Artigo por Miklos Grof, co-fundador da Fundacity.

Investir em start-ups é mais arte do que ciência, mesmo para investidores experientes. Da mesma forma que os artistas, investidores precisam tanto de talento quanto de muita prática para serem bons no que fazem. Para aprender a avaliar oportunidades de investimentos em startups e identificar os potenciais vencedores, são necessários muitos anos e centenas de reuniões com empreendedores.

Investidores anjo também precisam saber como negociar e fechar um acordo de investimento. Isso requer conhecimento sobre valuation de startups, aspectos legais e contratuais e, finalmente, tempo considerável para executar tudo isso. Para adquirir experiência, novos investidores anjo geralmente começam co-investindo com seus colegas mais experientes, como Bernardo de Barros Franco (veja o vídeo acima), muitas vezes como parte de clubes de investimento anjo. Co-investir traz ainda mais benefícios, que serão descritos neste artigo. Entretanto, vamos primeiramente mostrar como funciona o processo de investimento em startups.

Processo de seleção

Em teoria, selecionar uma startup deveria ser a parte mais fácil do processo de investimento. Existem muitas oportunidades para se escolher, e a decisão pode até mesmo ser baseada em pressentimentos e critérios de senso-comum, como ilustrado em nosso post anterior. Na prática, para aplicar bem os critérios de seleção é necessária muita prática, uma vez que pouquíssimas startups têm os ingredientes certos para se tornarem investimentos lucrativos. Para aumentar as suas chances de retorno, investidores anjo profissionais utilizam processos de seleção mais estruturados, baseados no que se chama de fluxo de investimentos próprios (proprietary dealflow).

Os melhores investidores são capazes de identificar startups promissoras cedo, antes de todos os outros. O quão antes investirem em uma startup potencialmente grande, maiores serão as chances de obterem alto retorno. Basta perguntar a quem investiu mais cedo em startups como Facebook e Google. Entretanto, identificar as melhores equipes nesse estágio inicial é muito difícil, uma vez que poucas pessoas têm a informação privilegiada de saber que elas existem.

A única maneira de conhecê-las é tendo contato com as pessoas certas no ecossistema de startups, que podem indicar as melhores oportunidades.  Esse é o chamado fluxo de investimentos prioritários (proprietary dealflow), o santo graal de cada investidor. As introduções mais qualificadas normalmente vêm de um outro investidor que já está participando do investimento, ou de um fundador de uma das startups no portfólio do investidor.

Mesmo com esse filtro, poucas startups realmente atendem aos critérios de seleção. Investidores profissionais de Venture Capital nos EUA apenas financiam 1-2% das startups que eles conhecem.  Portanto, se um investidor profissional planeja investir em 5 startups por ano para diversificar seu portfólio, ele iria precisar se reunir com pelo menos 250 startups promissoras. Na prática, investidores anjo tendem a ser menos seletivos que Venture Capitalists, mas a seleção ainda assim leva bastante tempo, não somente para achar as boas oportunidades, mas pelas numerosas reuniões requeridas para se tomar uma decisão de investimento.

Apenas para resumir a etapa de seleção, os principais desafios estão em a) ter acesso a indicações de alta qualidade, b) saber como aplicar os critérios de seleção e c) ter tempo para realmente fazer tudo isso bem.

Negociando e fechando o negócio

Uma vez que o investidor anjo decide investir na startup, ambas as partes precisam concordar com as condições do investimento. Os elementos-chave na mesa de negociação são:

  • Tipo de investimento. Em troca do financiamento, o investidor pode receber participação (ações ordinárias ou preferenciais), ou nota conversível que depois poderão ser convertidos em participação sob determinadas condições. Compras diretas de participação não são muito populares em acordos de estágio inicial no Brasil. Elas são consideradas arriscadas, uma vez que a justiça do trabalho pode considerar os acionistas responsáveis por todo tipo de dívida trabalhista da startup. Para evitar esse risco, a maneira preferida pelos investidores anjo brasileiros para financiar negócios em estágio inicial é via debênture ou nota conversível.
  • Valuation. Em cada rodada de investimentos, uma startup procura levantar fundos suficientes para permitir que ela foque os próximos 12-18 meses somente no crescimento do negócio, sem dores de cabeça relacionadas a fluxo de caixa. Se as partes decidirem fazer uma transação dinheiro x participação, o próximo passo é chegar em um acordo em relação ao valor da empresa, que muitas vezes se resume a quanto de participação a startup está disposta a ceder pelo dinheiro que ela deseja receber. Investidores anjo normalmente adquirem até 20% de participação, embora a participação individual possa ser tão pouco quanto 1% em syndicated deals (vários investidores investindo juntos). Usualmente o investidor consegue melhores condições quanto maior for o investimento e quanto mais ele puder contribuir (com conhecimento, contatos) além do dinheiro. Esse é o motivo pelo qual muitas vezes grupos de investidores anjo realizam investimentos conjuntos.
  • Taxas de desconto e valuation. Notas conversíveis estão se tornando instrumentos bastante populares para estruturar investimentos em startups porque elas adiam o valuation para outro momento. As taxas de desconto e de valuationsão termos importantes, que recebem a atenção dos investidores e da startup. A taxa de desconto dá ao investidor um valor descontado para converter seu aporte em participação, diante de um evento-gatilho (o cumprimento de condições sob as quais a conversão ocorre).  A taxa de valuation ajuda a garantir ao investidor uma certa parcela da empresa mesmo que a startup tenha um valuation muito alto na próxima rodada de financiamento. Ambos estes termos são definidos de uma maneira inteiramente não-científica, e dependem em grande parte da experiência e habilidades de negociação dos investidores.
  • Outros termos do investimento. Os outros fatores-chave que precisam ser acordados estão relacionados ao valuation (especialmente se a transação envolver uma nota conversível) e ao controle que os investidores terão sobre decisões importantes para a startup. 

