O Startupi conversou com André Macedo, fundador da ZeroPaper, plataforma de gestão financeira, adquirida por alguns milhões de dólares pela Intuit, líder global que desenvolve soluções financeiras sediada no Vale do Silício. Ele compartilhou os bastidores da sua jornada empreendedora e os desafios que enfrentou para tornar o seu negócio global.

André é formado em Tecnologia em Redes de Computadores e Sistema de Informações, além de ter curso técnico em Eletrônica e MBA em Gestão de Segurança da Informação. Portanto, ele trilhou sua carreira executiva sempre nesta área. Ele contribuiu com instituições relevantes como Itautec, Ministério de Minas e Energia, FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Caixa Econômica Federal e Serasa. Em todas elas ele sempre participou de projetos que tivessem, de algum modo, sinergia com tecnologia. Ele decidiu mudar o rumo da sua vida, sair da vida executiva para virar empreendedor em 2006, quando trabalhava no Serasa.

Seu gosto por carros é antigo e foi justamente nessa área que resolveu se aventurar. Ele criou a Carro Livre, que atuava com anúncios de compra e venda de carros pela internet. Em 2010 quando percebeu que o negócio começou a ganhar fôlego, deixou sua função na Serasa e passou a se dedicar 100% a sua startup, que durou até 2012, quando tinha 10 funcionários e faturamento maior do que R$ 30 mil por mês.

Mas, como todo bom empreendedor, ele não acertou de primeira nesta empreitada. “Errei no modelo de negócio que ficou insustentável quando os donos das lojas de carros não queriam mais pagar pelo anúncio – no qual ganhava dinheiro”. Por outro lado, eles tinham muito interesse na sua expertise em como gerenciar o investimento em mídia na internet. Na época, pelo menos em Brasília, pouca gente sabia fazer esse tipo de coisa.

Diante desse contexto, André acabou migrando seu negócio para uma agência de marketing digital, a Brasília Mídia, ao lado de sua esposa. Afinal, ele já tinha os clientes e sabia como fazer a coisa acontecer. A agência durou de 2012 até 2013, quando André já estava envolvido no projeto do ZeroPaper, principal software de gestão financeira para micro e pequeno empreendedor.

André conta que quando estava tocando a Brasília Mídia, não se sentia satisfeito com o negócio. “Sentia falta de algo que fosse de fato transformador, que pudesse quebrar paradigmas e fosse escalável”. Como tinha um background de finanças, sentia-se muito confortável em seguir com algo nesta linha. Ele pensava em amenizar o grau de mortalidade de empresas nascentes no Brasil, já que a gestão financeira de qualquer negócio se faz necessária desde o início, mas naquele ponto, ainda não sabia ao certo no que iria empreender e nem como.

“Para botar a startup de pé, tinha certeza de que precisaria de um time engajado, robusto, que remasse em uma mesma direção, por isso fui atrás”. Então, se juntaram ao time, Arley Moura, que tinha ajudado com todo o desenvolvimento do produto no Carro Livre, Cadu Braga, amigo de infância de André e que estava voltando de uma experiência nos Estados Unidos e Cadu Carvalho, responsável por todo o design do produto.

Sócios fundadores da ZeroPaper, hoje parte da Intuit : André Macedo, Carlos Braga, Arley Moura e Cadu Carvalho.Foto: Fernando Cavalcanti

Sócios fundadores da ZeroPaper, hoje parte da Intuit. Da esquerda para direita: Arley Moura, Cadu Carvalho, André Macedo e Carlos Braga. Foto: Fernando Cavalcanti

Vale lembrar que eles começaram a desenvolver o produto do ZeroPaper apenas depois de serem selecionados pela aceleradora 21212 para participar da segunda turma de aceleração. “Sabíamos do potencial do nosso time e enfrentamos a banca de seleção. Ao sermos questionados se teríamos disposição para ‘ralar a cara no chão’ e dar nosso sangue para fazer acontecer, rapidamente dissemos que sim. Arregaçamos as mangas e fomos à luta!” conta André.

André destaca que o processo de aceleração foi fundamental para guiar o rumo certo do negócio. “Foi graças a pesquisa de campo, a qual dedicamos um tempo significativo, que identificamos a necessidade de nosso cliente – profissionais autônomos, liberais, MEIs e microempresas. Inicialmente pretendíamos criar um software mais elaborado e com mais recursos, mas no fim, chegamos a conclusão de que nosso cliente queria mesmo uma ferramenta simples e prática para mexer”. O nome ZeroPaper só foi escolhido depois de quatro meses do período de aceleração, quando já tinham ido para a rua falar com clientes. Eles falaram com mais de 100 clientes.

