Artigo por Camila Farani*

Hoje, 19 de novembro, é um dia de celebração para o mundo. Foi instituído o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, sendo a data um resultado da parceria entre a Semana Global do Empreendedorismo, a Fundação das Nações Unidas e o Departamento de Estado Norte Americano. Ponto para nós, mulheres.

Passada a excitação inicial, por alguns instantes me questionei : Que ponto para nós ? Para termos um dia de comemoração ? Para ser semelhante ao dia dos pais, ou das mães ? Um pai ou uma mãe não deixarão de criarem seus filhos da melhor forma possível porque existe um dia para eles. O dia do empreendedor ou da empreendedora é todo dia. É daqueles que fazem acontecer a todos os momentos, para os que têm uma paixão irracional pelo que fazem. Sempre digo que, somos todos empreendedores, uma dona de casa, acorda todos os dias, arruma a casa, atende ao telefone, vai ao mercado, cuida dos seus filhos, quando os têm…Essa mulher é menos empreendedora do que eu, somente por eu ter uma empresa ? Temos os mesmos problemas com lidar com pessoas, as mesmas angústias, ela faz acontecer todos os dias. Trabalha não em prol do sucesso ou do elogio do marido, trabalha para resolver as questões do dia a dia.

Tenho visto cada vez mais um processo de glamourização ao redor de empreender, quando antes éramos considerados “sem rumo”, hoje somos alçados instantaneamente a condições de referência do mundo dos negócios. O ego, a vontade de estar na mídia, aparecer, nunca foi tão intenso quanto este momento que vivemos. Seria leviana se não me incluísse nesse glamour. A gente se envolve, se sente importante, ganha uma certa notoriedade, os amigos e família sentem orgulho. É tentador e sedutor sim.

Mas quem empreende, de fato, sabe da efemeridade desses momentos de glamour. Que eles sejam para inspirar, para motivar e um meio de vida. Quem empreende vira noite, tenta, erra, erra de novo, cai, levanta, pensa em desistir, mas no dia seguinte está de pé pois seu propósito de vida é tão contundente que leva consigo essas lições que aprendemos, muitas vezes, na dor.

Minha coragem vem da inquietude com a normalidade, ainda assim, por diversas vezes, me senti uma estranha na minha própria vida. Tinha (e ainda tenho) algumas milhões de idéias ao mesmo tempo e se pudesse colocaria todas em prática. Depois de um tempo descobri que múltiplas linhas de pensamento fazem parte, precisamos acalmar a mente para sincronizar nossos tempos internos, para ajudar a ver os outros e seus tempos, para ver ao seu redor. Vejo cada vez mais empreendedores jovens ligados no automático, reclamando da falta de tempo para a família, porque querem se tornar o próximo Steve Jobs.

Vejo uma lacuna de essência, muitas vezes, peculiar a todos nós, por isso que digo a importância do auto-conhecimento, pois a felicidade que buscamos incessantemente só vem através de um sentimento maior que é o da auto-realização. É encarar o trabalho sob a perspectiva de um bem comum, da geração de significado, de voltar nosso pensamento ao coletivo e não ao nosso próprio umbigo. Certa vez, tive a oportunidade de conhecer Eliezer Batista, um relevante homem do Brasil que relatou em uma entrevista : “Quando chega ao máximo de seu egoísmo, o homem se torna um pavão de favela: ele muito bem e tudo em torno na miséria”, diz. “De que adianta? Mas, se ele se despir do egoísmo, a partir de certo ponto em que garanta um nível de conforto razoável, terá mais prazer em beneficiar o outro do que a si próprio.

Por fim, sinto-me no dever de explicar que não estou desmerecendo essa data comemorativa. Apenas convido a todos para pensarmos além. Que sirva para entendermos como podemos ser mulheres melhores, com as inteligências emocionais, espirituais, intelectuais e físicas trabalhando a nosso favor para evoluirmos cada vez mais como seres humanos. Devemos nos apropriar disso não somente na data de hoje e sim por toda nossa vida.

Artigo por Camila Farani, empreendedora e investidora em startups.