Muitos curiosos de negócios, consultores de negócios, professores de negócios e criadores de negócios sonham com posicionamentos como a estratégia de campo verde (green field, onde “o território ainda está intocado”) e a estratégia de oceano azul (blue ocean, “em águas que não estão sangrentas de tanto tubarão caçando” – conheça esta e outras ferramentas estratégicas visuais nesta matéria).

Entendo e acho importante até o posicionamento do Peter Thiel, que fala no livro “Zero to one” (leia minha resenha) que competir é para perdedores e a tecnologia, vetor concentrador de poder econômico, deva ser construída como um monopólio. Mas nem sempre isso é possível. Mas, quando se fala em uma perspectiva para o Brasil, para alguns campos de atuação em que estamos um tanto deficitários (e pouco competitivos no mercado mundial), não faz sentido abandonar as coisas fundamentais só porque estamos perdendo para a concorrência acirrada de outros países. Quando se trata de desenvolvimento de talentos, que é a base do desenvolvimento de produtos e negócios, tecnologia útil e lucrativa, faz-se necessário arquitetar, articular, movimentar várias esferas, agentes, fatores.

Quem?

Um cara que eu conheci neste sexto ano de atividade do Startupi e que constrói uma perspectiva que considero bastante importante – e de grande potencial no sentido desta conversa que comecei aqui com vocês – foi o Flávio Marinho. Ele trabalha como estrategista da Acelera Cimatec, uma das iniciativas inovadoras que integram um importante arranjo tecnológico na Bahia, que, por sua vez, faz parte de uma grande rede nacional.

Há alguns dias, tivemos uma boa conversa sobre para onde o Brasil vai, no que depende da mistura de conhecimento, tecnologia e negócios. Anotei o que ele falou e condensei nos tópicos abaixo. Conheça abaixo A Estratégia do Flávio Marinho e deixe sua opinião nos comentários!

A tal transferência de tecnologia

“O conceito de transferência tecnológica, que a gente utiliza, tem um sentido bastante amplo. Muitas vezes, pode parecer que se trata apenas de venda de propriedade intelectual e patente, mas diz respeito a todas atividades relacionadas à implementação de tecnologias, envolvendo academia e/ou mercado.

O Senai vem implementando suporte à inovação no país inteiro. Em âmbito nacional, o Senai está chamando os Institutos Senais de Inovação (voltados a projetos de média a alta complexidade, requerem uma dedicação mais intensiva, com mais recursos, laboratórios mais sofisticados, transferência de tecnologia – sem foco em setores, mas em competências tecnológicas, como Automação, são 26 no Brasil, 3 na Bahia) e os Institutos Nacionais de Tecnologia (59 no Brasil, 3 na Bahia; são regionais, seguem uma vocação da região, e dão suporte para execução de projetos de baixa a média complexidade).

Aqui na unidade Cimatec, temos os dois tipos de instituto, mais uma incubadora e uma aceleradora. São equipes distintas, com competências específicas. Algumas vezes acontece cooperação entre elas. Aqui na Acelera Cimatec, resolvemos focar nas competências tecnológicas que a gente já trabalha nos outros programas. A maioria das aceleradoras tem o objetivo, que é extremamente nobre, de alavancar negócios e até possivelmente obter lucros. Aqui na Acelera Cimatec, que é a aceleradora do Senai em Salvador, temos o objetivo fundamental de transferência de tecnologia.

Temos uma atuação muito intensa com consultoria em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) para grandes empresas, em áreas como hardware, supercomputação, automação, robótica. Diversos alunos universitários participam desses trabalhos. Aliás, a primeira faculdade que o Senai criou foi aqui na Bahia. Primeiro veio a graduação tecnológica, depois mestrado e doutorado”.

Como avançar nesta área

“Criamos um conjunto de mecanismos para fazer essas competências chegarem também aos pequenos negócios. Isso nos faz buscarmos uma adaptação, mas já existe também uma clara convergência – o que não havia era um estímulo empreendedor mais intenso. Contamos também com uma parceria com a Endeavor, levando disciplinas de empreendedorismo para todos os cursos. Havia uma demanda para empreender, mas parcial, porque as grandes indústrias sempre vem aqui buscar os alunos para trabalharem.