André conta que teve cinco mentores que foram fundamentais para o sucesso da ZeroPaper e dois deles eram também investidores, é o caso de José Roberto Schettino e Emmanuel Orillard. Os outros três foram mentores durante o processo de aceleração na 21212 – Ruben Sanchez Souza (Visor), Guilherme Horn (Accenture) e Marilia Rocca (Totvs). “Ao longo dos seis meses da aceleração, contamos com uma equipe dedicada da 21212 que nos munia de informações teóricas e promovia a troca constante de conhecimentos, de forma que pudéssemos sugar tudo o que podíamos para aprimorar nossa ferramenta a cada dia”.

Em 2014, já com o produto no mercado e em expansão, a empresa foi convidada para participar da etapa São Paulo do U-Start, um concurso internacional de empreendedorismo que, naquela edição, premiou os três melhores projetos com uma viagem para Milão. A ZeroPaper foi uma das vencedoras e a notícia repercutiu no mundo todo, chegando até a a Intuit, líder global que desenvolve soluções financeiras sediada no Vale do Silício.

“Um belo dia, uma mulher norte-americana entrou em contato comigo dizendo que trabalhava lá e que gostaria muito de conversar comigo para conhecer mais sobre a ZeroPaper. Quase achei que era piada”. Ele conta que como todo bom processo de negociação com empresa norte-americana, tiveram um período longo de conversas.

André conta que na época não falava inglês e que toda negociação, que durou cerca de um ano, foi liderada pelo seu sócio financeiro, Cadu Braga. “Eu participava das reuniões e interagia em português enquanto ele fazia toda intermediação em inglês com os executivos da Intuit”. A negociação finalizou em Janeiro e o valor exato da transação nunca foi publicamente revelado. Com ela, André tornou-se Country Manager da Intuit no Brasil e todos os demais sócios também assumiram cargos de gestão na companhia.

André conta que não planejou tornar a ZeroPaper global desde o início, o que não significa que ele não gostaria de conquistar o mundo, pois o negócio sempre teve como um de seus princípios ser escalável. A ideia era primeiro conhecer o público do Brasil e apostar. Uma vez dando certo, como de fato deu, tiveram a possibilidade de enxergar novos horizontes a partir da aliança com o maior player global, a Intuit.

A Intuit, empresa sediada em Mountain View, no Vale do Silício, tem suas ações negociadas na Nasdaq e é idealizadora do QuickBooks Online, que oferece o serviço de contabilidade na nuvem e estreia no Brasil por meio da aquisição. “Na parte inicial deste processo vamos trazer para o Brasil o QuickBooks, produto para PME da Intuit que atende empresas um pouco maiores do que as atendidas pelo ZeroPaper e complementa perfeitamente nossa linha de produtos. No futuro, poderemos estudar levar o ZeroPaper para outros países”.

Com essa aquisição, A ZeroPaper se tornou o primiro case de exit do Brasil e André diz que toda a equipe sente muito orgulho dessa conquista. “Atribuímos tamanho sucesso ao nosso engajamento como time, a nossa determinação e dedicação quanto ao aprimoramento constante do produto e ao nosso profundo conhecimento de mercado”. Com tudo isso, André afirma que ganharam resiliência e construíram uma base sólida de clientes, em janeiro eram cerca de 500 mil e agora eles já chegaram a 1 milhão.

“Queremos servir de inspiração para novos exits brasileiros. Sabemos da dificuldade financeira sofrida pelo País e, por isso, acreditamos no empreendedorismo pela necessidade, principalmente em tempos de crise como essa” afirma o empreendedor.

E os desafios continuam! Este ano eles se dedicaram a integração da ZeroPaper ao portfólio da família de produtos QuickBooks e a estruturação da equipe da Intuit aqui no Brasil. Quando venderam  a ZeroPaper, eles tínhamos apenas 10 funcionários e agora somam cerca de 40, eles pretendem chegar a 100 funcionários ao fim de 2016.

Também no começo de 2016 será o lançamento da versão de QuickBooks 100% nacional, ou seja, com todas as adequações de sistema necessárias para operação no mercado brasileiro. André conta que sua dedicação estará toda voltada ao bom desempenho do produto.

