No final do ano, perguntamos aos leitores: vai empreender em 2015? Aproximadamente uma centena de pessoas respondeu a um questionário. Vamos abrir hoje um pouco das respostas. Uma parte não impressiona, mas 68% dos respondentes indicam que a vida será dura para os investidores.

Uma das coisas mais apontadas como diferencial entre o Vale do Silício – ou os Estados Unidos em geral – versus Brasil é o fato de que lá o empreendedor é o mais procurado, enquanto aqui o investidor é o mais procurado. O motivo mais comumente apontado é a quantidade disponível de cada um: lá já tem muito empreendedor que ficou rico e virou investidor, então os empreendedores podem ser mais seletivos sobre quem escolhem como investidor (maior oferta de investimento).

Por aqui, a Anjos do Brasil fala que em torno de 3 mil pessoas se dizem investidores anjos, mas observando a imprensa, os eventos, os dados de mercado e as conversas da comunidade, poderíamos juntar todos os anjos, fundos e empresas de investimento realmente ativos no meio startup que ainda não teríamos 100 no Brasil inteiro.

Atualização: a Maria Rita Spina Bueno, diretora na Anjos do Brasil, me alertou que, apensar de nem todos os 3 mil investidores anjos mapeados sejam participativos na comunidade de startups, eles também fazem investimentos em startups de forma recorrente. Portanto, isso apenas significa que eles não estão liderando prospecção, desenvolvimento de ecossistema, desenvolvimento das empresas. De qualquer forma, a quantidade de investidores é uma informação paralela neste artigo, que trata sobre outra coisa (de que forma as pessoas pretendem empreender em 2015). Independentemente do número, ainda vai ser muito menor do que o número de empreendedores e deve manter a diferença proporcional com relação aos Estados Unidos, onde apenas a entidade nacional Angel Capital Association conta 12 mil investidores qualificados* cadastrados como anjos na sua rede (fora os que não se associaram, os que não são qualificados e os que ainda não atualizaram na contagem, fora os VCs, holdings, fundos, etc). *Investidor qualificado significa aquele tem patrimônio considerável comprovado, ou receita estável considerável comprovada.

Empreender não se resume a investimentos e investidores. O questionário traz muito mais informações, e cruzá-las todas vem sendo curioso e trabalhoso. Ao lado de algumas coisas que não causam surpresa, surgem pérolas como o fato de que 59% dos que vão abrir empresa ainda não tem um modelo de negócio baseado em validações, customer development: a maioria se baseia em conhecimentos prévios, sem validação ou teste e praticamente um quarto dos respondentes assume que não sabe ou não consegue definir um modelo de negócio.

Terá sócios-investidores?

  • 36% “não teremos, seremos apenas os empreendedores” (21% destes já fundaram negócio antes);
  • 21% prevejo que teremos de buscar mas não sabemos como;
  • 11% preferimos buscar uma fonte externa alternativa (edital ou outra forma de investimento que não seja societária; destes, 30% já fundaram negócio antes).

Ou seja, todas essas três respostas indicam 68% dos respondentes não vão bater na porta dos anjos, fundos, holdings, firmas. Ou porque não querem, ou porque preferem outra coisa, ou porque não sabem como. Para mim, esta é a pergunta mais significativa do questionário, porque os investidores são uma parte muito importante e querida do nosso mercado, mas costumam “sofrer” com o fato de receberem muitos formulários e emails com planos de negócio ruins, se queixam da dificuldade de achar os empreendedores e negócios claramente bons.

Talvez, a estratégia de “se esconder” da imprensa e de eventos públicos (para não receberem uma enxurrada de coisas que não gostam) esteja dando certo. Mas talvez isso jogue contra a indústria investidora: 36% não quer investidor e 11% prefere dinheiro carimbado e burocrático do governo, talvez sem todo lado “esperto, experiente e bem-relacionado” dos investidores.

Empreendedores e agentes que os apóiam também tem muita coisa a repensar. Vejamos um pouquinho mais das outras respostas abaixo. Quem quiser, ainda pode responder ao questionário aqui.

Já fundou um negócio antes? 

  • 33% sim.

Você vai fundar o negócio sozinho ou com sócios?

  • 33,% sozinho (destes, 20% já fundaram um negócio antes).

Sabe em qual problema focar?

  • 47% tenho um bom conhecimento sobre um problema que vale a pena ser resolvido por meio de um negócio (destes, 34% já fundaram um negócio antes; destes, 78% já tem sócios).

Sabe como vai ser seu produto?

  • 28% tem um protótipo;

Já modelou o funcionamento da empresa?

  • 35% já defini um modelo de negócio mas ainda não testei (destes, 22% não estão pensando em problema para resolver, 61% já tem um bom conhecimento sobre um problema);
  • 24% não sei ou não consigo definir um problema de negócio (destes, 14% já fundaram negócio antes).

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