Imagino que talvez algumas pessoas ainda não tenham feito suas resoluções de ano novo. Ou mesmo recuperado sua listinha do ano anterior para ver o que faltou fazer. Eu já entrei nesse clima há várias semanas: consegui resolver algumas pendências e já projetar outras coisas para 2015. Por outro lado, imagino também que muitas pessoas já pensaram nas coisas maiores, mudanças mais macro que pretendem fazer: casar, mudar de residência, mudar de trabalho, entrar em um curso. Geralmente, essas coisas maiores não surgem na mente apenas durante o brinde de Reveillon, certo? Aposto que, entre as resoluções grandes e de nossos leitores, muitos pensam em finalmente lançar seu projeto, abrir a sua empresa.

Você vai empreender em 2015?

Responda a este formulário, é como se fosse um check list de coisas que você precisaria se preocupar para começar seu negócio inovador. Publicaremos as respostas no começo de 2015.

Minhas modestas contribuições para orientar quem quer experimentar empreender

Coloquei o formulário com as perguntas porque só estava imaginando e queria ouvir de vocês. Mas agora nem preciso usar a imaginação: quem define que vai empreender, acaba esbarrando na pergunta “mas, como?”. Já passei por isso pelo menos três vezes e tenho uma quantidade grande de sócios, investidores, parceiros, clientes e amigos que passam por tudo isso o tempo todo.

Talvez nem seja a própria pessoa se perguntando (geralmente ela se agarra no sonho e não pensa no caminho), mas sempre surge um familiar, amigo, colega (ou mesmo um estranho que está bebendo no mesmo bar, ou puxou assunto no ônibus) com uma curiosidade genuína ou descrença geniosa. Se você nunca se perguntou como empreender, calma: você ainda vai pensar nisso.

Entretanto, diferentemente de coçar e trair, para empreender não basta começar. Ainda mais se você estiver pensando em empreender ao estilo de uma startup (organização temporária em condições de extrema incerteza com a missão de validar hipóteses em busca de um modelo de negócio escalável). Como diz Peter Thiel em “De zero a um” (veja esta resenha): o que uma startup tem de mais importante é o momento da sua fundação, aqueles dias em que as pessoas se juntam, identificam premissas, fazem as definições em torno de uma visão, dão os primeiros passos. E é muito fácil as pessoas, especialmente os empreendedores de primeira viagem, só pensarem no sucesso sem saber que existem “fatores-chave para fracasso”, especialmente começar um negócio com as motivações erradas (comentadas nO livro negro do empreendedor).

Para evitar isso, muita gente acredita que basta criar um Plano de Negócio, um documento que conta uma historinha de como a turma do barulho vai, mês a mês, se aproximar do pódio, do sucesso. Tudo isso como se fosse uma corridinha de obstáculos, em que basta saber onde fica o buraco na pista e o radar de velocidade. Tudo isso com base em uma linda planilha de cálculos e relatórios-propaganda de algumas consultorias. Tudo isso para convencer os outros de que você sabe escolher uma tendência (o que existe são áreas que carecem de inovação), fazer umas continhas de mais e de vezes, portanto vai fazer seu negócio dar certo. O papel aceita tudo mas a realidade não.

Planos muito detalhistas dão a impressão de “blindarem” seu negócio contra imprevistos, mas isso é um auto-engano violento. Eles apenas fazem uma projeção de que, dadas certas condições, e se elas se mantiverem, então depois de tanto tempo o resultado vai ser tal. A ousadia da inovação e mesmo os negócios tradicionais, conservadores não podem mais confiar nas condições de temperatura e pressão do mercado. O jeito é testar hipóteses sobre sua proposta de valor, descobrir como pode ser o comportamento de consumo, e usar todo seu repertório e criatividade para arquitetar um modelo de negócio inicial (que depois vai acabar sendo adaptado perante mudanças nas condições de temperatura e pressão dos clientes e do mercado como um todo). Lembre-se: a agilidade, a inteligência prática e o poder de adaptação da equipe fundadora é muito mais importante do que qualquer plano ou planilha. Não se esqueça: o estatuto da empresa pode dizer quem são os donos, mas o negócio é dos clientes: existe por causa deles, é moldado e gira em torno deles.

Peter Drucker, clássico da administração, já dizia que a missão de uma empresa não é criar produtos nem dar lucro, mas criar e manter clientes, e Steve Blank, o patrono da gestão de startups, mostra como tudo depende de descoberta e desenvolvimento de clientes. É isso que gera um modelo, que pode ser projetado, planejado e executado – e é isso que pode acarretar adaptações em todo processo. Quando você tem isso em mente e em mãos, aí sim um bom plano se faz útil e necessário.

Um forte abraço, tudo de bom e até breve!

 

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