Confira abaixo parte da entrevista com André Macedo,

Como você identifica uma oportunidade de negócio? 

André: Em primeiro lugar, eu observo se há um grande problema a ser resolvido e daí vislumbro uma oportunidade de negócio pertinente. A partir daí, verifico se é possível resolver o problema e como. E, finalmente, monto um time complementar e com experiência prévia naquele ramo. Por último, vejo a organização e os planos de futuro e oportunidades financeiras.

Qual foi o seu maior desafio como empreendedor e o que fez para superá-lo?

André: Sem dúvida alguma nosso maior desafio como time foi conseguir conviver muito bem com a instabilidade, já que tínhamos a segurança de ser funcionários antes de empreender. Conviver bem, de forma natural, um dia após o outro, este é o segredo.

O segundo desafio seria trabalhar com um time e, ao mesmo tempo, contratar bons talentos e engajar todos os funcionários, de modo que todos trabalhassem com vontade. Como terceiro desafio, poderia mencionar as metas, que precisam existir sempre e os processos necessários para batê-las.

Como você lida com os desafios?

André: Posso dizer que a partir de exemplos de outras pessoas que conheço em livros ou reportagens, por exemplo, consigo me inspirar a ponto de lidar bem com os desafios. Mentores são também fundamentais para mim.

Portanto, tenho perfis distintos de mentores que me ajudam constantemente. Tenho aqueles mentores ideais para momentos estratégicos, mais maduros e ponderados e tenho outros mais agressivos e com visão de curto prazo. Procuro usar exemplos e não reinventar a roda.

O que lhe dá mais prazer no processo de empreender? 

André: Costumo dizer que empreender é um vício, um vício saudável e meio que para vida toda. Quem tem tino para coisa, a exemplo de mim e de meus sócios, não para nunca. Não sei se teria algum aspecto desse processo que pudesse credenciar como sendo o mais prazeroso, pois se trata de uma trajetória de construção.

Afinal, ao termos uma ideia, precisamos tira-lá do papel. E, para tanto, aprendemos diversos métodos, teorias, nos inspiramos em boas histórias. No entanto, o que faz a diferença mesmo é investir na prática, sabe? É ter ciência do problema que precisa ser resolvido, partir para rua e entender o cliente.

Em uma startup, o acerto é consequência de muitos erros, na maioria dos casos. Apesar de ser clichê, é fato que o empreendedor não acerta de primeira. Isso é valioso, pois os erros nos abrem os olhos para novos caminhos, que certamente, nos levarão aos acertos e ao sucesso. Acho então, que como empreendedor, me sinto estimulado todos os dias, as possibilidades são infinitas em minha mente, assim como a dos demais empreendedores pelo mundo afora.

Quanto um time é importante para o sucesso de um negócio? Quais critérios você utiliza na seleção de pessoas?

André: O time é o fator responsável pelo sucesso ou fracasso de qualquer empreendimento. A união e a complementariedade dos integrantes de uma equipe são fundamentais para alavancar o negócio de uma forma estruturada.

Ao selecionar pessoas, procuro analisar valores que estejam em linha com o DNA da empresa e também façam sentido para mim como contratante e pessoa física. Gosto de trabalhar com gente que se dedica e tem caráter. As competências técnicas também se fazem necessárias para executar bem as funções designadas, mas precisam estar diretamente atreladas aos valores do candidato como cidadão.

O que você considera que foi o fator mais importante para o sucesso da sua empresa?

André: Certamente o engajamento perfeito do time fizeram da ZeroPaper o primeiro e único caso de exit de sucesso do Brasil. Foi a união de todos nós, combinada às especialidades de cada um e a dedicação infinita ao desenvolvimento contínuo do produto. Além do conhecimento detalhado de mercado que alavancou nosso negócio em apenas três anos contra a média brasileiro de cinco anos para maturação de startups.

O que diria a alguém que está pensando em iniciar um negócio?

André: Para abrir um negócio é fundamental querer resolver um problema e identificar o público consumidor para tal serviço ou produto desenvolvido. Para tanto, monte um time complementar que faça a coisa acontecer e tenha visão clara das finanças/fluxo de caixa de, pelo menos, um ou dois anos, isso é essencial. Analise ainda a concorrência para se diferenciar e nunca se esqueça do brilho no olho, pois é de suma importância para evolução do empreendedor.