O Startupi acompanhou o painel “Empreendedores digitais: Saiba como nativos digitais brasileiros podem ajudar você a tentar coisas diferentes”, durante o Symposium/ITxpo 2015, organizado pelo Gartner, líder mundial em pesquisa e aconselhamento sobre tecnologia.

Com participação de Ailton Brandão, CIO da Kroton, Flavio Pripas, Diretor do Cubo, Michel Levy, Presidente da Zatix, Luis Claudio Mangi , Vice-presidente de pesquisas do Gartner e mediação de Ricardo Amorim, Economista e Presidente da Ricam Consultoria, foram abordados temas como crise, oportunidades, empreendedorismo, educação e muito mais. Confira abaixo os destaques do painel.

Foto: Fernanda Santos

Foto: Fernanda Santos

Crise! Essa é a palavra do momento no Brasil, crise moral, crise econômica, crise política, não se fala de outra coisa por aqui, mas Ricardo destacou um ponto interessante e que tem pouco destaque. Nos últimos quinze anos a população do planeta dobrou e a renda per capita quintuplicou, em outras palavras, nos últimos quinze anos, multiplicamos a renda do mundo por dez. Nos 2 mil anos anteriores também multiplicamos a renda do planeta um pouquinho mais do que dez. Ou seja, em quinze anos nós geramos o mesmo crescimento de riqueza que nos últimos 2 mil anos, mas só falamos de crise. Todo esse movimento e crescimento aconteceu por duas razões, uma ligada a globalização, a inserção da China e Índia no mundo e a outra, devido a tecnologia.

E como essa nova geração digital muda o mundo?

Ricardo conta que pegou sua filha de 3 anos com uma revista tentando mudar de página com o touch, passando a mão pela revista e ao ver que nada acontecia, ficou brava. Ricardo então questiona será que a educação está pronta para os nativos digitais?

Ailton afirma que no mundo inteiro essa é a discussão número 1 no universo da educação. Ele destaca que o mundo está em processo de revolução para entender como receber esses novos usuários, alunos e estudantes. Várias tentativas e abordagens estão sendo testadas, mas por ser uma mudança de paradigma, envolve mexer na cadeia inteira, desde como vai funcionar a sala de aula, livro, professor, diretor e mais, ele garante que não é tão simples como colocar o livro no tablet. Ele afirma que os alunos não querem isso, os alunos querem algo interativo, que eles possam acessar a hora que quiserem, o que chamam de PDF 3.0.

Falando em algo transformador, Flavio Pripas, que está liderando o Cubo, iniciativa de fomento ao empreendedorismo, fala sobre as iniciativas que são realmente transformadoras. Ele conta que dentro do Cubo os empreendedores estão abraçando os problemas reais muito motivados em fazer acontecer. Ele destaca que o que está acontecendo nos últimos anos é que os nativos digitais partem do pressuposto que o futuro é imprevisível e com isso ele partem do pressuposto que eles podem tentar diversas possibilidades e através desse teste é que eles resolvem os problemas da humanidade. É isso que está transformando a vida de todo mundo.

Ricardo então destaca que na lógica linear a ideia que tínhamos de carreira antigamente é bem diferente do que temos hoje, antigamente não se imaginava começar a carreira em uma empresa pequena. Sendo assim, ele questiona Michel sobre a grande diferença entre estar em uma grande e pequena estrutura do ponto de vista para se preparar e construir o que é realidade para os nativos digitais.

Michel destaca que o empreendedorismo existe seja em uma grande ou pequena empresa, o único ponto é que dentro de uma grande empresa você precisa criar as condições para permitir o empreendedorismo, principalmente aceitando o erro. O que ocorre é que a velocidade com que você pode fazer isso dentro de uma grande empresa é muito menor do que quando você é empreendedor. Michel conta que já esteve dos dois lados e percebeu de um lado a falta de recursos e de outro, a agilidade e a forma como você pode recorrer a parceiros e criar o seu próprio ecossistema. Ele conta que a tecnologia digital derruba a barreira do custo de entrada. “O importante no empreendedor é que para ele não existe o “não dá”, ele vai lá, faz e experimenta”.