Facilitamos que os alunos se encontrem, discutam e formem grupos para resolver problemas e acabem criando empresas entre si. Recebemos demandas de empresas grandes que, em alguns casos, não conseguem desenvolver a inovação dentro de casa, então acabam nos procurando. Temos um modelo bem aberto, então os casos são bem diversificados. Temos alguns produtos de alunos que estão em fase de maturação para serem lançados em breve como negócios próprios”.

Desafios para a aceleração

“Um dos nossos grandes desafios como programa de aceleração, é que nossos projetos, os que vem sendo submetidos via Start-Up Brasil, são predominantemente baseados em software, Internet, aplicativos móveis, serviços online. Não temos uma tese de investimento, mas uma tese de desenvolvimento, centrada em nossas competências mais hard, como micro-eletrônica, ou ainda software de alto desempenho (ainda mais agora que adquirimos o computador mais potente utilizado na América Latina). Queremos atuar com Internet das Coisas para petroquímica, ou para petróleo e gás, por exemplo. Abrir a cabeça do pessoal de negócio para outros tipos de oportunidades.

Creio que a manufatura avançada é a quarta revolução industrial, um ciclo que terá mais uns 20 anos. Devemos alcançar novo patamar produtivo e de integração, ter sistema de sistemas. Há uma correlação direta entre as economias avançadas e a adoção de programas específicos nessas áreas. O que o Brasil quer? Ficar olhando isso de longe ou participar disso de verdade? Temos algumas empresas que são top mundial, mas temos uma base industrial que ainda não conseguiu alcançar um padrão tecnológico competitivo – ainda estão brigando para fazer uma pecinha mais barata que o concorrente chinês. O domínio tecnológico de ponta tem que chegar na base”.

Questão de talento

“Nosso problema não é especificamente tecnologia ou recursos, mas reunir pessoas dispostas a correr esse tipo de riscos. Precisamos de um ecossistema que tenha condições mais favoráveis para que os grandes talentos, que hoje vão para o exterior, permaneçam aqui motivados a criar inovação grande no Brasil, gerem resultados.

Não queremos dizer que a aceleradora da Cimatec seja o único ou o melhor caminho, mas queremos sinalizar que somos conhecedores dessas questões e estamos aqui, com a estrutura para ajudar a construir esses negócios. Esta base aqui instalada está a serviço da população, temos bastante capacidade tecnológica, estamos oferecendo isso para quem tem potencial de negócio. Queremos atrair todo tipo de profissionais, sejam de gestão, de marketing, ou outros. A aproximação desses mundos é o que tentamos fazer.

Nosso indicador não é o lucro ou ter domínio sobre a tecnologia: nosso indicador é impactar a economia. Trabalhamos também em parceria com outras instituições para fazer isso, esta abertura é o que desejamos”.

Conclusão

Esta parte é minha (Diego), não do Flávio.

Creio que alguns fatores costumavam entravar, atrasar o desenvolvimento de um Brasil mais inovador:

  • a educação das pessoas: nem todo mundo tem acesso a cursos especializados em coisas realmente produtivas e inovadoras;
  • viés de pesquisa acadêmica não sair para o mercado: concordo que existe pesquisa básica que não deve se orientar apenas por critérios de interesse financeiro, mas muito me falam que a maioria das pesquisas são feitas para o orientador ler e fica só nisso. Nossa academia não gera muitas patentes, e nossas ocasionais patentes não são um dos nossos maiores geradores de receita; mas o mercado pode ser um importante aliado na hora de construir aplicações para a tecnologia, de distribuir produtos, de viabilizar projetos;
  • a atratividade do trabalho e da vida em outros países: mais de dois mil brasileiros bem qualificados ocupam cargos importantes só no Estados Unidos; o Vale do Silício é um atrator de talentos de tecnologia e negócios;
  • a atratividade de empregos corporativos e tradicionais ao invés de trajetórias mais empreendedoras e inovadoras;
  • a dificuldade na criação de negócios inovadores, em vários aspectos: burocracia, aceitação do mercado, falta de habilidade de executar experimentos, timing (hora certa).

Portanto, com base no que o Flávio acredita e pratica com a sua rede, creio que há realmente um grande motor, uma grande combinação de articulações que podem movimentar muito mais o conhecimento e a economia no Brasil. Não importa se não somos o primeiro, se já não temos mais um oceano azul em tecnologia e afins. Importa que não podemos nos dar ao despeito de não tentar com força e graça.

Academia, empreendedores e grandes redes só tem a se beneficiar ao combinarem suas habilidades com milhares de talentos em potencial que temos no país. Assim seja!