Se startup é o nome dado àquela fase de extrema incerteza em que tudo são premissas, hipóteses, teses, então conseguir definir público, produto, modelo de negócio e estrutura da empresa é deixar de lado a fase selvagem, é deixar de ser startup, entrar na fase empresa. Mas nem todo mundo chega lá: é consenso na cultura vale-siliciana global que 90% das tentativas fracassam e é muito raro alguém conseguir dar certo sem mudar muito – o papel aceita tudo mas a vida faz você pegar curvas. Chega ao destino que consegue mudar, fazer pivô, para desviar do vale da morte.

“I want to break free”, cantava The Queen. Quero me libertar! Não necessariamente dos outros ou de tudo, mas ao menos das dúvidas, do medo, das indefinições. Sei que Gikovate diz que o potencial de uma pessoa se mede pela capacidade de suportar dúvidas, mas uma empresa se mede pela capacidade de se manter, pela previsibilidade de sua receita.

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Por isso tudo, mudar é o que há. Se sua startup não está conseguindo chegar ao destino desejado indo por diferentes caminhos, então talvez o destino seja outro. Melhor ir para outro lugar do que não ir para lugar nenhum. O mesmo vale para este texto, então deixe-me separar os assuntos – escolha o seu e leia.

Venda da Fashion.me

Já dizia a modelo, estilista e apresentadora Heidi Klum: “no mundo da moda, um dia você está dentro, no outro você está fora”. Flavio Pripas e Renato Steinberg estão vendendo a rede social de moda Fashion.me a partir de decisão tomada em conjunto com seus investidores, a Intel Capital. O nome do grupo comprador será revelado em alguns dias.

De acordo com Pripas, durante a gravação do Man In The Arena no dia 25 de agosto (assista ao episódio), investimento compra tempo: “validamos nossas hipóteses de negócio muito mais rapidamente com dinheiro do que sem”. Veja quais eram as hipóteses de negócio da Fashion.me e o que aconteceu com cada uma:

  • Internacionalização: não funcionou. Os 150 a 200 mil norte-americanos não se relacionavam com a plataforma tanto quanto os brasileiros (o engajamento por aqui chega a cinco horas diárias);
  • big data: “conseguimos formatar relatórios de inteligência para empresas de moda que antes não tinham essas informações; tínhamos 230 clientes pagando mensalidade, mas em poucos meses eles cancelavam a assinatura dizendo que adoravam o que a gente entregava, só que não conseguiam aproveitar”;
  • otimização de conversão: “isso funcionou legal! Como nossa plataforma era de engajamento de moda, interação, as pessoas conversavam no site, usavam durante cinco horas, a gente conseguiu entre 40 e 60% mais performance do que outras formas de retargeting – que por sua vez já tinham de 40 a 60% mais de conversão do que campanhas tradicionais de marketing digital. Passamos a usar dentro de casa com muito sucesso a inteligência de big data que antes tentamos vender para os clientes”.

Renato é um investidor anjo discreto, Flávio vem empreendendo com a BitInvest. A história deles, que começou a mudar quando criaram um blog de moda para as esposas, evoluiu por meio das mudanças. Emblemático do meio startup. Nunca vai sair de moda!

Demo Day da Aceleratech

Eu queria falar uma coisa sem ter viés, mas neste caso não estou conseguindo, então acho melhor falar deixando o viés claro. Para mim, o terceiro Demo Day da Aceleratech, realizado quinta-feira em São Paulo, foi o melhor que já presenciei. Viés 1: o mais recente sempre parece mais interessante porque traz novidades e dá uma conexão emocional com as apresentações. Viés 2: o Startupi recebeu investimento de Pedro Waengertner (na foto de abertura) e Mike Ajnzstajn, fundadores da Aceleratech, eu gosto deles, acompanho o trabalho lá, e também já trabalhei perto da mesa do Pedro, em uma empresa que ele fundou, quando me mudei para São Paulo – é um de meus mentores há muito tempo, e sei o quanto ele merece estar na recente lista da Proxxima dos 50 profissionais mais inovadores de comunicação e marketing do Brasil.

De qualquer forma, muitas pessoas viajadas concordam que os demo days da Aceleratech são sempre simples, diretos, sem maquiagem, sem muita cara de show business – mas também sem ser chatos como trabalho de faculdade (não digo que a ESPM é chata, mas ainda assim, é uma universidade e a gente sabe que a diversão e a energia costumam correr mais nos corredores e nos arredores de tais instituições do que nas apresentações “que valem nota”). Eles ainda não conseguiram publicar os vídeos das apresentações, mas uma das startups deles, a Asapp, disponibilizou para download um aplicativo contendo os sumários executivos e os materiais das apresentações. Vale a pena checar a evolução de Cuponeria, Dr. Recomenda, Asapp, Cerensa, 99Biz, Nazar, InfoPrice e DOD. Evolução conquistada com base na adaptação, no ajuste, na mudança.

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Nesses tempos em que tudo muda, quem não muda, não se ajuda. Muita gente acredita que o Demo Day é a ocasião em que se apresenta o melhor das startups, o melhor há de melhor no processo de aceleração. Mas já ouvi mais de uma conversa sobrea tendência de não se fazer mais Demo Days. Não por ser difícil encontrar o melhor nas startup e na aceleração, mas porque… é hora de mudar.

O melhor é feito no dia-a-dia. O melhor muda. O melhor só sobre no palco para tirar foto: ele ao mesmo tempo está lá mas também está em tanto outro lugar (como os elétrons). Tipo o mar: sempre lá, sempre diferente. A Aceleratech, por exemplo, tinha seu foco total no driver de Vendas, e agora vai ser Crescimento. Também está iniciando sua operação AceleraCorp, para fazer trabalhos aceleradores dentro de corporações.

O que uma startup tem de melhor não é o demo day, é o The Mudei: o momento em que consegue afirmar de boca cheia “eu mudei”.

#HackDisrupt

Diversos brasileiros já estão em San Francisco para o TechCrunh Disrupt. A foto de Roberto Civille Rodrigues mostra a hackathon do evento e eu espero que ele sirva cada vez mais uma ocasião de construção (ou desconstrução e reconstrução) das startups do que apenas ocasião para “fazer bonito” benchmarking, networking e marketing. Fazer de verdade é bem melhor do que fazer bonito.

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Independência do Brasil

Nem está parecendo, mas é hoje que celebramos. Nada contra se apoiar no Vale do Silício, em investidores, no Start-Up Brasil (que divulgou nova lista de selecionados esta semana; confira) ou no legado, nas glórias do passado, mas vale meditar profundo e com força sobre tudo isso.