Matéria por Bia Granja*

Ninguém assiste TV mais, como eu poderia contar as histórias dessas pessoas?“, é assim que Bruno Pesca, apresentador do Inspire, justifica a criação do seu canal no Youtube sobre histórias de pessoas que estão fazendo as diferença no mundo.

Ainda tem muita gente que assiste televisão aqui no Brasil, mas é fato que as audiências mais jovens não tem o hábito de ligar a TV e que a internet é a nova (velha?) central de produção de entretenimento no mundo todo, com foco principal no Youtube e o conteúdo em vídeo.

Uma pesquisa já mostrou que pra esse público, as celebs do Youtube são mais importantes e influentes do que as de Hollywood. No Brasil não teve pesquisa, mas dá pra afirmar com 110% de certeza que o cenário é bem parecido, vide o que acontece em eventos como youPIX, BGS e similares.

Nos Estados Unidos, os grandes grupos de entretenimento já sacaram isso, Hollywood está inteiramente voltada pro Youtube neste momento, estão chamando Los Angeles de “Silicon Beach” (uma alusão ao Silicon Valley em San Francisco) e houve um movimento grande de compra de networks de canais de Youtube esse ano.

A Disney comprou a Maker, maior newtork do mundo com 50 mil canais, por 1 bilhão de dólares, sendo a metade disso em grana e ações e o restante a ser pago baseado em performance (o que, certeza, não deve ser um problema pra network). A Discovery comprou a Revision3 por 30 milhões de dólares. Dreamworks comprou a BigFrame por 15 milhões e a AwesomenessTV por 33 milhões. A Warner investiu 18 milhões na Machinima e a AT&T e o The Chernin Group colocaram mais de 200 milhões na Fullscreen.

Pois aqui no Brasil os grandes do entretenimento começam a se voltar pro Youtube também.

Luciano Huck e as startups

Em 2010, Luciano Huck criou junto com outros sócios um fundo de investimento, o Joá Investimentos, com foco exclusivo em startups e um olhar especial pro universo digital: investiu no Peixe Urbano (assista entrevista exclusiva), na Pinion e no canal Porta dos Fundos, fenômeno do Youtube que fez com que o público e o mercado voltassem seus olhares pro site de vídeos como um ambiente de conteúdo profissional e com capacidade de gerar negócios reais.

“[Julio Vasconcellos, CEO do Peixe Urbano] plantou uma semente na minha cabeça quando veio falar comigo sobre o boom das redes sociais, e eu comecei a entender mais o que estava acontecendo nesse mercado digital. Vi que tinha um mundo muito interessante de que eu não estava participando, porque meu tempo era todo da televisão”, contou durante o CEO Summit, evento organizado pela Endeavor no mês passado.

Com participação em mais de 20 negócios diferentes que vão de moda a tecnologia, a coluna Radar da Veja disseque a Joá teve um lucro líquido de 8,6 milhões de reais no ano passado. E agora eles vão buscar aumentar esse valor com a nova empreitada, a Network Brasil, ou NWB, uma rede de canais de youtube.

Além da Joá, a NWB tem a e.Bricks Digital como investidora e o “Kibeloco” Tabet entre os sócios. De acordo com o vídeo e o descritivo no canal da newtork no Youtube, “a Network Brasil é uma empresa de criação de conteúdo audiovisual para distribuição multiplataforma. Criamos canais originais, profissionalizamos e customizamos conteúdos de diversos grupos de interesse. Somos acima de tudo uma comunidade de criadores que usa da colaboratividade de serviços e experiências para criar o melhor conteúdo online possível e fazer com que ele chegue a quem interessa”.

Poucos e bons

Alguns dos canais que já fazem parte da NWB: Desimpedidos (que fala sobre futebol e tem Felipe Andreoli na equipe), Acelerados (do Rubinho Barrichelo), o Fatality e o Fataly Torneios (canais que cobrem tudo o que rola no mundo do esport, mercado milionário), Inspire (do apresentador Bruno Pesca sobre pessoas e negócios que mudam o mundo), SkateLife (apresentado pelo skatista Bob Burnquist e outros skatistas famosos), o Surforama(que tem vários clipes de surf e patrocínio da Gilette), Não é Série TV (canal conhecido de pegadinhas), o canal oficial do São Paulo Futebol Clube e o Revisão (que tem Gilberto Gil como sócio e fala sobre educação com uma pegada jovem e diferente).

São canais com assuntos bem variados, com produção impecável (dentro de seus temas) e ainda não gigantescos em número de inscritos. O maior nesse quesito é o Desimpedidos, com 440 mil inscritos. E o menor é o Surforama, com apenas 296. A soma de todos eles não chega a reunir nem 1 milhão de inscritos. Porém, na visão estratégica da NWB, isso não é um problema.

Uma nova visão sobre negócios

A empresa não está buscando apenas canais com um número de inscritos absurdos que vão gerar a ela um faturamento baseado em CPM e também não está interessada em colocar muitos canais em sua rede. A visão da NWB é ter poucos e bons canais, dentro de nichos específicos ou temáticas não atendidas por canais “milionários” e gerar negócios maiores, que geram mais visibilidade pras marcas no canal e que representem estilos de vida específicos.

Dessa forma, a NWB consegue fugir do modelo básico de venda por CPM ou de ganhos no long tail (que tem se provado difícil) e passa a trabalhar com formatos que não dependem de um número de views absurdos em cada vídeo, como é o caso de quem vive de adsense. Até para canais com muitos inscritos e muitos views, é consenso que a grana que vem através do adsense é dinheiro de pinga. Uma prova desse modelo de negócios é o canal Surforama, que tem apenas 296 inscritos mas já tem patrocíncio da Gilette.

Ajuda Luciano

Além dos que já estão no portfólio, outros canais famosos estão sendo assediados, como o Desce a Letra do Cauê Moura, Manual do Mundo do Iberê Thenório, o 5inco Minutos da Kefera e outros tantos. E também um novo modelo de trabalho está sendo proposto pra blogueiros famosos que ainda não fazem conteúdo em vídeo: a NWB cuida de toda a produção e o blogueiro entra com sua marca e conteúdo, é o caso, por exemplo, do blog Não Salvo, o maior da web brasileira atualmente.

Os diferencias oferecidos pros Youtubers que já fazem parte de networks é esse tratamento mais cuidadoso que a NWB consegue dar por ter poucos canais em seu portfólio, um valor de CPM mais agressivo e, claro, o próprio Luciano Huck.

A entrada de um player como esse no cenário do mundo dos vídeos online ajuda a aproximar o mainstream da internet. O apresentador tem uma circulação absurda entre as marcas e as agências brasileiras, donas do dinheiro dos anunciantes e que ainda concentram essa verba na televisão. Porém, é bem simbólico que uma das maiores celebridades da televisão tenha voltado seus olhos para o entretenimento produzido na internet. Loucura, loucura, loucura!

“O país é o segundo maior mercado do YouTube no mundo em termos de visualizações, mas ainda não é reconhecido como uma parte importante do ecossistema audiovisual no Brasil”, nos disse o Google quando fizemos uma matéria sobre a campanha de marketing lançada pelo Youtube aqui no Brasil. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o negócio já está firmado como entretenimento ao lado da TV, no Brasil o YouTube ainda encontra desafios pra converter sua enorme audiência em dinheiro.

Talvez tudo o que esse mercado precise é de um cara como Luciano Huck pra mudar esse cenário. Será que ele consegue? Ajuda, Luciano!

*Matéria por Bia Granja, founder, publisher e curadora do youPIX.