O Startupi acompanhou uma palestra do Marco Gomes, fundador da boo-box, no Hospital Innovation Show e resolveu compartilhar com vocês um pouco dessa trajetória empreendedora tão inspiradora. Marco começou falando sobre William Shockley, um físico e inventor estadunidense criador do transistor, dispositivo eletrônico semicondutor que cumpre funções de amplificador, oscilador, comutador ou retificador. Graças a ele é que temos hoje computadores pessoais, telefones celulares e muitos outros equipamentos eletrônicos compactos. Em 1956 ele recebeu o Prêmio Nóbel de Física e com o dinheiro do prêmio fundou a Shockley Semiconductor Laboratory em Mountain View, na California, que na época não representava muita coisa.

Sua estratégia para montar uma equipe foi chamar jovens de alto potencial entre 20 e 40 anos. Apesar de ser um gênio, Shockley não era um bom empreendedor e não conseguia criar um ambiente agradável para os trabalhadores. Com isso, 8 de seus funcionários saíram da sua empresa e abriram a Fairchild Semiconductor, chamada de a startup original. A Fairchild foi responsável por criar o que hoje conhecemos por Vale do Silício.

A Fairchild é tão importante que 91 empresas que existem hoje, remetem suas origens a Fairchild Semiconductor. Alguém que estava na Fairchild fundou essa empresa, foi investidor ou mentor. Algumas empresas que a origem pode ser rastreada e chegar na Fairchild são: Apple, Google, Oracle, Facebook, Intel, Cisco, Amazon, entre outras.

Foto: Divulgação

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Esse ecossistema que eles criaram no Vale gerou 2.1 trilhão de dólares na economia americana. Ou seja, tudo começou com William Shockley, que mesmo não sendo um bom empreendedor, teve uma iniciativa. A iniciativa de cada um de nós tem poder de fazer muita coisa. Todo grande feito humano foi iniciado por alguém, porque não um de nós?

Marco Gomes estava um dia navegando na internet e percebeu que a publicidade feita pelas agências que ganhava prêmios, leão em Cannes, lápis de prata em Nova York e vários outros pelo mundo, eram feitas e veiculadas apenas em 6 grandes portais no país. Marco percebeu que a audiência de consumo de conteúdo estava migrando dos grandes portais para as redes sociais e blogs. Ele percebeu esse movimento todo em 2006, quando fazia uma publicidade incrível com joguinhos interativos, mas precisava ligar ou mandar mensagem pedindo para que seus amigos acessassem os portais para que eles vissem a publicidade. Ou seja, não fazia parte do hábito de seus amigos entrar nesses grandes portais.

“Eu pensei, estamos colocando a publicidade em lugar errado, pelo menos para uma grande parcela da população que são os jovens da minha idade”.

Marco Gomes, Fundadoro da boo-box

Marco Gomes, Fundadoro da boo-box Foto: Divulgação

Pensando nisso, ele decidiu fazer um modelo de publicidade em blogs que fosse interessante, inteligente e com alto poder de segmentação. Marco criou um protótipo em 2006 e em 2007 publicou e enviou para o TechCrunch, maior portal de tecnologia e empreendedorismo do mundo. Para surpresa, tivemos o Brasil estampado no TechCrunch representado pela iniciativa de Marco, conhecida como boo-box, que depois disso recebeu muito reconhecimento, abordagem da mídia, parceiros de negócios e até investidores.

Marco iniciou uma conversa com a Monashees Capital, que hoje também é investidor da 99 Taxi e Peixe Urbano. Na época eles ainda não tinham nenhum investimento e explicaram para Marco que o que ele tinha desenvolvido tinha um valor e o questionaram se ele gostaria de transformar essa ideia/produto em uma empresa.  “Eu era um menino de 20 anos de idade, não tinha nem pensado em fazer uma empresa do negócio que eu tinha feito. Eu achei que fosse ser um projeto open source, mas não, eles falaram vamos fazer uma empresa. O que eu ouvi foi: Você entra com o seu capital intelectual e nós entramos com um investimento inicial de mais 300 mil dólares. Isso para um moleque de 20 anos, que morava em Brasília e que ainda estava estudando, é um negócio muito louco. O cara me falou que o que fiz valia centenas de milhares de dólares e eu fiz esse negócio em quatro noites”.

