Ontem o BuzzFeed recebeu um aporte de US$ 50 milhões da venture capital de Andressen Horowitz, um dos nomes mais respeitados na comunidade global de investidores e um dos que mais tem discutido o futuro da mídia ultimamente.

Com o investimento, o site foi avaliado em US$ 850 milhões, segundo o The New York Times. Em tempos em que se fala constantemente de uma suposta crise de mídia, o investimento despertou discussão questionando o que faz o BuzzFeed valer tanto.

Essa é a pergunta de US$ 850 milhões, é claro. Não temos a pretensão de respondê-la. Mas, observando os artigos que saíram sobre o assunto nas últimas 24 horas e, levando em consideração o que conhecemos justamente por sermos também uma startup de mídia, dá para levantar alguns pontos interessantes sobre a questão.

Chris Dixon, um dos novos investidores do BuzzFeed defendeu bem a empresa. “Muitas das grandes companhias de mídia hoje foram construídas em tecnologias emergentes. Os exemplos incluem a Time, uma das primeiras a apostar em impressão colorida; a CBS, apostou no rádio; a Viacon na TV a cabo. Agora, estamos no meio de uma mudança tecnológica que está aumentando a proporção em que notícias e entretenimento são distribuídos por redes sociais e consumidos em dispositivos móveis. Acreditamos que o BuzzFeed sairá dessse período como uma companhia preeminente de mídia”.

Muitos com uma visão superficial dirão que o site é só um amontoado de GIFs, memes e listas, com títulos “caça-cliques”. Na verdade, são muito mais do que isso.

O Guardian, um dos principais e mais sérios jornais do Reino Unido, fez uma lista buzzfeediana de “21 coisas que você precisa saber sobre o BuzzFeed”. Logo no primeiro item e, em alguns outros, o jornal reafirma: o site investe pesado em jornalismo e, quando o fazem, executam muito bem.

Eles contam com textos longos e analíticos, conhecidos como longform. Não por acaso, contrataram Mark Schoofs, vencedor de um Pullitzer (um dos mais importantes prêmios para jornalistas) para liderar a equipe de jornalismo investigativo. Não é isso também o que traz dinheiro para eles. Como David Holmes indica no Pando, esse conteúdo é feito por uma questão de foco e DNA. São esses dois elementos que fazem a Vice valer tanto, por exemplo.

Inclusive, vamos fazer algumas comparações: a Vice estaria avaliada em US$ 2,2 bilhões; o Washington Post foi vendido em 2013 por US$ 250 milhões; e o Huffington Post (co-fundado por Jonah Peretti, criador do BuzzFeed), foi vendido em 2011 por US$ 325 milhões.

A teoria de Holmes faz sentido: modelos como o do Huffignton Post, que aposta majoritariamente no potencial de viral dos conteúdos, é fácil de erguer, mas difícil de escalar. No caso da Vice, que não tem uma audiência tão grande quanto o HuffPo, ela se destaca por atingir uma audiência específica com conteúdo de maior impacto.

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E o BuzzFeed, onde fica nessa história? No meio termo. A empresa de Jonah Peretti não aposta só em pageviews (apesar de ter 150 milhões de visitantes únicos por mês), mas principalmente em compartilhamentos de redes sociais. Ela tem conteúdo longo, mas também a melhor fórmula para títulos caça-cliques. E, o principal: está prevendo grandes movimentos da mídia no futuro.

Esse modelo já era defendido por Andressen Horowitz antes de ele investir na empresa. Ele defende uma saída em que o conteúdo superficial subsidia, com pageviews e publicidade, o conteúdo mais profundo, que não é lucrativo, mas é essencial para a sociedade.

O investimento de US$ 50 milhões será utilizado em três vertentes. A primeira será para criar novas seções e apostar ainda mais em jornalismo com certa profundidade; a segunda será uma incubadora de projetos de tecnologia, que ajudam o BuzzFeed sempre estar na vanguarda não só midiática, como também tecnológica; e, por último e mais importante: vídeos. A empresa já produz conteúdo audiovisual, mas agora está lançando a BuzzFeed Motion Pictures para investir ainda mais em conteúdo próprio e distribui-lo ao máximo. Isso tudo vai ao encontro do que Dixon disse.

A lógica também é representada na estrutura da empresa, que conta com 550 funcionários – mais de 100 trabalhando exclusivamente com tecnologia. Para efeito de comparação, quando o HuffPo foi vendido, ele tinha 200 funcionários.

Em 2013 o BuzzFeed teve renda de US$ 60 milhões. Peretti acredita que fechará 2014 com o dobro. O lucro não é divulgado, nem se sabe se ele existe, mas o fato de a empresa ter procurado investimento dá dicas de que ele ainda não chegou ou não é tão grande. Uma das maiores críticas que a empresa enfrenta ainda hoje é a sua dependência em relação a redes sociais. Como ficaria sua audiência amanhã se o Facebook mudasse o algoritmo e prejudicasse os links do BuzzFeed? É por perguntas como essa, que o BuzzFeed aposta em modelos mistos e usa a tecnologia para descobrir primeiro as respostas do futuro da mídia.

Com referências do Startup Daily, Pando, Guardian, Re/CodeThe New York Times.