Michel levantou o ponto de que no mundo digital o custo marginal de aquisição de novos clientes é 0, isso muda toda a lógica de funcionamento de qualquer negócio. Como as empresas estão olhando isso? Luis Claudio Mangi ,vice-presidente de Pesquisas do Gartner, afirma que as empresas estão agindo na defensiva. As grandes empresas tem dificuldade de trabalhar com a lógica digital, elas até tentam ter uma iniciativa, mas ainda pensando com uma lógica tradicional, isso explica por que não vemos grandes cases de sucesso. “Não pode tentar ir para um negócio digital pensando com a cabeça tradicional, é preciso reformular a lógica de pensamento”.

Flávio garante que o Cubo, uma iniciativa do Itaú Unibanco junto com a Redpoint eventures, está preenchendo uma lacuna de densidade, sendo um local que conecta empreendedores, estudantes, universidades, mentores, investidores e grandes empresas. Ailton ressalta que toda a academia tem essa preocupação em se conectar ao aluno e incentivar o empreendedorismo.

Para Ricardo o nosso currículo escolar é totalmente engessado com um grande número de matérias e boa parte delas com aplicação muito pequena, ou seja, pouco focado em habilidades. Se você pudesse mudar o currículo escolar, o que você mudaria para preparar melhor os jovens? Michel acredita que a tecnologia pode auxiliar para endereçar o aprendizado individual, visto que cada pessoa aprende de uma forma diferente e também ajudar a desenvolver competências que nós não aprendemos na escola como por exemplo, lidar com o erro, resiliência, preparar para o incerto e mudança, para ele são essas diferenças que farão com que os jovens estejam mais preparados para enfrentar a vida.

Ricardo acha que o empreendedorismo tem a ver com curiosidade e percebe que as crianças têm isso muito forte, usando como exemplo seus 2 filhos pequenos. Mas infelizmente isso em algum ponto, é tirado das crianças. Portanto o que nós podemos fazer para continuar incentivando a criatividade e a curiosidade? Flavio usa um exemplo prático da realidade que falando com muitos empreendedores, fica nítido que o que se corta na verdade é a língua, impedindo com que ela mostre aquilo que ela esta fazendo ou aprendendo. “Na escola, por exemplo, eu nunca aprendi a sentar num palco e falar com o público, pelo contrário, me ensinaram a sentar e ficar quieto”. Isso na verdade é um grande problema, visto que uma das grandes características do empreendedor é saber apresentar sua ideia de forma bem pragmática e rápida seja em 30 segundou ou em 10 minutos, os conhecidos Pitches. “Criar uma interação com os alunos e professor é fundamental” afirma Pripas.

Da mesma forma que a educação leva as crianças a não ousar, não ter curiosidade, será que é por isso que as grandes empresas estão comprando cada vez mais aquilo que elas não tem, mas que tinham no começo que é a capacidade de inovar?

Michel acha que as grandes empresas com modelos mais contemporâneos de gestão com o tempo vão formar líderes que tenham essa visão de tolerância, flexibilidade e mudança. “Hoje ainda existem certas regras de governança, mas existem muitas coisas que podem ser feitas e trabalhadas, empreendendo e desenvolvendo pessoas”.

Flávio diz que conversa com muita empresa que fala de intraempreendedorismo e ele acaba sempre provocando de uma forma que nem sempre é bem interpretado. Ele afirma que se você quer fazer intraempreendedorismo de verdade, precisa pegar os 2,3,4 melhores talentos da sua empresa, despedí-los e dar 2 milhões de reais para que eles construam. Daqui dois anos ou a empresa compra esse novo negócio ou esse negócio dá errado. “Acho que isso é transformador, sai das amarras da empresa e deixa o empreendedor ou novo empreendedor livre para criar, trabalhando com as próprias pernas”.

Flavio conta que quando decidiu ser empreendedor, o pior ponto foi não ter o bônus do começo do ano, mas garante que não existe experiência igual, ele conta que graças ao empreendedorismo ele tem uma rede muito grande de relacionamentos que permite com que ele faça qualquer coisa e para ele,isso não tem preço. “A experiência de andar com as próprias pernas te da uma abertura para o mundo que talvez dentro de uma grande empresa você não tenha”.