A partir daí, Marco decidiu abandonar a faculdade e o antigo emprego e se mudar para São Paulo para fundar a sua empresa.

Marco conta que a boo-box recebeu um investimento inicial de 300 mil dólares, o que pode parecer muito, mas eles precisaram fazer esse dinheiro durar até que conseguissem pagar as próprias contas. Seu plano de negócio inicial dizia que eles teriam seus primeiros clientes em 3 meses e que estariam pagando suas próprias contas em 6 meses, mas na verdade demorou 18 meses para eles terem o primeiro cliente. “O dinheiro que a gente tinha projetado para durar 6 meses, nós tivemos que fazer durar muitos anos. Foram 18 meses só para conseguir o primeiro cliente, para conseguir pagar as próprias contas, foram vários e vários anos. Foi um período difícil em que a gente precisou economizar muito”.

Marco conta que um ponto muito importante foi a confiança e entrega que rolou entre ele e os investidores. “É muito legal pensar que eles acreditaram em mim e no potencial que o projeto tinha apesar de eu ser muito jovem, usar regata e dreads no cabelo durante as primeiras reuniões. Eu mesmo li todos os contratos, pois não tinha acesso a advogados, então foi realmente uma confiança mútua muito grande”.

"Você investiria 300 mil dólares nesse jovem?" brincou Marco durante sua palestra

“Você investiria 300 mil dólares nesse jovem?” brincou Marco durante sua palestra Foto:Divulgação

Com o tempo ele conseguiu criar o que queria e se propunha a fazer. A primeira coisa foi criar uma rede de sites, para que os clientes tivessem o mesmo alcance que tinham nos grandes portais. Blogs são pequenos e por isso, era preciso criar uma rede com vários blogs para que eles juntos tivessem uma relevância de um grande portal. Hoje são 700 mil sites usando o boo-box e através desses sites eles alcançam 67 milhões de pessoas no Brasil, o que equivale a 6 de cada 10 brasileiros conectados, número maior do que a população da França, por exemplo. Hoje eles atendem cliente como Bradesco, Itaú, P&G, Petrobras, entre outros. Marco afirma que esses anunciantes também são responsáveis por essa inovação, pois eles poderiam muito bem estar colocando dinheiro apenas no Facebook e no Google, mas hoje eles já estão reservando uma parte para investir em uma empresa brasileira com uma proposta diferente.

7 anos depois…

A boo-box estava indo bem, mas a veia empreendedora de Marco de inventar coisas novas estava falando mais alto. Em 2013 ele estava muito ativo no ciclismo, pensando no mundo dos esportes e querendo criar alguma coisa para esportistas e pessoas que buscam uma melhor qualidade de vida. Ao mesmo tempo, ele estava usando muitos programas de benefícios como smiles e concentrando todos os seus gastos em cartão de crédito para trocar por milhas. Ele também estava usando o wearable, pulseira inteligente que consegue medir passos, movimentos e outras coisas. Marco percebeu que o wearable depois de um tempo não tem mais valor agregado para a pessoa. “Depois que a pessoa descobriu o seu hábito usando a pulseira por três meses, por exemplo, ela deixa de ter utilidade, além de você precisar carregar na tomada e sincronizar com o celular”. Uma estatística diz que nos EUA os wearables vão para a gaveta depois de 6 meses. Marco realizou pesquisas e descobriu que poderia criar uma startup que juntasse essas três coisas: Os wearables são inúteis depois de seis meses,  programa de benefícios e esportes. “A minha pergunta foi a seguinte, e se a gente desse pontos smiles ou múltiplos para as pessoas que fazem atividades físicas?”

