A OLX é uma startup argentina nascida em 2006, presente em mais de 100 países e com um serviço de classificados disponível em mais de 40 idiomas. Fundada por um argentino, Alec Oxenford, e um francês, Fabrice Grinda, hoje ela é operada por um grupo sul-africano, a Naspers, que também é dona do Buscapé e acionista da Editora Abril.

No Brasil ela chegou em 2010, mas se tornou mais conhecida de 2013 para cá, quando começou a investir pesado no marketing e levando o slogan “desapega” a milhões de pessoas, com o objetivo de instaurar uma cultura de compra e vendas de produtos usados.

Conversei com Marcos Leite, CEO da OLX no Brasil, em seu escritório, na sede da empresa em São Paulo. No papo, discorremos sobre marketing, startups, ecossistema, marketplaces e cultura do consumo. Isso tudo você confere logo abaixo:

Como é o Brasil na estrategia de vocês?

A OLX existe desde 2006, mas começou no Brasil há 4 anos no Brasil. E, desde o início, o mercado brasileiro cresceu rapidamente.

A Naspers viu que os classificados tinham uma oportunidade grande de mercado e percebeu como o Brasil tinha um terreno fértil para investir nisso, tornando o país um dos principais para a empresa.

O ano passado a gente cresceu 200%. O Brasil é o 2º maior mercado da OLX. A porcentagem de crescimento diminui no ano a ano, porque no começo é fácil crescer 1000% do zero, depois vai desacelerando, mas continua explodindo.

E como vocês se posicionam para conquistar o mercado?

A OLX sempre foi voltada a classificados. A grande ambição de seus fundadores é criar a maior plataforma de usados do mundo. Em vários países emergentes, como o Brasil, queremos de fato mudar a forma de consumo e incentivar as pessoas esticarem o ciclo de vida dos objetos. O mercado de usados não é um mercado de tranqueiras, é só um mercado de coisas que você não usa mais. As pessoas compram celular todos os anos, mas os usados sempre estão lá.

Isso quer dizer que, economicamente, o valor de usados é maior do que o valor de produtos novos. Na OLX a gente tem mais de 450 mil pessoas respondendo anúncios por dia. Isso dá o valor de RS$ 466 milhões em produtos por dia. É maior do que muitas indústrias.

A gente já viu em outros países como esse mercado é gigante. Basta olhar o Craiglist nos EUA, onde as pessoas entram diariamente para ver o que podem vender ou comprar.

E é isso o que vocês colocam no slogan do desapega…

Sim. E não estamos falando de um tipo de pessoa para desapegar, estamos falando de todos os tipos. Por isso uma das nossas campanhas mostra uma rainha, de poder aquisitivo alto, também desapegando.

Como foi chegar em um mercado onde já existiam players fortes de classificados, desde um Primeiramão até ao Mercado Livre?

O Primeiramão é um exemplo de classificado offline muito forte mas que não migrou bem para o online. Mas temos uma ótima relação com eles.

Já o MercadoLivre a gente não vê como um concorrente direto. Acredito que hoje o foco deles é mais em produtos novos, eles são um marketplace mesmo.

É claro que a gente respeita todos nossos concorrentes, mas a nossa maior ambição é criar esse mercado de usados de forma correta. O sinônimo de classificados hoje é “desapega”, e acho que já estamos muito bem posicionados.

Como vocês ganham dinheiro?

Hoje a gente ganha dinheiro vendendo destaques no site. Ele custa R$ 10 por semana. É um preço muito pequeno para você vender algo tão rapidamente. Também temos alguns tipos de anúncios no site. Mas o nosso foco é  ganhar o Brasil e criar essa economia de usados. Por isso  ainda estamos na fase de investimento e não somos lucrativos. A receita vem depois.

É claro que uma hora teremos que chegar ao break even, afinal no fim do dia somos um negócio ainda. Mas a Naspers acredita muito nesse mercado de classificados, então eles nos dão margem para focarmos nisso. A Naspers é mais uma operadora do que uma empresa de investimentos.

olx

E vocês estudam outros modelos de monetização?

O modelo da OLX é de classificados grátis e isso não vai mudar. Tem alguns outros modelos de monetização que poderemos testar, mas essa nossa base de você anunciar e vender grátis será a mesma.

