Muita gente acredita que um bom empreendedor é um visionário que tem boas ideias. Outros acreditam que trata-se de um meticuloso planejador. Outros, crêem que trata-se de sorte, ou condições favoráveis (como dinheiro à disposição e ser bem relacionado). Uns acham que o bom empreendedor já nasce assim. É fácil olhar uns poucos exemplos e deduzir uma regra geral. Mas será que dá pra entender a tal da personalidade empreendedora de forma mais séria?

Em um artigo de Haley Goodman, no site Entrepreneurship Ecosystem Insights (uma iniciativa da Endeavor), vi que finalmente publicaram um artigo acadêmico a partir de uma pesquisa científica (incluindo diversas equações, cálculos, gráficos) que dá uma luz realista sobre o quanto importa para um empreendedor se a personalidade dele é de um jeito ou de outro. Faz bastante sentido, já que entende-se empreendedorismo como um comportamento, não especificamente o fato de abrir uma empresa.

Por exemplo, eu sou um empreendedor e consigo perceber uma relação entre como meus traços de personalidade favorecem ou desfavorecem a empreender, mas cuido para não pensar “isso é óbvio”. Afinal, como explicava Duncan Watts no livro “Tudo é óbvio – quando se sabe a resposta correta”: quando o assunto é de esfera psicológica ou social, todo mundo tende a dizer que “já sabia” do resultado das pesquisas mas, na verdade, isso é uma ilusão. De qualquer forma, este artigo não é sobre mim – tomei liberdade porque trata-se de “acreditar na personalidade” – então vamos de volta ao assunto da pesquisa.

O estudo, feito por acadêmicos da John Jopkins University, Washington University e Teri University, tem como palavras-chave (além de empreendedorismo e personalidade) habilidades não-cognitivas e fatores latentes. Eles fizeram uma modelagem para realmente enxergar quanto os traços de personalidade afetam em decisões profissionais e como afetam a remuneração da pessoa quando é empregada versus quando é auto-empregada. A fonte de dados para o estudo foi o National Survey of Midlife Development in the United States, que teve mais de 10 mil participantes.

Os traços psicológicos e de personalidade analisados foram:

  • abertura a novas experiências: imaginação e insight; ter uma “banda larga” de interesses;
  • extroversão: excitação, sociabilidade, falação, assertividade e alta quantidade de expressão emocional;
  • neuroticidade: instabilidade emocional, ansiedade, deprê, irritabilidade e tristeza;
  • concienciosidade (diligência): pensatividade, bom controle de impulsos, comportamentos orientados a objetivos, consciência de regras, boa organização e atenção a detalhes;
  • agradabilidade: confiança, altruísmo, falta de egoísmo, queridice, afeição e outros comportamentos favoráveis à sociabilidade.

O traço de personalidade mais ligado a começar o próprio negócio é a abertura a novas experiências mas uma das principais descobertas do estudo é que este traço diminui a remuneração dos empreendedores. A agradabilidade de uma pessoa e a sua extroversão também estão fortemente ligadas a abrir o próprio negócio, mas em níveis menos presentes; estes dois fatores tem uma diferença: agradabilidade estava mais associada com remuneração menor enquanto extroversão estava mais associada a remuneração maior. Não é uma regra nem uma recomendação dos estudiosos: foi o que analisaram sobre a realidade.

Por outro lado, o estudo analisou e concluiu que são largamente ineficazes as políticas que buscam encorajar os jovens ao empreendedorismo. O motivo: essas políticas geralmente dão um encorajamento para pessoas com traços de personalidade desfavoráveis ao empreendedorismo (por exemplo, traços associados a baixo desempenho empreendedor), ao invés de focar em indivíduos que apresentam traços mais favoráveis. Ou ainda, as políticas atraem pessoas com traços favoráveis só que com ideias de baixo valor.

No final, os autores afirmam que os traços de personalidade que levam uma pessoa a abrir um negócio não são os mesmos traços que vão fazê-la ter sucesso – os traços não são bons ou ruins em si. A conclusão mais substancial diz que as dificuldades financeiras de um negócio não impedem as pessoas com traços favoráveis, apenas as que tem motivações menos resolvidas.

Ou seja: para ter sucesso em um negócio próprio, não basta ser querido, extrovertido, corajoso e outras coisas do gênero. Não é isso que vai fazer o negócio dar certo – nem fazer você ganhar mais dinheiro.

Você pode baixar o estudo completo da pesquisa aqui.

Imagem de abertura: Portrait of a young black woman, via Shutterstock