Dados que Marco levou em consideração:

  • Sedentarismo é responsável por 54% do risco de morte por infarto
  • Sedentarismo causa 13% das mortes no Brasil e mata tanto quanto o cigarro
  • 70% dos adultos não praticam exercícios físicos
  • A França quer pagar 20 milhões de euros para estimular a ida ao trabalho pedalando, economizando 5.6 bilhões na área de saúde.

Mercado

  • Programas de benefícios já movimentam 2 bilhões de reais por ano no Brasil e ainda estão em processo de adoção pela classe C
  • Prática esportiva representa 1.9% do PIB brasileiro, o que representa 72 bilhões de reais com crescimento de 5.77% a.a.
  • Grupos de corrida apoiados por grandes empregadores já são uma febre no Brasil

Com base nisso nasceu a Mova Mais, programa de benefícios para quem se exercita, o primeiro programa de fidelidade voltado para indústria e varejo de health e fitness.

Marco destaca um ponto importante que a maioria das pessoas que estão empreendendo na área de saúde no Brasil, estão especificamente empreendendo para a área médica, focando em ajudar o médico como por exemplo, com prontuários.

“Fomos para um lado totalmente novo e diferente que é o health e fitness, que também é saúde, mas que ainda não existe muitas pessoas focando nesse mercado no Brasil”.

A tecnologia utilizada é simples, o Mova Mais acompanha o hábito de atividades físicas das pessoas importando os dados através de apps que as pessoas já utilizam no celular como Starava, Runkeeper, Mapmyfitness, em que os ciclistas, corredores, utilizam para verificar a distância percorrida, velocidade e etc.

Um ponto importante que o empreendedor destaca é que eles não tentaram criar um novo hábito nas pessoas. “Se fizéssemos o nosso próprio aplicativo, nós teríamos que ficar falando para as pessoas usarem quando elas fossem treinar e iriamos concorrer com outros aplicativos já existentes. Ao invés disso, fomos para o caminho mais simples em que a pessoa só precisa fazer um cadastro e autorizar o acesso às informações dos outros aplicativos. Isso é o invisible app, um conceito muito novo, um aplicativo que funciona mesmo quando você não percebe que está sendo usado”.

O aplicativo analisa os dados de exercícios realizados pelas pessoas que podem ser trocados por passagens áereas, diárias em hoteis e muito mais. Com 100 dias de operação a Mova Mais já conta com 60 mil usuários cadastrados. Marco conta que uma riqueza é a quantidade de dados que eles conseguem capturar. Em 100 dias eles já computaram 4.3 milhões de km de atividades entre corrida, caminhada, pedalada e atividades adaptadas em cadeiras de rodas. Isso é o equivalente a 105 voltas na Terra, 5 viagens de ida e volta até a lua e 1 volta em torno do Sol.

Então voltando aos 8 empreendedores do inicio do texto que fundaram a Fairchild Semiconductor em 1956, dois deles especificamente são muito importantes na história de Marco, Gordon Moore  e Robert Noyce. Uma sequência imprevisível de acontecimentos fez que por acaso o trabalho desenvolvido por Marco na boo-box e de criar algoritmos de segmentação, de alguma forma se ligasse ao trabalho desses dois caras que basicamente inventaram o que chamamos hoje de Vale do Silício. “Foi algo incrível! Uma situação totalmente imprevisível em que a minha história e o que eu fiz de alguma forma teve relevância para pessoas que estiveram ligadas a esses caras. É o caso Intel Capital e esses dois caras são nada mais, nada menos, que os fundadores da Intel. Então de alguma forma a minha história se ligou a esses gênios que mudaram a história da computação”.

A mensagem final que Marco deixa é a seguinte “Acredite no que você está fazendo! Tenha consciência de que as coisas aparentemente insignificantes podem sim ter um impacto relevante e pense diferente, assim como fizemos na Mova Mais”.

Lembram daquele “moleque” de dreads, de Brasilia? Então, além de tudo o que ele criou, ele foi o único representante da América Latina a participar e palestrar no conselho da ONU que discutiu questões ligadas a ciência, tecnologia e inovação em Nova York em 2013.