* Por Flávia Fonseca

A falta de estabilidade do câmbio e as cotações recordes atingidas desde o dia 22 de setembro causam reflexos na economia e o setor de tecnologia também foi afetado. E de que forma isso acontece? A forma mais evidente de verificar a correlação entre a alta do dólar e o mercado de TI é que muitos produtos de tecnologia, assim como de telecomunicações, utilizam-se de componentes importados. Para que se tenha ideia, o setor de tecnologia é o 5° setor que mais  importa produtos (US$ milhões) e o 4° é o setor de Telecomunicações, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

Quais os principais produtos de tecnologia e telecomunicações afetados pela alta do dólar?

Podemos citar os computadores, notebooks, tablets, servidores, cabeamentos (exemplo: cabo de rede patch cord, cabo USB para impressora, fibra óptica etc), pabx e licenças de software (exemplo: CISCO, Microsoft, IBM, Adobe, Oracle etc). No caso das licenças de software, o aumento se dá porque a precificação das licenças é feita em dólar.

A influência do dólar é representativa no setor de tecnologia?

Apesar da importação de produtos/componentes de tecnologia ter diminuído 11%, no comparativo entre os anos de 2013 e 2014, a dependência ainda existe e nem sempre há um substituto nacional adequado para o item importado.

Além disso, como o Brasil não firmou em Julho deste ano o Acordo de Tecnologia da Informação (ITA), maior acordo comercial multilateral dos últimos 18 anos,  que elimina a tarifa de importação em uma lista de 200 itens de tecnologia – desde videogames, GPS, até semicondutores e aparelhos hospitalares como ressonância magnética e ultrasson – perdemos esse benefício e somos mais impactados com as alterações cambiais.

O dólar vai continuar subindo?

Ou melhor dizendo, o real vai continuar se desvalorizando? Essa é a pergunta que não quer calar e, infelizmente, não temos a resposta definitiva. Existem apenas especulações de alguns economistas, que estimam uma tendência de alta e há projeções de que a moeda atingirá R$4,50 até o próximo mês de Dezembro, conforme Andre Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, e Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que foi premiado em 2014 por ter feito a estimativa econômica que mais se aproximou da realidade em 2014. Será que ele vai acertar nesse ano de novo?

Quais as recomendações?

De forma geral, é preciso questionar várias vezes se o custo realmente é necessário e se não é uma decisão por “moda” do momento, apenas. Essa regra é válida não só porque estamos em crise, mas sim, porque devemos ter sempre consciência do que gastamos e porque gastamos, seja na empresa ou na vida pessoal. Outra dica é buscar soluções com custos variáveis, para que você pague somente pelo o que precisa e não tenha um investimento inicial alto.

Exemplificando, separei algumas recomendações para amenizar os efeitos do câmbio em TI:

No caso de servidores:

Para avaliar a melhor decisão é preciso conhecer o TCO (custo total de propriedade) envolvido na compra de um servidor, o que significa considerar todos os custos diretos e indiretos, por exemplo: o custo da compra em si, das licenças de software, de depreciação, de manutenção, e da refrigeração do ambiente (ar condicionado). De posse dessas informações, é possível comparar se é melhor comprar ou alugar um servidor, além disso, também é preciso considerar se o investimento de comprar excede seu budget, porque se isso acontecer, o aluguel será uma opção viável e dependendo da negociação contratual, pode resultar num bom negócio e até trazer em economias de aproximadamente 10%.

Se após a avaliação do aluguel de servidores, o intuito ainda sim for a compra, tente avaliar a possibilidade de instalar Linux, ao invés de Microsoft, devidos aos custos de licença.

Um ponto de atenção é sobre a oferta de redução do preço do servidor mediante a diminuição da configuração desejada, porque isso pode fazer com que você venha a precisar de um novo servidor ou de um aumento da configuração num curto prazo. Fique atento!

É melhor comprar agora ou esperar?

Quanto a dúvida se é melhor comprar agora ou esperar um pouco mais, cada caso é um caso e infelizmente não temos ainda um estudo exato para a área de TI, porém, de acordo com uma pesquisa exploratória qualitativa preliminar realizada por mim com profissionais da área, já se nota aumento  no preço final de pelo menos 15% para os produtos de licenças de software, pabx e servidores, sendo que a percepção de não ter ocorrido aumento de preços em todos os itens importados de tecnologia deve-se ao estoque que alguns fornecedores ainda possuem.

E agora?

Poucos acreditavam que o dólar chegaria a R$ 4 e agora o que era hipótese virou realidade! Lidar com incertezas é desgastante, porém podemos nos preparar e o caminho é nos planejar, gastar com austeridade, buscar informações e estar aberto a mudanças. Não há espaço para fazer tudo exatamente igual se o que mais temos são mudanças a todo o momento. Se você carrega a certeza de que você já tem os melhores fornecedores, os melhores contratos, os melhores custos, as melhores decisões, você não encontrará espaço para mudar nada. Acredito que por melhor que seja tudo o que foi feito até agora, sempre há chance de repensar e desenhar novas possibilidades considerando as variáveis do momento, nesse caso a alta do dólar.

Flávia Fonseca, 33 anos, é uma profissional de TI especializada em gestão de projetos. Atualmente está empreendendo ao fundar a GestaoTi4u, empresa direcionada para TI nas PMEs.