Junte-se ao Clube

Somente os investidores muito experientes podem navegar pelos desafios encontrados para fechar o negócio, entretanto, existe uma maneira para investir em startups sem ter que lidar com tudo isso. É o co-investimento ou syndication, em que diversos investidores anjo reúnem seus recursos. Usualmente este tipo de negócio é feito pelos clubes de investimento anjo. Eles são populares dentre os investidores anjo, uma vez que, além de reunir pessoas que possam co-investir, também dão individualmente aos investidores anjo oportunidades para acessar fluxos de investimentos de maior qualidade e rigidez financeira para participar de negócios mais atrativos. No Brasil, os grupos de investimento anjo mais famosos são Anjos do Brasil, Harvard Angels, Gávea Angels e Curitiba Angels.

Esses clubes normalmente requerem cota de adesão e não é qualquer pessoa que pode participar, então eles são bastante exclusivos nesse sentido. Felizmente, pessoas que querem investir em startups mas não querem fazer parte de um grupo de investimento anjo têm a opção de investir online em startups. Existem, de maneira ampla, dois modelos de plataforma de investimento online – crowdfunding de participações e syndication. Ambos permitem investir pequenas quantidades de dinheiro para uma grande quantidade de pessoas juntas.

Benefícios de co-investir

Vamos focar no modelo de syndication, que é mais frequentemente usado por investidores anjo profissionais. Neste modelo, um investidor anjo experiente já encontrou uma startup para investir. Ele conheceu os fundadores, viu o produto, analisou a oportunidade de mercado e acredita que essa pode ser a próxima nova grande onda. Entretanto, como a startup requer um investimento mais alto do que o que este investidor está disposto a fazer, ele decide convidar mais pessoas para não perder o negócio ou para negociar melhores condições, como um investidor maior.

Ele pode convidar seus amigos ou usar uma plataforma online para trazer co-investidores externos à sua rede de contatos. O papel do investidor líder neste caso é negociar os termos do investimento, fechar o negócio e utilizar o seu expertise para ajudar a startup a crescer, depois de feito o investimento. Em retorno pelo seu trabalho, ele recebe uma taxa de performance (carried interest) se o investimento se provar rentável após o desinvestimento.

Para seus co-investidores, os principais benefícios de participar do negócio são os seguintes:

  • Acesso a um negócio já verificado e aprovado por um investidor experiente, no qual eles provavelmente não terão que se envolver diretamente
  • Melhores condições de investimento, graças ao investidor líder, que aplicou sua expertise na estruturação e negociação do acordo
  • Envolvimento continuo do investidor líder no acompanhamento da startup após o investimento, uma vez que eles também investem (e arriscam) o próprio dinheiro
  • Baixos investimentos mínimos, o que significa que investidores menores podem mais facilmente diversificar seus portfólios de investimento em startups, investindo o capital disponível em mais empresas
  • Melhores condições de investimento podem ser negociadas quando os investidores reúnem seus fundos e fazem um aporte maior

Finalmente, envolver diversos investidores menores em co-investimentos também beneficia as startups, que terão acesso a mais capital para financiar o crescimento do negócio, e posteriormente poderão usufruir do conhecimento e da rede de contatos de seus investidores, muitos dos quais contam como dinheiro inteligente. Adicionalmente, elas terão acesso a um número maior de investidores sem ter que negociar e fechar negócio individualmente com cada um.

No nosso próximo artigo, iremos apresentar os Clubes de Investimento Fundacity, uma nova maneira para investidores menores investirem em startups brasileiras, através do modelo de syndication. No vídeo acima, você pode assistir a uma entrevista com Bernardo de Barros Franco, que será um dos investidores anjo experientes realizando negócios por meio dessa plataforma.

Artigo por Miklos Grof, co-fundador da Fundacity. Além das atuais funcionalidades, a Fundacity está para lançar clubes de investimento. Confira o primeiro artigo desta série (como investidores visualizam oportundiades de investimento) e uma entrevista com Miklos Grof.