Uma das discussões mais interessantes que tive nos últimos dias foi sobre o filme Maze Runner. Afinal, seria ele fiel ao primeiro livro da série de James Dashner? Mas não vou escrever sobre fidelidade ou algo assim, vou abordar a questão do labirinto (na verdade, um dédalo, que é conceitualmente diferente) que batiza a franquia. Alô, você que ainda não leu o(s) livro(s) nem assistiu ao filme e ainda pretende fazê-lo com a mente imaculada: não vou debater o filme em si, dificilmente haverá um spoiler (apenas surpresas).

Tecnicamente, um labirinto acaba conduzindo a pessoa até o seu centro após inúmeras tentativas. Mas em inglês, chamam de labyrinth. Já um dédalo possui múltiplas entradas e saídas, com a finalidade de confundir – e isto seria em inglês um maze, tipo de construção que dá nome à obra e que, na mídia brasileira, vem sendo traduzido como labirinto. É uma questão técnica, mas, tanto para o enredo de um filme, quanto para uma situação em que você esteja dentro de um, pode fazer uma diferença enorme – se pensarmos nisso como uma equação ou algoritmo, certamente os resultados não permanecem sempre os mesmos em ambos casos. De qualquer forma, Dédalo era o nome do criador do Labirinto de Creta, da mitologia grega, onde prenderam o Minotauro – então está tudo em casa.

Em Maze Runner, o personagem Sr. Edson impõe seu ímpeto por sobre as regras estanques da startup em que foi admitido. E, assim como em qualquer startup, existe uma mera noção de futuro, de rumo, de qual é o final desejado, e um punhado de premissas e regras para se chegar lá. Só que há também todo um empuxo, ou uma inércia imposta pela cultura local, que acabam zelando por uma normalidade que pouco avança e impedindo a experimentação abrupta. Edson quebrou cada regra que havia e também foi o primeiro a não apenas sobreviver a um bug do sistema, como também a acabar com um bug.

Foi um hacker rebelde, sim. Mas mal sabia ele o que dois co-fundadores da startup, Einstein e Galilei, sentiam e tentavam falar (ou não falar): talvez a ordem estabelecida fosse mais interessante do que o provável desespero que surgiria após o labiríntico experimento ser ultrapassado, desfeito – como diziam em outro filme: a realidade é desértica e devastadora, então pode ser melhor viver numa pequena ilusão.

Sem querer incorrer no perfeccionismo técnico da diferença entre dédalo e labirinto, mas aproveitando a metanarrativa do filme (e dos livros, que já são quatro): fora do labirinto, já não é mais um experimento? Fora da experimentação, já não estaríamos mais, nós mesmos, sendo experimentados? Ficar correndo, dando voltas, tentando entender, se lembrar, superar o ritmo das mudanças, sair, superar, é como dar voltas dentro de si mesmo? Existe um dentro versus fora ou é só uma questão de níveis, camadas? Quando acaba? Quando a transcendência é absoluta? Quando não estamos mais sujeitos a fatores externos? What is ultimate: is death itself ultimate? Startup boa é startup morta?

Pouca gente, especialmente quem não leu, vai ao cinema com essas tensões filosóficas e psicológicas em mente. O espetáculo encanta e dita a cadência pragmática. Assim com acontece na vida real. Mas, em startups na vida real, onde a pragmática é certamente fundamental, faz-se sempre deveras prudente filosofar e psicologar, e não apenas para pós-analisar a prática e os praticantes, mas para pré-planejar.

A dura realidade da ilusão de um experimento pode matar você. A ilusão de não-experimentação na vida real pode não deixar você viver. Mas a gente continua esse papo outra hora, quando fizerem outro filme sobre zumbis.

Em tempo: a adaptação de Jogos Vorazes, de livro para filme, foi mais fiel à riqueza dos personagens e da trama. Sobre o risco de se lembrar e a mesmice de esquecer, vale assistir também ao (menos movimentado) Doador de memórias ;)

Imagem de abertura: Fox/Divulgação

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