A sede da OLX é na Argentina, aqui do lado, como essa proximidade afeta a relação de vocês?

Depende se a gente está no período de copa ou não né (risos).

A relação funciona muito bem. A operação central da OLX fica na Argentina. Parte da nossa área de produtos, mobile, P&D também. E acho que temos um dos melhores times de mobile do mundo em Buenos Aires.

Falando em mobile, a OLX adota uma estratégia mobile-first?

Sim. Lançamos uma nova versão do aplicativo para Android recentemente e já temos muito uso. Além de ser mobile-first, somos Android-first. Hoje, 42% das vendas da OLX acontecem por dispositivos móveis.

Tanto a OLX quanto a Naspers realmente acreditam e apostam muito no mobile. Pra gente é a coisa mais importante. Se fala sobre o ano de mobile desde 2002, mas acredito que o ano de mobile começou em 2013, quando a indústria explodiu de vez.

É muito mais fácil usar nosso produto no celular do que na web. Você pode fazer tudo em alguns minutos no celular.  Nós mesmos testamos muito nosso produto, esse final de semana eu vendi dois móveis usando o mobile – em apenas 20 minutos eu anunciei e, em 1 hora a pessoa estava comprando na minha casa.

O marketing de vocês vende muito a ideia do mobile, como isso impactou o uso da plataforma?

Acelerou muito o crescimento mobile. Há um ano, 7% das nossas visitas vinham do mobile e hoje já são 42%.

A OLX quer estar onde o usuário estiver, então olhamos para todas as plataformas. Já estamos olhando para novas tendências, como os wearables – nossa área de inovação já pensa em como colocar nosso conceito de classificados lá.

Como funciona a área de inovação de vocês?

Inovação pode ser tudo. Mas a gente tenta trabalhar com forma realista, mesmo que a gente inventemos muita coisa, sempre pensamos no nosso objetivo principal: os classificados.

Vocês investem em startups?

A Nasper já investiu em várias startups em sua história. A OLX como grupo não investiu ainda, mas pode investir um dia se começar a ver startups que agreguem para o seu negócio.

Alec, nosso cofundador, também já investiu bastante como pessoa física. Ele é um dos grandes empreendedores latinos. Os funcionários da OLX, inclusive eu, viemos desse background empreendedor e com espírito de startup. Sempre teve essa ideia de que queremos impactar a vida das pessoas para melhor. Temos a Nasper, uma empresa grande por trás, mas acho que conseguimos operar com startup.

Vocês estudam a possibilidade de trabalhar com APIs abertas?

Essa mudança para mobile está acontecendo muito rápido e estamos analisando o quanto vale abrir nossa plataforma para outros players. Ainda não está na hora de abrir, mas quando estivermos mais consolidados, talvez.

Apesar disso, não somos uma empresa fechada, gostamos de ajudar a comunidade. Temos consciência de que, se queremos ser um dos maiores, é nosso papel ajudar o ecossistema de startups. Porém ainda estamos pensando em como fazer isso da forma correta.

Já há pessoas utilizando a OLX como fonte de renda?

Não temos os números mas temos cases de pessoas que vivem usando a plataforma. O legal disso é que nunca demos a ideia para as pessoas, elas viram o potencial da plataforma, já que elas podem ofertar, negociar e vender sem pagar nada lá. Afinal de contas, no fim do dia os Classificados são um marketplace C2C (consumidor para consumidor, na sigla em inglês).

Sendo um marketplace, que tem que crescer nas duas pontas, hoje vocês se preocupam mais em aumentar a oferta ou a demanda?

Nosso foco hoje é trazer mais oferta, mais vendedores que acabam trazendo os compradores. Mas queremos que o comprador depois vire vendedor, etc. Isso acaba virando o network effect.

E, mesmo no mercado de classificados, as pessoas ainda são um pouco reticentes com compras online, como vocês driblam esse obstácuo?

O que ajuda na OLX é que você não precisa colocar o seu cartão de credito. Alem disso, o fato de ser de graça é um incentivo legal. Mas as pessoas ainda têm alguns medos e receios, por isso damos dicas de como tomar cuidado tanto para o vendedor quanto o comprador.