* Por Rodrigo Garzi

Colocar todas as fichas em uma única aposta é sempre muito arriscado. No caso do bitcoin, não que seja a única aposta de salvação de um mercado carente por inovação há décadas, mas tem se despontado como a mais disruptiva e eficiente.

O problema é que o bitcoin, enquanto moeda, não tem força o suficiente para transformar a maneira como o mundo se relaciona com o dinheiro. O Blockchain sim.

Essa não é uma afirmação de que o bitcoin já era, muito pelo contrário. O bitcoin foi o primeiro caso real capaz de provar que existe como o indivíduo proteger a riqueza que produz de decisões políticas e arbitrárias de empresas e governos que visam seus próprios interesses.

Para entender o que é Blockchain, imagine um grande “livro razão” interligado entre todos os participantes do sistema, no caso computadores, que além de serem os controladores, é a partir deles que os bitcoins são gerados. É bem difícil de imaginar.

O importante é saber que suas características fazem do blockchain uma plataforma para lançamentos de uma nova linhagem de aplicativos nem mesmo idealizada pelos criadores do bitcoin.

Veja agora cinco motivos que irão fazer você se questionar sobre nossa relação com tudo que tenha valor, não só o dinheiro, mas principalmente a reputação das pessoas e marcas.

  1. Transferência de propriedades

Hoje, a aplicação mais popular do Blockchain é a transferência de valores, por uma série de fatores, como por exemplo o crescente uso do bitcoin e a proliferação das carteiras digitais que permitem o envio de valores entre pessoas e empresas de forma segura e simples enviar, como um email.

Imagine agora fazer isso com bens móveis ou imóveis. A princípio, parece algo bastante questionável o fato de pessoas poderem transferir propriedades, como um automóvel, com o mesmo esforço que temos para enviar email. Confiança, Transparência e Segurança são as primeiras questões a serem levantadas.

Considerando que todas essas questões podem ser resolvidas pelo Blockchain, começa a ficar mais claro que essa tecnologia tem um potencial real para ser tão disruptiva como o mundo espera e precisa.

Em relação à transparência, todas as etapas da negociação são 100% públicas e estão gravadas na rede Blockchain, desde o pagamento até o registo de posse, onde qualquer pessoa tem acesso.

Em resumo, o Blockchain através de regras matemáticas, garante que a posse do automóvel será transferida para o comprador desde que a quitação da dívida tenha sido realizada para o vendedor, não importa quanto tempo leve, e o melhor, sem depender de mais nenhuma ação de intermediários.

  1. Redução de despesas

Imagine então se na última vez que participou de uma negociação comercial, seja como vendedor ou comprador, a tecnologia já estivesse mais acessível (em funcionamento já está). A quantidade de tempo e redução de taxas processuais resultaria em uma economia real e atrativa.

Esse único exemplo de operação pode ter um impacto financeiro gigantesco em empresas que prestam um tipo de serviço de intermediação, como financeiras e bancos, e que possuem estruturas robustas de pessoal para controlar a quitação de contratos e transferência de documentos.

As pessoas responsáveis por esse controle poderiam ser direcionadas para desenvolver outras áreas dentro da empresa, provavelmente mais estratégicas e assim com maior potencial de incrementar resultados. Porque não? Sem falar em redirecionar o investimento em tecnologia, que precisa ser constante, de técnicas ultrapassadas para desenvolvimento de novas soluções.

  1. Inclusão social

Em entrevista para o portal forbes.com, o investidor internacional Brian Singer, que também atua como consultor de grandes fundos de investimentos, apontou o Blockchain como a solução mais eficaz para diminuir a pobreza mundial nos próximos anos.

O argumento principal leva em consideração a transferência de propriedades que, nas localidades carentes e afastadas dos grandes centros, é praticamente impossível permitir que um indivíduo consiga ser dono de fato de terreno. Na visão de Brian, apena com a posse o indivíduo tem o compromisso e dedicação suficientes para tornar o seu “pedaço” mais próspero e sustentável para sua futura família.

Trazendo para a realidade brasileira, pequenas comunidades ribeirinhas, populações do enorme sertão nordestino, cidades espalhadas pelo interior de grandes estados e em outros inúmeros casos espalhados pelo Brasil, onde não é possível encontrar órgãos capazes de registrar e garantir a posse da terra, o Blockchain pode tornar pública e garantida a certidão de posse, requisito básico e fundamental para famílias começarem a sair da margem da sociedade.

  1. Serviços financeiros

As primeiras notícias do Blockchain que alcançaram alguma relevância na mídia foram referentes ao bitcoin. E não demoraram a aparecer os primeiros escândalos de fraude, lavagem de dinheiro, crimes. Por outro lado, cada vez mais pessoas desacreditadas com o atual sistema financeiro global começaram a entender que o bitcoin representaria uma independência financeira sem precedentes na história.

Passados mais de cinco anos da criação e primeiras operações com bitcoin, o entendimento dessas instituições está mudando em escala Global. Bancos europeus de relevância mundial começam a investir em laboratórios para estudo do Blockchain, países asiáticos enxergam na tecnologia uma solução para seus corrompidos e desgastados sistemas financeiros e mais recentemente o gigante espanhol Santander realizou uma profunda pesquisa e irá apresentar os resultados no Consesus, maior evento sobre Blockchain do mundo que ocorrerá no mês de setembro em Nova York.

As primeiras operações de remessas internacionais via Blockchain são exemplos disso. A tecnologia usada pela maioria dos bancos está muito ultrapassada, desenvolvida a mais de 30 anos atrás, e torna a emissão de valores “cross boarder” um processo ineficiente, caro, arriscado e com pouquíssimo controle. Já, usando o Blockchain, a remessa pode ocorrer quase em tempo real, totalmente segura, rastreável e mais barata para ambas as partes.

  1. Valor do conhecimento

Outra aplicação possível do Blockchain que pode ter um impacto direto na vida de milhões de pessoas é através das possibilidades que o micro pagamento oferece. Micro pagamento quer dizer quantias pequenas que são inviáveis financeiramente e operacionalmente nas transações financeiras atuais. Por exemplo operações de um centavo via débito, crédito, cheques, transferências…enfim.

Uma das aplicações mais inovadoras do micro pagamento é no consumo de conteúdo qualificado. Vídeos, fotos, textos que possam mostrar aos clientes que determinada marca realmente entende do assunto. O cliente para ser conquistado não precisa mais de campanhas bonitas, precisa de conteúdo de qualidade. Um conteúdo que faça sentido, que não apenas pense em vender, que traga consigo algum grau de aprendizado, que encante pessoas.

Traduzindo isso em posts, vídeos, blogs que possuem perto de um milhão de likes…qual o valor do conhecimento ou da reputação das pessoas e marcas?

Enfim, não se trata de salvar o bitcoin, mas sim de tirar o peso de ser o “salvador” das costas dele. O crescente interesse por parte dos bancos e empresas começa a ter um papel inverso em alguns grupos de defensores do livre mercado. Mas isso não pode ser visto como um tipo de “censura”, pois a tecnologia descentralizada vai continuar existindo e a busca pela independência financeira não vai regredir.

O que estamos vivenciando é a realidade de que, sem as devidas parcerias, essa tecnologia pode nunca vir a ser o que realmente foi desenvolvida para ser.

Rodrigo Garzi é cofundador da Startup PagCoin, primeiro processador de pagamentos em Bitcoin do Brasil