No final da semana passada, um site estrangeiro e um nacional comentaram a chegada do Nubank, que ainda não está em fase de captação irrestrita de clientes (ainda estão em uma espécie de teste beta, em que apenas os clientes podem convidar 5 outros clientes, ou então os demais devem cadastrar seu email e aguardar). David Velez, ex-investidor pela Sequoia Capital e atual empreendedor do Nubank, comentou comigo: “o que não ficou completamente claro nessas divulgações é que a nossa ambição é criar uma alternativa bancária real no Brasil porque pensamos que é realmente ruim para os consumidores contar com tão poucas alternativas em um mercado tão grande”.

Meu relacionamento com bancos já tem mais de 19 anos, quase 20. Comecei a trabalhar bem cedo (com educação, não jornalismo) e foi naquela época que tive uma conta bancária dependente do meu pai. Me lembro da sensação de “que bacana” ao segurar aquele cartão magnético e utilizá-lo (nas raras ocasiões em que os estabelecimentos o aceitavam, no interior gaúcho). Mas, depois de ter me mudado algumas vezes, ter aberto conta em diferentes bancos (tanto como cliente pessoal como cliente jurídico), faz apenas um mês que sinto uma esperança gostosa de que a vida do cliente pode ser diferente.

Um amigo na Kaszek Ventures me disse, há uns dois meses, que Velez (aquele que não tinha achado negócios grandes interessantes para investir aqui, e foi embora com o fundo) estava para testar o primeiro produto da Nubank, um cartão de crédito de fácil adesão, gratuito, totalmente gerenciável por aplicativo móvel, sem papel, sem burocracia. Na hora, me lembrei do Simple, banco que surpreendeu norte-americanos ao focar em atendimento e experiência de uso impecáveis, em estado da arte, comparável ao que temos de mais atual na web. Pensei: será que alguém vai conseguir fazer isso no Brasil?

Parece que o Nubank, com investimento de 14,3 milhões de dólares da Sequoia Capital e da Kaszek Ventures*, está conseguindo dar seus primeiros passos bem firmes em direção a isso.

Atualização: de acordo com Vinod Sreeharsha no DealBook NYTimes (aqui), o investimento também teve participação da Berggruen Holdings e pode chegar ao valor declarado se um novo investidor, ainda não revelado, concluir a negociação com mais 500 mil dólares.

Desde o primeiro contato, a diferença com relação a produtos concorrentes me marcou – na mesma semana, recebi um cartão de um banco tradicional. Do envelope ao seu conteúdo, ficou claro que se trata de um produto com outra abordagem. Sem contar que, para ativar uma conta, foi muito, muito fácil. Ainda é necessário um convite, mas, a partir daí, foi extremamente simples enviar uma documentação inicial básica, mínima, pelo próprio aplicativo. E usar o cartão recebendo atualizações no aplicativo em tempo real é algo que, mesmo sendo simples e de alguma forma já contemplado por alguns serviços concorrentes, é algo bastante agradável. O atendimento de dúvidas via bate-papo dentro do aplicativo, ou ainda pelo telefone 0800, é bastante ágil e direto ao ponto. A praticidade no uso faz uma experiência realmente intuitiva e marcante, não apenas para usuários sofisticados de aplicativos, mas provavelmente para qualquer pessoa (não creio que alguém prefira mais burocracia e atendimento pior). Enviei convites para alguns amigos e a impressão é sempre a mesma. Mas isso ainda é só um cartão de crédito e um banco tradicional faz muito mais do que isso.

Como já vimos acontecer em outras áreas, parece que foi necessário um estrangeiro (ou um punhado deles) para introduzir um comportamento ao mesmo tempo novo, realmente inovador, e ainda assim de aderência bastante fácil, bem resolvido. Não comemoro este fato, acho que os brasileiros deveriam conseguir fazer essas mudanças grandiosas, mas talvez seja uma questão de “não sabendo que era impossível, foi lá e fez”.

Pode parecer balela, pode parecer que você já ouviu isso antes e não acredita mais. Pode ser que o Nubank encontre dificuldade para crescer. Mas é certo que finalmente temos algo simplesmente diferente. Em uma época em que bancos brasileiros gastam tanto (muito mais do que os 14,3 milhões de dólares investidos no Nubank) com propaganda, expansão da rede de lojas, implementação de novas tecnologias, e ainda assim são mais comumente associados a dor de cabeça do que a paixão, talvez o Nubank tenha chances de arrebatar o mercado e constar na categoria dos campeões de lucro da mesma forma que arrebata um cliente desde o primeiro uso.

Repetindo: nada que o Nubank está fazendo é inédito em si, com relação aos atributos mais objetivos do produto. Mas a lógica de funcionamento e o impacto final na percepção são alguma coisa.