Aconteceu na última segunda-feira (30), a Conferência Anjos do Brasil 2015, que contou com alguns dos mais importantes investidores e empreendedores do País, falando sobre como anda o cenário do investimento anjo no Brasil e como as startups podem conseguir um investimento. Para abrir uma discussão sobre o que o empreendedor precisa saber – e ter – na hora de procurar um investimento anjo, participaram de um painel Marc Lahoud, da Quero Quitar; Ricardo de Moraes, da Miarte; Tania Gomes, da 33/34 e, medidando o painel, Thomaz Gomes, da PEGN.

Qual a importância do investidor?

Para Ricardo, CEO da Miarte – uma plataforma online de franquia de calçados -, desde o início é importante ter um investidor, porque esta pessoa agrega um dos pontos mais importantes para o sucesso da startup: o know how. “Este conhecimento que o anjo traz é fundamental. No começo, pensamos em bater de porta em porta para encontrar um investidor mas, pensando estrategicamente, decidimos que era melhor buscar quem mais se encaixasse no nosso projeto, então focamos em um investidor e fomos falar com ele”, afirma. O investidor escolhido para levar experiência à Miarte foi Cassio Spina.

Tania, fundadora da 33/34 – plataforma online de vendas de calçados femininos exclusivamente nos tamanhos 33 e 34 -, concorda que no início, independente do dinheiro, é o conhecimento o que mais conta na hora de procurar um investidor. “É o que a gente chama de smart Money. É muito mais que dinheiro, é o suporte que recebemos desta pessoa. O investidor é a pessoa que vai te ajudar a traçar seu caminho, é quem tem a experiência que você precisa, por isso buscar esse investimento é tão importante”, diz. Um dos principais investidores da startup 33/34 é João Kepler. “Eu ligo para ele várias vezes na semana para perguntar coisas que para ele podem ser simples, mas pra mim ainda são muito complexas”, completa Tania.

Para Marc, da Quero Quitar – plataforma online de negociação de dívidas -, não foi diferente. “Muito mais importantes que o dinheiro são as pessoas que trazem este dinheiro. Quando recebemos o nosso primeiro capital anjo, a empresa estava quase parando. Tínhamos uma excelente oportunidade na mão, mas nosso recurso estava secando. Receber este aporte e a estrutura que veio junto, para nós foi uma verdadeira bênção”, afirma. De acordo com Marc, o investidor anjo que ajudou a tornar possível o sucesso da Quero Quitar foi Hélio Katanosaka.

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Como se preparar para receber um capital anjo?

Para Marc, tudo joga contra a startup se os números só forem trabalhados em cima dos ativos da empresa. “Hoje, se você tem uma ideia desenvolvida e um MVP na mão, é aí que entra o investidor anjo, quando você puder provar que é palpável e possível”, diz. A primeira dúvida que surgiu para a startup de Marc foi o cálculo do valuation que, segundo ele, para uma startup é algo subjetivo, por isso tem que ser bem fundamentado. “Para fazer o valuation de uma startup, primeiro vem o modelo de negócio. Que mercado eu decidi atender? É um mercado com uma grande dor, mesmo? É algo da qual as pessoas realmente precisam? Pensar nisso é o primeiro ponto”, completa Marc, enfatizando que deve ser levado em conta também se a startup tem facilidade para escalar, se esta escalabilidade demanda muito investimento e se pode ser feita em um curto espaço de tempo.

Já para Tania foi diferente, o investimento na 33/34 veio antes de a loja estar no ar. Quando recebeu o primeiro capital anjo, a empresa ainda não tinha um MVP, mas sabia que o mercado onde a startup queria se inserir era grande. “O que valeu muito, para nós, foi o time que a gente montou. Tínhamos pessoas com experiência em e-commerce e que sabiam o que estavam fazendo, e isso foi levado em conta na hora que os investidores olharam pela primeira vez o meu projeto”, diz. Pra ter um valuation bom, Tania diz que o primeiro passo é ter um bom projeto e, se tiver um MVP, melhor ainda, mas o time que compõe o projeto é o mais importante. “O valuation é a semente para você conseguir colocar o seu negócio no ar e provar que ele vai funcionar”. Para ela, entender a fundo quem são seus consumidores e seus concorrentes é a base para a preparação do projeto, e o investidor anjo pode fazer a diferença na hora de descobrir estes dados.