Ricardo conta que trabalhou durante muito tempo no mercado financeiro e há seis anos criou sua própria empresa. De todas as suas expectativas, a pior foi achar que ia trabalhar menos e a melhor, foi trabalhar efetivamente com as coisas e projetos que ele gosta e acredita. Isso é um ponto que essa nova geração está trazendo de diferente, hoje cada vez mais as pessoas não ligam apenas só para os resultados da empresa, mas para as mudanças e o impacto que ela vai trazer para a sociedade.

Outro ponto destacado durante o painel foi que uma das coisas que a tecnologia faz é quebrar as barreiras geográficas. A competição que antes era local, cada vez mais está global, nesse sentido será que estamos preparados e prontos para essa competição? Ricardo afirma que muitos brasileiros reagem com medo a esse movimento, mas que na verdade devemos olhar com otimismo e saber aproveitar as oportunidades. Flavio conta que dentro do Cubo existem empresas que já estão trilhando esse caminho e pensando global. Ele afirma que não é fácil, que no Brasil temos poucas estruturas de apoio para você se tornar um player global, mas é algo que está acontecendo.

Ricardo concorda dizendo que no Brasil nós tendemos a perder um pouco da visibilidade das oportunidades e usa como exemplo a compra da SABMiller, a fusão se tornou a terceira maior da história, aliás, das sete maiores, duas foram feitas pelo mesmo grupo, o AB InBev, de capital belga e brasileiro. “Essa ideia de que no Brasil não temos condição de fazer isso ou aquilo, não é a realidade que temos visto”.  E com todo esse movimento em que as pessoas falam que o Brasil não tem mais jeito. como usar o empreendedorismo e tecnologia para mudar essa situação?

Do ponto de vista de tecnologia, empreendedorismo e criatividade, Michel afirma que temos tudo isso, mas deve ser levado em consideração um outro ponto que são as barreiras, burocracia, lidar com o fracasso e financiamento.

Se Flavio pudesse mudar uma coisa no Brasil para facilitar a vida de quem quer montar uma startup seria a questão burocrática de abrir e fechar uma empresa. Outro ponto que ele destaca é que hoje toda empresa de base tecnológica quando vai receber um investimento de fora precisa criar sua estrutura fora do Brasil, pois o investidor não tem segurança jurídica de investir em uma empresa brasileira. “Temos um arcabouço regulatório que impede as empresas de andarem mais rápido e isso é algo que precisamos resolver”. Existe inclusive um movimento chamado Dínamo, composto por especialistas, lideranças e pensadores na temática de Startups e Inovação no país que tem como objetivo facilitar o processo de tomada de decisões e fomentar as discussões técnicas e políticas sobre o tema. Ricardo enfatiza dizendo que não podemos apenas reclamar, mas sim fazer algo para que haja mudanças.

Para finalizar, Ricardo faz uma brincadeira nomeando os painelistas com cargos e questionando a mudança que eles fariam no ministério no seu primeiro dia.

Ailton, nomeado Ministro da Educação e Tecnologia, afirma que é preciso estimular a meritocracia em todos os níveis. “Se você continuar com preocupações sindicais, de grupo, você não consegue resolver o problema como um todo”. Segundo ele é preciso dar autonomia para as pontas e recursos para que as pessoas tenham acesso a melhores feitos e permitir que essas instituições auto geridas com acesso a conteúdos de qualidade consigam avançar.

Flavio como parte do ministério de empreendedorismo, afirma que iria se preocupar com o currículo do ensino básico sobre empreendedorismo no primário. “É preciso mostrar para os jovens que o mundo é muito maior e que é preciso olhar e ter ambição de mudar o mundo”.

Mudando o sistema político no Brasil, parlamentarismo, Michael sendo o primeiro ministro afirma que é importante começar a desburocratizar todo sistema fiscal e legal para que as pessoas possam empreender sem o peso da espada em cima da cabeça. Luis Carlos concorda  dizendo que é preciso repensar o país e rever o pacto federativo.

Ricardo finaliza dizendo que acha o momento oportuno para discutir todos esses assuntos se quisermos mudar e criar condições para o empreendedorismo e para que a educação seja voltada para um mundo diferente. “Vamos educar empreendedores! Já estamos educando cidadãos, mas mais do que isso, precisamos investir nas pessoas que vão fazer as mudanças que queremos que aconteçam no Brasil”.