A tecnologia é um pilar que deve ser cada vez mais abordado. Você não precisa necessariamente ter um negócio de tecnologia como um aplicativo por exemplo, mas você precisa utilizar a tecnologia a favor do seu negócio, mesmo que você tenha um restaurante, uma loja de artesanato ou outro negócio que você pensa não ter nenhuma relação com tecnologia. Hoje a chance do seu negócio crescer sem você utilizar esse recurso é muito pequena. Realmente ela pode ser a chave para o seu negócio virar e por isso, é preciso enxergar as oportunidades.

Outro ponto bastante importante e que não é nenhuma novidade, é que o número de mulheres no mercado de tecnologia ainda é muito pequeno. Apesar de existir iniciativas e mulheres que se mobilizaram e criaram seus próprios espaços para discutir sobre tecnologia, aprender novas linguagens de programação e desenvolver projetos inovadores, ainda precisamos de mais.

Ana Fontes, Fundadora da Rede Mulher Empreendedora, conta que todos os anos recebe pedidos de organizações nacionais e internacionais que querem exemplos de mulheres que estejam trabalhando com a tecnologia a favor de seus negócios e infelizmente ainda é muito difícil conseguir esses exemplos.

Camila Achutti de 23 anos, formada em Ciência da Computação pelo IME-USP, enxergou essa realidade de perto quando iniciou a faculdade e era a única mulher da turma. Camila quis entender por que metade do planeta não estava se interessando por tecnologia e descobriu que esse não é um problema do Brasil, mas do mundo e então decidiu criar o blog Mulheres na Computação, uma das maiores referências em português sobre o assunto.

Foto: Divulgação

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Camila já estagiou no Google em Mountain View e depois dessa experiência decidiu voltar para o Brasil e fazer o que ama: mostrar o poder de transformação da tecnologia e empreendedorismo.

Fazendo uma comparação entre Brasil e EUA , Camila destaca que eles tiveram o mesmo problema que nós temos hoje, mas a grande diferença é que eles discutem esse problema a mais tempo. “Eles já superaram a fase do por que fazer e estão discutindo o como fazer e testando”. Camila conta que durante o tempo que morou lá ela nunca voltava para casa para jantar, pois todo dia participava de eventos para mulheres sobre tecnologia e programação. O movimento lá fora está muito efervescente, pois perceberam que se continuarem excluindo metade do mundo da área de tecnologia, que é base para todas as outras, a conta não vai fechar.  Camila também conta que aqui no Brasil você ainda chega em empresas e precisa explicar a importância de inserir as mulheres na tecnologia, o que só faz perder tempo, visto que já poderíamos estar discutindo em como fazer, como as empresas podem contribuir para inserir as mulheres nesse mercado.

Visando incentivar cada vez mais esse mercado Camila ajudou a trazer para o Brasil o programa que existe nos EUA há mais de seis anos, o Technovation Challenge, desafio de empreendedorismo e tecnologia só para meninas, do qual hoje é Embaixadora.

São três meses de treinamento onde as meninas com 15 e 16 anos aprendem desde como ter uma ideia até programar um aplicativo. Sua primeira edição contou com 500 meninas e a segunda com 1600 de todos os estados do Brasil.

Camila também desenvolveu a Maratona de Aplicativos, iniciativa nacional de fomento ao ensino de programação que tem como objetivo fazer com que os alunos tomem para sí sua escolha de formação.

Camila conta que não acredita no sistema educacional da forma que existe hoje. ”Não temos uma matéria que ensine tecnologia, pelo contrário, muitas escolas abominam e obrigam os alunos a desligarem os celulares, ou seja, o professor se coloca contra a todo o avanço tecnológico” argumenta Camila.

O objetivo do projeto é tentar mostrar para os participantes todos os benefícios que ele pode tirar dessa tecnologia. Dentro da maratona os alunos a nível nacional tem uma formação online de programação e eles precisam tentar resolver o problema da educação no Brasil.

Quando questionada sobre suas influências, Camila destaca Sheryl Sandberg, empresária norte-americana e chefe operacional do Facebook desde 2008 e Marissa Mayer, cientista da computação estadunidense que atua como presidente e diretora executiva do Yahoo!. Mas pelo contexto do seu blog, ela começou a estudar história e descobriu exemplos como o de Ada Lovelace, uma matemática e escritora inglesa que foi a primeira programadora da história e Dame Stephanie Shirley, uma empreendedora de tecnologia que fundou  no Reino Unido em 1960, uma empresa pioneira de software só com mulheres. Segundo Camila são esses exemplos que a motivam. “Se hoje a gente acha difícil, imagina naquela época em que essas mulheres não podiam sair de casa, mas precisavam arrumar um jeito de inovar e fazer tecnologia nos anos 60 em que não tinha internet. O que eu estou reclamando? Eu tenho internet, eu tenho voz na rede, eu tenho liberdade. Mesmo sem nada disso elas fizeram coisas maravilhosas e por isso meus grandes modelos são elas”. Camila ainda destaca que essas histórias foram abafadas  assim como na época de Turing, que poucas pessoas sabem, mas por trás de Turing existia uma mulher: Joan Clarke, uma das mentes brilhantes responsáveis pela quebra das mensagens secretas nazistas. Pena nunca ter levado os créditos por contribuir de maneira bastante ativa no que pode ter dado fim à Segunda Guerra.

