* Por Paulo Tenório

É fato: fundadores de startups precisam aprender muita coisa e rápido.
E é na escolha do que aprender que muitos fundadores iniciantes, como eu, erramos. Erramos conscientes e muitas vezes somos induzidos ao erro pela sedução da teoria.

Para ilustrar como isso funciona, vamos comparar com um piloto de corridas. Existem várias categorias, mas 99% começam no Kart e sonham em chegar na Fórmula 1.

Você já deve ter matado a charada. Um fundador iniciante de uma startup é o piloto do Kart. O problema é que hoje há muitos pilotos teóricos de fórmula 1 no mercado. Sabem tudo sobre o volante de um F1, aerodinâmica, pneus, motores e até mesmo sobre engenharia. Conhecem a história da F1 e são capazes de falar horas sobre casos das pistas. Já tem macacão, capacete e parecem estar em uma equipe de F1, mas só parecem, na verdade ainda nem sequer colocaram o kart para correr.

O fundador de startup tem que sujar as mãos com o trabalho pesado do kart. A corrida é onde o resultado aparece, mas nos bastidores é que a mágica acontece. O piloto de kart tem que suar, correr atrás de patrocínio e principalmente, precisar ganhar as primeiras corridas nas pistas de kart antes de comprar seu macacão de F1 e sair desfilando pelo autódromo, tirando fotos com as mulheres bonitas na pista e saindo nas fotos nas revistas.

Veja bem, considere sua startup um kart. Considere-se um piloto de kart. Sonhe com a F1, mas trace um plano para vencer sua primeira corrida, depois vencer seu primeiro campeonato e quando se tornar um dos melhores no Kart, irão aparecer equipes querendo te levar para outra categoria, o F3 Britânico por exemplo, lá o jogo muda. O carro é bem mais complexo, mas você já tem tudo o que precisa, tem mancha de óleo na cara, a mão calejada do volante do kart e principalmente, tem braço firme de quem errou, bateu, capotou e saiu no tapa com outros pilotos. E vai ter o tempo necessário para aprender o que precisa pra pilotar um F3.

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Foto: Divulgação

Trace um plano: ser o melhor piloto da F3. Ganhe sua primeira corrida, depois seu primeiro campeonato. As equipes de F1 vão notar sua presença, você irá virar em pouco tempo conhecido no automobilismo. Você aceita o convite para pilotar um carro de segunda categoria na F1, aí você realiza seu sonho. Conquista seu macacão, seu capacete e principalmente, seu lugar. Mas o jogo está apenas começando. Seu desafio está em ganhar a primeira corrida, depois o primeiro campeonato. Vá estudar cada centímetro do carro, cada curva do GP, cada processo do time de engenharia e vai treinar muito para não perder o seu lugar.

Por isso os pilotos de verdade são apaixonados pelo Kart.

Foto: Divulgação

Hoje, fundadores de startups estão estudando tudo sobre modelos de negócios complexos, sobre estratégias de marketing do Dropbox, Spotify e da Apple… Estudam sobre como gerir equipe, sobre contratos, equity, valuation, relacionamento com investidores, KPI’s, CAC, Inbound/Outbound e toda a sopa de letrinhas do marketing. E fazem isso tudo como se estivessem pilotando um F1, mas ainda não conseguiram colocar o Kart em alguma corrida.

Teoria e prática são dois universos bem diferentes e interdependentes.

Essa é a armadilha do conhecimento fácil na internet e dos influenciadores que nos distanciam dos nossos objetivos reais. Há muitos influenciadores que nunca venceram ou perderam o suficiente e não são apenas brasileiros. Há livros, eventos, sites e, claro, empreendedores/investidores que muitas vezes nos colocam para correr na direção errada.

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Esse é problema que encontro com muitos fundadores. Sabem tudo sobre um F1 mas não querem sujar as mãos com o kart. E um discurso muito comum é: as pistas brasileiras são péssimas. As equipes são um clubinho. Os patrocinadores só com peixada. Precisamos de mais pilotos de kart e menos comentaristas de F1. Precisamos todos, incluindo este que vos escreve, vencer mais voltas, ganhar mais corridas, vencer campeonatos antes de exigir uma vaga.

Precisamos ser mais pilotos de kart e menos experts em F1.

ayrton senna

Foto: Divulgação


paulo_tenorio Paulo Tenorio iniciou sua carreira no curso de administração, quando fundou sua primeira empresa aos 21 anos. Foram mais de 10 anos trabalhando como freelancer em Computação, Gráfica, Design e Marketing no Brasil, USA e Europa. Fundou em 2013 sua segunda empresa, onde é CEO, a Startup Trakto, uma solução para criação de orçamentos e propostas nas nuvens. Hoje a Trakto ajuda mais de 20.000 profissionais e empresas de todo o Brasil.