* Por Elber Mazaro

Olá, este é o segundo artigo da série que me propus a escrever, contando um pouco da minha dissertação de mestrado que também contempla a minha experiência recente e a teoria sobre o processo de transição de carreira de um executivo para empreendedor.

Após descrever no primeiro artigo a dinâmica da dissertação e porque estou trabalhando com este tema, chegou a hora de apresentar alguns detalhes sobre o ponto de partida, que na verdade é a minha vivência e transição. Este é um tema delicado porque eu posso apresentar apenas o meu ponto de vista no momento, ou seja, uma perspectiva própria que pode ser diferente para outras pessoas que eventualmente conhecem ou participaram da minha trajetória.

Após quase 25 anos atuando no mercado empresarial/corporativo, com uma carreira que alcançou um nível executivo de destaque (Diretor de Marketing para América Latina), tomei da decisão de empreender, o que significou trabalhar por conta própria, ou seja, com independência e fazendo o que desejo.

Este processo se iniciou efetivamente em 2011 e durante sua vigência pude notar ser cada vez mais comum no mercado de trabalho corporativo, o interesse por este tipo de transição profissional, motivada por curiosidade, por necessidade ou por vontade.

Existem muitos elementos influenciando uma decisão crítica, como a de parar a escalada de uma carreira corporativa e mudar o rumo para opções mais independentes. Tudo o que o executivo viveu até o momento de mudança tem seu valor e influência.

Normalmente é a partir de uma crise que se dispara o processo de transição. É comum que esta crise ocorra por mudanças na vida pessoal, profissional ou em ambas. No meu caso, a “crise” ocorreu com mais uma mudança de gestão da empresa na América Latina, à qual eu estava subordinado, e isto gerou estresse, incômodo e insatisfação da minha parte. Este foi o gatilho, mas com certeza existiu um acúmulo desgastante de situações por muitos anos.

Normalmente o primeiro passo, quando se está incomodado com a situação, é o  processo de reflexão, o qual para mim durou pelo menos 16 meses até uma decisão maior, e teve apoio de várias frentes: desde outros executivos, passando por uma coaching profissional externa à empresa, e muita troca de informações e experiências na família, com colegas e amigos.

O processo de coaching foi fundamental na reflexão, porque permitiu uma revisão mais profunda sobre temas como: propósito pessoal, contribuições para a sociedade, foco, produtividade e a própria busca pela felicidade. Resumindo bastante, as maiores conclusões que extraí deste exercício de autoconhecimento foram:

  • Eu já havia atingido um objetivo da busca (inconsciente) por necessidades como conforto, segurança e reconhecimento, ou seja, já tinha acumulado recursos suficientes para atender a estas necessidades da minha família, por muito tempo e portanto não fazia sentido seguir perseguindo isto no futuro;
  • Descobri que estava adotando uma postura temerosa a fracassos, a qual muitas vezes bloqueava o meu engajamento emocional mais amplo com as pessoas, principalmente no exercício da liderança.

O segundo passo no meu processo para sair do incômodo/insatisfação profissional, foi a decisão de deixar o posição que ocupava na América Latina e buscar novos caminhos dentro da própria empresa. Rapidamente ficou claro que só poderia seguir com a mesma companhia, se encontrasse uma posição de nível semelhante em outro país, talvez nos Estados Unidos. É bom lembrar que na carreira executiva quanto mais próxima do topo, menos vagas existem. Após algumas consultas também percebi que não desejava mudar de país para seguir trabalhando na mesma empresa, com o mesmo tipo de carreira profissional e todo os problemas relacionados.

Neste momento o mais comum é se olhar para fora, no mercado de trabalho, priorizando empresas do mesmo segmento. Isto também ocorre quando um executivo é dispensado. Em função de ter me mantido muito ligado ao mundo externo da empresa, eu também pude constatar em pouco tempo que as possibilidades de carreira executiva no mercado brasileiro de tecnologia não seriam muito diferentes de tudo que eu já tinha vivido e portanto eu poderia ter o mesmo tipo de incômodo e insatisfação com a rotina, com a pouca produtividade, com as viagens/ausências e com a política corporativa que influencia muitas mudanças e decisões etc.

