passem a ter características  que possam interessar mercados que antes podiam não interessar.

Além disso, há também a integração dentro dos casos de uso da Cisco. “Utilizamos tanto o setor de inovação como a nossa força de venda e nossos parceiros para ajudar a startup a ficar mais rápida, mais efetivamente no mercado”. Desta forma, a startup não se beneficia apenas do ponto de vista tecnológico, mas também no Go To Market, porque é uma das coisas mais valiosas para uma startup dentro destas parcerias.

Desafio

A terceira via de fomento ao ecossistema é o que a empresa está desenvolvendo no Rio de Janeiro, no contexto da Olimpíada. O Centro de Inovação da Cisco está implementado no Porto Maravilha, polo tecnológico da capital carioca. Projetos de legado olímpico estão sendo desenvolvidos e implementados pelo Centro, criando um ambiente de cidade conectada, inteligente e humana. “É uma plataforma com a tecnologia conectada via Internet das Coisas, já preparada para a cidade poder testar no futuro, relativamente fácil, colocando na cidade serviços inteligentes”, explica Nina.

Centro de Inovação da Cisco no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

Centro de Inovação da Cisco no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

“Acreditamos que a aceleração da transformação acontece também pela conexão que você consegue ter com o cidadão e a habilidade de você poder utilizar aquele investimento, aquela tecnologia, aquela capacidade para agora e tornar o cidadão um maker, em vez de só um consumer”. E isso significa criar um ciclo virtuoso dentro da inovação. Se uma cidade tem uma plataforma que permite aos cidadãos e aos empreendedores desenvolverem serviços sobre ela, isso não só estimula a inovação que a Cisco acredita ser um propulsor econômico e social na formação da cidade, mas também um ciclo econômico virtuoso.

Baseada nesta necessidade, a Cisco criou o Desafio de Inovação Urbana, lançado em agosto do ano passado, que foi desenhado para incentivar empreendedores ou empresas a desenvolver aplicativos e serviços sobre a plataforma que está sendo implementada no Porto Maravilha. O resultado deste desafio foi um processo de três meses, onde se inscreveram mais de 100 aplicações e no final foram selecionados 15 finalistas.

Depois de intensos trabalhos com a equipe da Cisco e da prefeitura do Rio de Janeiro, foram selecionados 5 projetos. O prêmio dos vencedores foi um programa de aceleração profissional de cinco meses, que incluiu o apoio e a mentoria de engenheiros de inovação da Cisco e parceiros, como a Universidade Estácio, Sebrae Rio de Janeiro, Liga Ventures e a aceleradora Plug And Play, do Vale do Silício.  Agora, as soluções estão na fase de implementação no Porto Maravilha, em parceria com a prefeitura.

O que chama atenção

Um exemplo de solução que se encaixa no “quebra-cabeça” da Cisco com seus clientes é a NetSensors. Selecionada pelo Desafio de Inovação Urbana, a startup desenhou um sistema de bueiros baseados em sensores, que permite a cidade antecipar quando um bueiro está chegando a um nível de obstrução por lixo sólido. Em parceria com a Cisco, a startup desenhou a tecnologia para monitoração e também um sistema que permite à cidade a limpeza fácil e rápida do bueiro. ” Nós resolvemos um problema enorme que nós vemos em quase todas as cidades brasileiras onde nós falamos com os clientes”, diz Nina.

Outro exemplo acerca do Desafio é o do Áudio Alerta, startup brasileira que criou um sistema que permite a detecção de sons com uma tecnologia inovadora. A empresa tem a capacidade de detectar e descriminar e categorizar sons, e quanto mais seu monitoramento funciona, mais o sistema aprende o padrão dos ruídos e para que isso funciona. O sistema pode ser utilizado para o gerenciamento de segurança pública, seja em espaços públicos como ruas, como em espaços privados. “Essa é uma necessidade que nós vemos desde clientes do setor público como do setor privado. É uma tecnologia disruptiva, inovadora e muito boa, e que se integra perfeitamente nos nossos casos de uso”. Em ambos os casos, as empresas foram aceleradas pela Cisco e tiveram ajuda no desenvolvimento de uma integração entre as soluções deles e as da companhia.

Equipes vencedoras do Desafio Cisco de Inovação Urbana.Foto: Divulgação

Equipes vencedoras do Desafio Cisco de Inovação Urbana. Foto: Divulgação

Fora dos exemplos selecionados para o Porto Maravilha, muitas outras startups contam com apoio da Cisco para implementarem suas soluções. A empresa acaba de integrar seu sistema de energy management, uma das suas soluções mais populares, com uma startup de controle de ar condicionado, resolvendo o problema da maioria de seus clientes, que têm de 40% a 60% dos custos de energia apenas neste aparelho.

Por enquanto, o foco das tecnologias desenvolvidas está na Olimpíada deste ano, evento do qual a Cisco é responsável pela infraestrutura. Mas Nina garante que em breve, novos desafios serão lançados, focados em diferentes soluções. “Faremos sim, mas terão formas diferentes, dependendo do tipo de soluções que nós estamos procurando. Porque tudo o que nós fazemos é orientado às necessidades reais que nós vemos no nosso mundo de clientes”, finaliza.