Artigo por Jeferson Manhães*

Uma das prioridades do Reino Unido para alavancar seu sistema de inovação tem sido a atração e desenvolvimento de startups. O governo britânico entende que a consolidação de uma economia baseada no conhecimento depende do desenvolvimento de empreendedorismo tecnológico, focando em empresas dinâmicas que pensem em produtos disruptivos e de alcance global.

O apoio governamental ao desenvolvimento e atração de startups tem como foco a criação de hubs que fomentem  a criação de novas empresas e de facilitar investimentos para que as mesmas possam se desenvolver.  Citada como um exemplo mundial de desenvolvimento de hub tecnológico, a Tech City, situada ao lado do coração financeiro londrino, a City, tinha 15 empresas quando foi inaugurada em 2008. Hoje tem mais de 1.300, sendo considerado o maior hub tecnológico da Europa. Essas empresas empregam  50 mil pessoas somente em startups ligadas à economia digital.

A Tech City hospeda startups de todos os setores, mas com notável predominância da economia digital. Empresas como Facebook, Google, Vodafone e Cisco Systems são exemplos de corporações que decidiriam se instalar na Tech City para se beneficiar da proximidade com universidades de reconhecida excelência, investidores circulando num dos maiores centros financeiros mundiais  beneficiadas pela facilidade geográfica de estar numa babel como Londres.

Para incentivar a instalação de mais startups para a Tech City, o governo britânico investiu mais de 50 milhões de libras (cerca de R$ 200 milhões) no cluster,  financiando a construção  de espaços de co-working e salas de reunião, num  ambiente corporativo futurista. Entendendo que empresas de base tecnológica já devem nascer preparadas para explorar mercados internacionais e competir globalmente, o governo instalou um time do UK Trade & Investment (UKTI), entidade de auxílio à promoção de exportações similar à APEX (Agência Brasileira para Promoção Exportações e Investimentos), para dar suporte às empresas que queiram explorar mercados globais.

O UKTI na Tech City, em conjunto com o UKTI do Consulado Britânico em São Paulo,  organizou uma missão de startups no ano passado que resultou em contratos de  transferência de tecnologia entre empresas brasileiras e britânicas. Igualmente, missões de empresas brasileiras organizadas pelo Consulado Britânico têm visitado a Tech City, em interações muito produtivas para networking e para conhecer tendências.

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Esse mind-set  global está no DNA britânico, país com tradição mercantilista internacional há séculos. Isso se reflete tanto na estratégia de atração de startups estrangeiras como no modelo de negócios de empresas britânicas. A Huddle, startup de “cloud-based business collaboration” lançada no Reino Unido, tem nos Estados Unidos sua fonte substancial de faturamento. Isso graças a investimentos recebidos de fundos asiáticos e americanos, que permitiram a expansão da empresa para os Estados Unidos, mostrado que estabelecer políticas facilitadoras de financiamento é uma condição sine qua non para o desenvolvimento robusto de um rico ecossistema de startups.

Os Venture Capital Trusts (VTCs), fundos britânicos designados para dar acesso a investidores individuais a oportunidades para venture capital, têm como objetivo buscar investimentos em pequenas empresas para gerar retornos maiores do que a média, em negócios de risco médio. Os VTCs adquiriram ações num total de 440 milhões de libras em 2013. Fundos britânicos também buscam investir em outros mercados, inclusive no Brasil. Baseada em Cambridge, a Amadeus Partners, investidora em empresas de tecnologia, investiu  US$ 9 milhões (cerca de R$ 21,5 milhôes) na empresa brasileira de seguros on-line Bidu, em parceria com a também brasileira Monashees Capital.

O Reino Unido é um hotbed de investimentos de venture capital, tendo investido US$ 2.2 bilhões de dólares (R$ 5,3 bilhões) em startups em 2012, sendo então responsável por 30% do total de investimentos de venture capital na Europa. Somente em Londres, há por volta de 20 grandes empresas de venture capital, investindo principalmente nas áreas de TI, mídia, e-commerce e saúde.

Porém, o desenvolvimento de startups não acontece onde existam muitas amarras burocráticas para a criação das mesmas.  O procedimento de abertura de uma empresa no Reino Unido é um dos mais simples do mundo: uma companhia pode ser registrada em apenas 5 minutos; o programa “startup visa” facilita a obtenção de um visto para empreendedores que querem se instalar no Reino Unido; a posição geográfica do país e o uso da língua inglesa facilitam a implemtnação de estratégias expansonistas para a Europa desde sua base britânica. Essas facilidades levaram a empresas como a Skycanner, baseada em Edimburgo, a escolher o Reino Unido para expandir seus negócios na Europa.

Isso demonstra que a escolha das empresas pelo Reino Unido não se limita à Londres. Outros hubs tecnológicos estão rapidamente se desenvolvendo em outras áreas do país, como em Newcastle, Manchester e Cambridge. Além de sediar uma das melhores universidades do mundo, Cambridge possui 13 parques tecnológicos, a maior concentração per capitade PhDs do mundo. Num artigo recente do Independent, a região foi considerada o coração da recuperação econômica britânica. A agência de inovação da Universidade, a Cambridge Enterprise, ostenta uma impressionante taxa de sobrevivência de 97% das empresas depois de 5 anos de sua criação.

O dinamismo do ecossistema de startups britânico o permite pensar em vôos mais altos. O próximo passo é concentrar-se no apoio à criação de startups realmente disruptivas, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos, onde inúmeros cases são facilmente identificados, como Waze, Netflix e Google. Esse é o próximo passo que a Tech City pretende explorar. O Sillicon Valley que se cuide.

*Artigo por Jeferson Manhães, gerente de Inovação do UK Trade & Investment (UKTI) Brasil, no Consulado-geral Britânico em São Paulo.