Ricardo diz que a parte mais complexa para todo empreendedor na hora de buscar o investimento é o valuation. Por isso, ele acredita que os membros da startup terem estudado tudo sobre o mercado de startups e de capital anjo foi crucial para que conseguissem o investimento. “Nós precisávamos de uma pessoa excepcional na parte de finanças e nós trouxemos essa pessoa para complementar todo o estudo que a gente fez sobre a indústria das startups e conseguimos nos preparar para chegar ao investidor”. Para ele, além de ser a parte da startup mais avaliada pelos investidores, ter um time bom e preparado é importante porque o empreendedor sozinho, mesmo com uma ideia brilhante, não vai a lugar nenhum.

Quando e por que abrir a ideia para os investidores?

Na hora de abrir a ideia para o investidor, todo empreendedor tem medo. Mas, para Marc, é um medo desnecessário, porque o sucesso de uma startup está muito mais na execução do que na qualidade da ideia. Para ele, vale a pena abrir a ideia para os investidores, sem medo, para saber se ela está indo para o caminho certo e, assim, dar mais confiança na hora de executar o projeto. “O tempo que você leva para colocar uma ideia no ar demanda muita energia, tempo, dedicação, perseverança, persistência e é isso que vai levar sua ideia pra frente. Por isso vale a pena abrir, porque recebendo feedbacks, o resultado final fica muito melhor do que o que estava na sua cabeça desde o começo”, diz.

Tania acredita que conhecer os investidores para os quais você vai expor o seu projeto é fundamental e algo que ajuda muito este processo é que no Brasil, os investidores se conhecem entre si, facilitando o contato e a troca de informações entre eles e as startups. “Precisamos ter segurança nestas pessoas para que a gente se sinta seguro em abrir o que planejamos para a startup, porque quando você fala em um projeto que você precisa de dinheiro e esse dinheiro terá que vir de um investidor, você tem que ter claro de que vai ter que compartilhar a sua ideia”. Para ela, o correto é o empreendedor verificar quem são estas pessoas que investirão dinheiro e estabelecer antes uma relação entre startup e investidor, para ajudar a driblar essa insegurança.

Ricardo acredita que o empreendedor não deve temer apresentar seu negócio, porque só assim feedbacks poderão ser captados. Desde o início, Ricardo conta que apresentou a ideia da Miarte para profissionais de venda online, do varejo tradicional e da indústria calçadista, e só então, com o feedback destes executivos, ele pode pivotar seu negócio e transformar a Miarte no que é hoje. “Estas pessoas foram extremamente importantes para aperfeiçoar o nosso modelo de negócio, deixando nosso projeto muito mais bem elaborado para ser colocado no mercado”, afirma.

E como fica a relação pós-investimento?

“Escolher um anjo para andar junto é como se fosse um namoro”, diz Marc. O investidor e a startup devem criar uma sinergia que faça com que eles consigam trabalhar juntos para o crescimento da empresa. Assim como em um namoro, se não andar bem para ambas as partes, a parceria tem tudo para dar errado. “Deixamos tudo sempre muito claro para eles e hoje, todos os anjos que temos na Quero Quitar são ótimos e nos ajudam muito”.

Tania enfatiza que o empreendedor tem que aprender a ouvir críticas. “É o seu projeto, você desenhou a ideia na sua cabeça, então pra você está tudo perfeito, mas o anjo é um homem ou uma mulher de negócios e esta pessoa vai trazer novos vislumbres do seu negócio”. Para ela, se o investidor aceitar a ideia sem sugerir qualquer melhoramento, o investimento dele é apenas dinheiro, e não é para isso que as startups procuram investidores anjo. Por isso, o empreendedor precisa estar aberto para entender e aceitar os feedbacks e novos olhares sobre o projeto em execução para que a parceria entre startup e investidor dê certo.

Transparência, para Ricardo, é a principal qualidade nesta relação. “Nós temos um grupo no whatsapp e nos falamos sempre, nosso diálogo flui bem. Não escondemos absolutamente nada deles, porque confiança é muito importante nesta relação”. Segundo Ricardo, o investidor aposta mais no empreendedor do que na ideia, por isso, não pode haver surpresas para o investidor em relação a qualquer assunto da startup.