De quem é aquela frase “meus heróis tem pé de barro”? Ela nos lembra que, quando pisa numa poça d’água, até um gigante pode cair se não for feito de um bom material. Não estou querendo dizer que todo material do qual é feito o Vale do Silício é ruim, mas lá tem material ruim, sim.

Todo mundo caiu matando qualquer fabricante de roupas ou de iPhones por causa de políticas duvidosas com relação a funcionários e acaba endeusando as políticas de recursos humanos nas empresas top do Vale do Silício. Ok, nem todo mundo endeusa, mas a maioria (ao menos dos nossos leitores) deve sentir uma puta inveja e tentar imitar nas suas empresas toda aquela coisa de stock options, horário flexível e meritocracia.

Bullshit! Não puro papo furado, claro, mas parte disso envolve sujeira grossa.

Querem os fatos? Nomes e números? Claro que querem – até mesmo vocês brasileiros que querem esconder da imprensa informações sobre os investimentos. Sugestão: sejam transparentes, pois as coisas coisas podem ir para o ventilador de uma forma bem feia.

Apple, Google, Intel, Adobe, Intuit e Pixar estão sendo acusados pela Justiça norte-americana por conspirarem contra duas regulamentações que protegem trabalhadores (0 Sherman Antitrust Act e o Clayton Antitrust Act). Como demonstram diversas evidências (especialmente trocas de emails condenatórios) publicadas especialmente no no Pando, sob o nome de Techtopus, esses ícones da inovação mantinham acordos e práticas que impediam funcionários (especialmente os engenheiros mais especiais) de trocarem de emprego (e receberem aumentos em função disso). Fora essas empresas citadas, levantamentos indicam dúzias de empresas envolvidas e um milhão de funcionários atingidos (até agora, 65 mil ingressaram ação coletiva).

Em outras palavras, a vida profissional de vários deles  são mantidas como que em uma espécie de cativeiro (eram impedidos de receberem propostas para irem trabalhar nos concorrentes de peso). E isso é um ataque à própria vida pessoal. É uma espécie de jaula luxuosa, mas ainda assim uma espécie de jaula.

Tudo é um mal-entendido, uma conspiração? Not. Tudo lá é ruim? Not! Mas nem tudo é o paraíso de liberdade e sucesso para os geniais. Na opinião de especialistas, essas revelações alteram a percepção da natureza fundamental do que é e como funciona o Vale do Silício. Nossa inocência morre um pouco com isso.

É bem como dizem nessa paródia musical publicada esta semana pela VH1: nerds que sofriam muito bullying traçaram planos para se tornarem chefes e manterem os funcionários no cabresto. Reparem nas partes que dizem “vocês vão ser meus escravos” e “nunca vão receber aumento”. Obviamente o vídeo é uma brincadeira e não tem nada a ver com as investigações, mas vale ao menos assistir e rir um pouco.

E é claro que eu ainda gosto do Valley, mas vale pensar na resposta que Kevin Hartz me deu ontem no palco da Virada Empreendedora: “não fique buscando investidores, foque nos seus clientes, aí os investidores vêm” (assista à entrevista que ele me deu).