Para debater sobre o ecossistema brasileiro de startups – ou a falta dele, comparado ao que acontece no Vale do Silício -, reuniram-se Rafael Costa, fundador da JusBrasil e Rodrigo Cartacho, CEO da Sympla em um painel mediado por Bob Wollheim, head digital do Grupo ABC, durante o segundo dia do CASE 2015, a maior conferência de startups e empreendedores da América Latina.

Rafael Costa abriu a discussão falando sobre o ecossistema baiano, onde se enquadra. Ele diz que embora seja formado por bons e competentes empreendedores, o ecossistema da região é composto de poucas pessoas, onde todos se conhecem e precisam se ajudar. “A ajuda que o network dá é proporcional ao número de conexões que você tem e a qualidade desses contatos. É isso que o Silicon Valley tem de super forte, Eles têm muitas conexões e essas conexões são muito boas. Se a gente for contar o número de contatos que podemos fazer dentro do ecossistema da Bahia, é uma quantidade ínfima em relação ao Silicon Valley”.

dragao do ecossistema

A discussão sobre o tema foi durante o painel “O Dragão do Anti-Ecossistema”

No Brasil, assim como acontece na Bahia, a rede de contatos ainda é muito pequena, assim como a experiência do ecossistema brasileiro. “A gente ainda é muito fechado no compartilhamento de informação”, diz Rafael. Para ele, o que falta para que o nosso ecossistema se aproxime mais do Vale do Silício é que os empreendedores troquem mais informações, expondo o que tem dado certo e o que tem dado errado, porque a troca de informação entre as startups é fundamental para o sucesso de todas e o fortalecimento do ecossistema em que estão inseridas.

Rodrigo Cartacho, ao falar sobre o ecossistema mineiro, do qual faz parte, diz que antes de se discutir o assunto é necessário primeiro esclarecer a diferença entre ‘ecossistema’ e ‘comunidade’. “Belo Horizonte é conhecida como a melhor comunidade de startups do País e eu realmente acredito nisso. A troca de informação que existe nela é uma coisa fora do comum”. Ele cita o exemplo da equipe de vendas da Sympla, startup da qual é CEO. Durante a criação da equipe de vendas da sua empresa, outras duas startups pararam suas equipes para dar treinamento à Sympla. Foram elas Rock Content e Samba Tech, também mineiras. “A gente se reúne bastante com empresas que passam por problemas similares e com empresas mais antigas que já estão com outras dificuldades. Nós trocamos muita informação, o que nos transformou na melhor comunidade de startups do Brasil”.

Embora a comunidade esteja se fortalecendo cada vez mais, Rodrigo explica que para se transformar em um ecossistema ainda falta muito, porque a comunidade é uma pequena parte do que compõe um ecossistema. Para que este se consolide, existe a necessidade de participação ativa do governo, fundos de investimentos e aceleradoras. “A gente tem uma comunidade excelente, mas o nosso ecossistema ainda é embrionário”, conclui.painel dragao

O Hype das Startups

“A gente está perdendo vários empreendedores pelo “hype das startups”, diz Rodrigo. Para ele, pessoas com potencial para empreender estão sendo levadas pela promoção extrema que tem acontecido em volta do termo ‘startup’ e acabam desistindo na primeira falha. Isso é exatamente o oposto do que deveria acontecer com um empreendedor, principalmente se este estiver investindo em uma startup. “Se você toma porrada montando uma empresa, montando uma startup você toma muita porrada! Este hype é perigoso, mas é natural que aconteça”. Para ele, é fundamental que as startups de uma comunidade devam estar mais preocupadas com a produção de qualidade de seu produto ou serviço: “Devemos nos preocupar mais em fazer fogo do que em fazer fumaça”.

Rafael diz que muitos empreendedores, por causa disso, abandonam empregos, abrem startups e passam a participar apenas de eventos e meet ups, acreditando que abrir uma startup é um trabalho fácil, deixando assim a operação de lado, o que dificulta o fortalecimento das comunidades e, consequentemente, do ecossistema.

Bob Wollheim, moderador do painel, diz que o conceito de empreendedor também está inserido neste ‘hype’, onde muitos se consideram empreendedores, mas poucos têm de fato uma empresa. “Atitude empreendedora pode acontecer em vários lugares por vários profissionais, o que é ótimo, mas empreendedor é aquele que abre uma empresa e se dedica a isso. Empreendedor deve ter CNPJ.”.

O que falta?

Rodrigo aponta dois grandes pilares para que o ecossistema brasileiro de empreendedorismo e startups dê um salto. O primeiro deles é o equity. “O ecossistema só gira quando tem um ciclo completo acontecendo. Não adianta a gente investir e criar três milhões de startups na base e não ter nenhuma conseguindo atingir o IPO. Isto é um ciclo, e no Brasil ele não fecha”. O segundo pilar, segundo Rodrigo, é incentivo governamental. O Custo Brasil é alto, o que traz um lado bom e um ruim, diz o CEO da Sympla. Por um lado, torna difícil que as startups brasileiras consigam competir com as de fora, mas por outro, forma um ‘escudo’ que impede que empresas de fora se consolidem no Brasil, abrindo espaço para que as nacionais ganhem o mercado do País.

Rafael concorda que no Brasil falta incentivo e investimento para o mercado das startups. “Ecossistema, para mim, é a junção de talentos e recursos. Falta aqui uma cultura de fomento ao empreendedorismo”. Segundo ele, empreender no Brasil é uma atividade vista como incerta e perigosa, onde quem se arrisca nela é desencorajado e essa é uma das diferenças fundamentais entre o ecossistema brasileiro e o norte-americano.

“Desde a base nós somos criados para sermos iguais e o espírito empreendedor é podado”, afirma Bob. O que fazer para mudar esta realidade? “Se cada um fizer uma pequena mudança de atitudes em seu dia a dia e pensar, por um momento que seja, no coletivo e não no indivíduo, a gente faz uma revolução”, conclui.