Dulce Xavier, Secretária Adjunta da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, afirma que o poder público tem um objetivo importante que é contribuir para que as mulheres desenvolvam sua autonomia em todos os campos, seja enfrentando a violência ou participando politicamente. Em relação ao trabalho e participação na sociedade, eles procuram apoiar iniciativas como o prêmio Mulheres Tech Sampa, que aconteceu em 2014, estimulando com que as mulheres tenham a oportunidade de conhecer e se aproximar dessa realidade da tecnologia. “É importante criar um ambiente em que a mulher se sintam parte desse universo” afirma Dulce.

dulce xavier

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Nós somos quase 50% das chefes de família, estamos na população economicamente ativa, mas vivemos em uma cultura em que ainda considera as mulheres pouco afeitas na área de exatas e tecnologia. Ainda convivemos com aquela ideia de que mulher é coração e o homem razão, onde os homens pensam e agem com consciência de exatas e mulheres servem para cuidar e por isso, devem optar pela área de humanas, na educação e saúde, por exemplo.

As mulheres foram socializadas nessa cultura e muitas vezes elas mesmas colocam certa dificuldade de “Não vou conseguir programar”, “Não vou conseguir me aproximar da tecnologia” por conta do medo que a cultura nos impõe. Assim como dirigir, muitas mulheres encontram dificuldade para dirigir, mas isso é tudo construído culturalmente e precisamos contribuir, criar oportunidades e estimular, para romper essas barreiras. “Nosso papel na Secretaria de Mulheres é estimular, contribuir e aproximar as mulheres da tecnologia, ampliando outras oportunidades para as mulheres participarem” Conclui Dulce.

Ana Fontes comenta sobre o gap de mulheres na tecnologia, na Rede Mulher Empreendedora, por exemplo, apenas de 5% a 7% dos negócios são de mulheres na tecnologia. “Sabemos que temos espaço para crescer usando a tecnologia ou com negócios de cunho tecnológico” argumenta Ana.

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Esse foi um dos motivos que levou a criação do projeto Mulheres Tech em Sampa, iniciativa da Rede Mulher Empreendedora com parceria do Google For Entrepreneurs e a Tech Sampa, política da Prefeitura de São Paulo que apoia o empreendedorismo. São premiadas cinco iniciativas que ajudam outras mulheres a desenvolverem seus negócios utilizando a tecnologia. Então você não ganha por que desenvolveu um aplicativo, mas sim por que você tem uma iniciativa que irá ajudar outras mulheres a entrarem para o mundo da tecnologia. O prêmio é de 10 mil reais para que o os projetos sejam realmente desenvolvidos.

Ana Fontes divulgou em primeira mão a segunda edição do prêmio, onde serão entregues novamente cinco prêmios de 10 mil reais. Além do dinheiro, as vencedoras irão ganhar um ano de mentoria com a Rede Mulher Empreendedora para fazer ainda mais o projeto acontecer.

Camila foi uma das vencedoras da edição de 2014 e conta que muito além do dinheiro, a possibilidade de construir uma boa relação com o poder público foi muito importante. “O fato de você poder fazer uma reunião com a secretaria de negócios, secretaria de tecnologia, abre muitas portas. Começar a dialogar com o poder público e grandes empresas como o Google, acaba sendo mais valioso do que o dinheiro em si”.

Dulce afirma que para a secretaria esse tipo de prêmio só agrega aos seus objetivos que é estimular cada vez mais e abrir oportunidades para as mulheres. Como poder público, é preciso ter um alcance universal, o que não é tarifa simples, para romper alguns paradigmas desconstruindo a cultura que não aposta nas mulheres como possibilidade de responder certos projetos.

Para Camila a primeira barreira que temos que eliminar para tornar um ambiente favorável para que cada vez mais mulheres possam empreender e se destacar no mercado de TI e tecnologia é acabar com os estereótipos. Enquanto continuarmos vendo na mídia e continuarmos colocando na cabeça dos jovens que é o jovem nerd de óculos que faz tecnologia, que esse é um mercado inacessível e que é preciso começar a programar com 5 anos para aprender, não iremos conseguir trazer as meninas e mulheres para esse mundo. “Hoje pela maneira como estamos estereotipando, não damos possibilidade de igualdade, a mulher se quer cogita essa carreira” afirma Camila.

Outro ponto que deve ser levado em consideração, é que antigamente os meninos quando crianças ganhavam vídeo games e as meninas, bonecas. Hoje a realidade é outra, ambos são estimulados com tablets e smartphones desde cedo, o que incentiva as meninas a terem mais interesse por esse universo da tecnologia. “A nova geração nasceu com tecnologia então essa identificação vai ser mais natural” diz Camila.

Assim como hoje temos um equilíbrio em áreas como publicidade e direito onde não existe mais um estereótipo, irá acontecer com a tecnologia, o único problema é a velocidade com que isso vai acontecer. Camila se mostra otimista acredita que iremos conquistar essa igualdade, mas apenas daqui 80 anos, coisa que ela não quer. “Quero estar viva pelo menos para ver alguma transformação, por isso tenho diversas iniciativas para catalisar esse processo”.

Sua expectativa para os próximos anos é de crescimento do mercado. “Apesar da recessão que estamos vivendo, uma área que não irá morrer é a inovação”. Camila também enxerga uma demanda muito grande de profissionais. A secretaria do trabalho dos EUA afirmou que nos próximos dois anos existirão 1.4 milhões de vagas ociosas. Aqui no Brasil esse número não será de 1.4 milhões, mas com certeza existirão muitas vagas ociosas. “Vejo um mercado gritando por ajuda sem ter mão de obra qualificada e excluindo metade do país, isso irá dar uma chacoalhada em todo mundo” conclui Camila.