“Never doubt that a small group of thoughtful citizens can change the world.
Indeed, it’s the only thing that ever has.”  Margaret Mead.

Existem histórias que devem ser contadas para reconhecermos o impacto positivo que alguns anônimos (e nem tão anônimos assim) tiveram na vida de milhões de pessoas.

Uma história de que gosto é a da Gangue dos Quatro – que não era composta somente de quatro pessoas. Esta gangue é em parte responsável pela Internet que usamos hoje no Brasil. Ivan Moura Campos, Eduardo Moreira da Costa, Carlos Jose Pereira Lucena, Tadao Takahashi e Silvio Romero de Lemos Meira eram os integrantes desta gangue.

Veja aqui a história da expressão Gangue dos Quatro

No começo da década de 90 (há mais de 20 anos), a gangue reconheceu a importância que a Internet poderia ter na sociedade e que algo deveria ser feito. Era um período conturbado politicamente com a queda de Collor, posse de Itamar Franco e depois a entrada do governo FHC. Eles tinham um plano que era composto de 3 pilares: expandir a incipiente Rede Nacional de Pesquisa (RNP), formar pesquisadores e técnicos nas universidades de computação e mudar a política de reserva de mercado.

Em 1992, eles conseguiram uma primeira verba do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no valor de USD 3 milhões e, no primeiro semestre de 1993, uma verba de USD 28 milhões. O apoio para conseguir este dinheiro veio de um ministro de relações exteriores que enxergava na Internet algo com potencial para ajudar o país num contexto socio-econômico recente: a globalização. Este ministro era Fernando Henrique Cardoso.

Com o dinheiro, houve a expansão da formação de graduação e pós-graduação em de ciência da computação no Brasil, através do Programa Temático Multiinstitucional em Ciência da Computação (ProTem-CC), a expansão da RNP e a origem do programa SOFTEX. A formação e a expansão da RNP foi essencial para o próximo momento.

Em 1994, era óbvio quem seria o fornecedor de Internet no Brasil: a Embratel. Ela era a operadora de telefonia de longa distância e se posicionou no mercado como a provedora de internet comercial brasileira. Para isso foi criado um pré cadastro para as pessoas comprarem acesso à  internet no Brasil. Isso mesmo, para poder acessar a internet, você teria que entrar em uma fila.

Neste contexto, Ivan Moura Campos escreveu um artigo para uma revista criticando o monopólio da Embratel e defendendo que a RNP e outros provedores deveriam competir de forma livre na venda de acesso de Internet. O artigo foi parar nas mãos de Sergio Motta (homem forte do governo FHC e que comandou o processo de privatização das teles) que, juntamente com o Ministro da C&T José Israel Vargas, decidiu em 1995 tornar o acesso a Internet um serviço de valor agregado e de livre concorrência.

Além disso,  ​criou-se o Comitê Gestor da Internet e proibiu-se que as teles regionais fornecessem acesso a Internet ao consumidor final. Com esta definição, em poucos meses o mercado de internet no Brasil saiu de um único provedor de acesso para milhares de provedores. Eu trabalhei em 3 deles (Bytenet, Bahianet e Terra).

Nenhum dos nomes anteriormente citados ficou rico vendendo acesso à Internet. Foram pessoas ​empreendedoras ​como Aleksandar Mandic ou Marcelo Lacerda que construíram provedores de acesso e fizeram fortunas. A função da gangue dos quatro foi lutar por algo em que acreditavam e construir uma política pública que permitisse a sociedade operar da melhor forma.

A história acima eu nunca li em português. Somente li em inglês no livro Information Revolution Developing Countries Politics de Ernest J. Wilson III.

O Brasil tem outros nomes que deveriam ser lembrados. Particularmente gosto de nomes como:

São homens públicos, pois a política e a criação de leis não podem ficar somente com os políticos.

Grato a Silvio Meira e Ivan Moura Campos.

Imagem de abertura: Carmen’s Fun Painty Time