Os resultados do processo de reflexão ganharam força e me permitiram avaliar novas necessidades e motivações, rumo à independência com qualidade de vida.

Os primeiros conselhos que recebi, após a decisão de deixar a empresa e a carreira executiva, foram fundamentais para moldar o meu plano de transição. Sugestões como: não sair gastando as reservas financeiras em projetos ou em sociedades; ou que sociedades são difíceis e para dar certo é necessário tempo, além de uma boa definição dos papéis específicos de cada sócio; estudar, aprender, participar de eventos e atividades empreendedoras é um caminho interessante; aproveitar e usar o tempo para cuidar da saúde, com exercícios e exames médicos; além de priorizar a família, em especial a esposa e os filhos. Tudo contribuiu para um processo em que eu buscava equilíbrio, e que exigiu desde o primeiro momento grande desapego, uma vez que não havia mais recursos da empresa a disposição para atender às necessidades, como carros, secretária, plano de saúde, entre muitos recursos e benefícios oferecidos aos executivos.

A minha transição evoluiu e após vários convites para participação em projetos, além de conversas com “headhunters” interessados no meu retorno ao mercado corporativo, as primeiras opções que fiz foram por afinidade, mas com a característica de não demandarem dedicação integral e investimento financeiro, permitindo a experimentação de situações distintas, em paralelo. Os três projetos assumidos, a partir do meio do ano de 2012, foram: 1) trabalhar com status de sócio junto a uma empresa de comunicação focada em tecnologia, onde eu cuidaria das áreas de marketing e vendas enquanto desenvolvia um planejamento estratégico para o negócio;  2) aceitar o convite para ser vice-presidente de Marketing (voluntário e sem remuneração) em uma Associação de Usuários de Tecnologia que estava sob nova gestão, buscando retomar alguma relevância no mercado de Tecnologia da Informação e; 3) estudar com um colega o mercado de aceleradoras de startups no Brasil, com a proposta de abertura de uma, o que após alguns meses não se mostrou viável.

Após um ano de experiências, o projeto da aceleradora foi substituído pelo antigo desejo de dar aulas, como forma de me manter atualizado e devolver à sociedade algum valor, através do compartilhamento do conhecimento e da experiência adquiridos.

Dois anos depois, a participação na empresa de comunicação com foco em tecnologia foi substituída por um novo projeto, agora mais empreendedor, com jeito de startup: a fundação e lançamento, com um sócio, de uma empresa com foco em conteúdo, serviços e ferramentas para orientação e planejamento de carreiras, e talvez realmente um novo empreendimento com caraterísticas de inovação.

Quase que simultaneamente, também foi feita transição da Associação de Usuários de TI para o projeto de fazer o mestrado profissional em empreendedorismo e que está inspirando esta série de artigos.

Hoje no mestrado profissional estudo todo o processo e a teoria para responder à questão: Como um executivo pode fazer sua transição para uma carreira independente/empreendedora?

Já entendi o caso da insatisfação, do incômodo e da crise que normalmente geram um gatilho que dispara a mudança. Há falta de referências e técnicas para orientar um processo que possa ser planejado e conduzido com atenção às caraterística relevantes para que o resultado final seja o bem-estar do profissional e ainda seja possível a geração de valores positivos para a sociedade. Vamos discutir estas caraterísticas relevantes nos próximos artigos, como aprendizados, opções de transição e planejamento pessoal.


Elber Mazaro - Espaço do Executivo / Empreendedor Cofundador do Descomplicando Carreiras. Assessor, Consultor e Professor em Estratégia, Marketing e Carreiras. Mestrando em Empreendedorismo na USP, com Pós-graduação em Marketing e Bacharelado em Ciências da Computação. Possui mais de 25 anos de atuação Mercado de Tecnologia e Liderança de Negócio, Marketing, Vendas, Serviços e Área Técnica.