Artigo de Renato Stefani.

Você já ouviu isso antes: saia da sua zona de conforto. Parece ser o mantra que recorre em todos os canais de mídia e entrevistados, toda vez que o termo “Empreendedorismo” é citado. Escape do esquema de trabalhar das 9 às 5, seja seu próprio chefe, faça acontecer, não tenha medo, faça coisas diferentes…
blá,
blá,
blá.

Admito, fui ludibriado por algum tempo, gritando o hino do empreendedorismo e insistindo para que outros seguissem o mesmo caminho. Depois de refletir por mais um tempo sobre o que realmente era a zona de conforto, eu percebi que tinha entendido o conceito errado desde o princípio.

O que segue é um relato sobre como isso conseguiu me afetar e como fiz para recomeçar. Meu objetivo aqui é simplesmente jogar uma ideia para gerar uma discussão relevante e compartilhar experiências parecidas.

Eu participava ativamente do ecossistema de startups brasileiro. Ia a eventos, conhecia cada vez mais pessoas com o mesmo mindset que eu. Pessoas que queriam algo novo, que estavam cansadas da estrutura hierárquica das empresas, cansadas de ter que driblar o esquema estrutural para fazer as coisas acontecerem, cansadas de ter ambições enormes e ter que se contentar com empregos onde o desafio é pequeno ou inexistente. Pessoas que me entendiam, que me inspiravam, que falavam a minha língua. Loucos, assim como eu, com paixão nos olhos, que não se importavam em passar finais de semana a fio prontos para fazer seu negócio acontecer, colocar sua ideia no mercado e impactar tantas outras pessoas.

O “sair da zona de conforto” estava cada vez mais presente, até que finalmente juntei um dinheiro suficiente, me coloquei na posição de não ter nada a perder e pedi demissão para focar 100% na minha startup. Sair da zona de conforto estava cada vez mais claro: mate um leão por dia, procure fazer tudo o que você sempre teve medo de fazer, largue a segurança do emprego estável.

De alguma maneira, o inverso ocorreu: fazer coisas diferentes todos os dias, sair da rotina, conhecer pessoas novas, encontrar novas maneiras de alavancar meu negócio e sempre vir com novas ideias era a minha nova zona de conforto. Pequenas tarefas enfadonhas do dia a dia começaram a não fazer mais sentido para mim. Sou bem extrovertido (isso significa que ficar ao redor de pessoas me energiza), e sempre que eu estava fazendo as coisas comuns do dia a dia, aquilo começou a me sugar uma energia absurda. E, claro, como sempre, toda vez que eu me via nessa situação desconfortável, eu apenas pegava meu telefone e ficava na espiral negra: emails, facebook, whatsapp, vocês sabem…. a fuga de sempre.

Foi então, que algo me atingiu bem forte. Eu estar “fora da minha zona de conforto” começou a ser exatamente o contrário do que deveria ser.

Em 2014, decidi que seria interessante dar um passo atrás, e experimentar novas coisas. Por motivos pessoais, decidi que esse ano trabalharia em alguma empresa com valores alinhados aos meus, antes de empreender novamente. O interessante foi como a tarefa de procurar esse emprego se desenrolou. A busca começou bem antes do ano começar, foi um período de muita insegurança, dúvida, ansiedade e angústia.

Alguns dos meus hábitos contribuíram pra isso, nos últimos 4 meses, eu:

  • todo dia eu apertava a “soneca” por cerca de 2 horas, até meu quarto ficar insuportavelmente claro ou eu cansar de ficar na cama;
  • eu chorei assistindo O Rei Leão (quem nunca?);
  • deixei minha barba crescer por 2 meses;
  • ficava procrastinando o dia inteiro no “Mundo negro da diversão” (vídeo atras de vídeo no Youtube, artigo atras de artigo, Facebook, TED Talks e por aí vai).

O que aconteceu nesses quatro meses? Desertos da vida são comuns, e atingem pessoas de todas as idades quando grandes mudanças ocorrem na nossa vida. O interessante desse período, é que ao mesmo tempo em que tanta angústia ocorria, uma análise maior ocorreu: eu estava pronto para sair da minha zona de conforto mais uma vez, e isso que estava me deixando desesperado:

  • eu não queria voltar a trabalhar das 9 às 5;
  • eu não queria deixar de almoçar e tomar café com meus outros amigos empreendedores (que tem essa liberdade);
  • eu não queria tolerar a ideia de acordar cedo e ter de pensar antes do meio dia (eu trabalho muito melhor de madrugada);
  • eu não queria lidar com os “baba ovo” do mundo corporativo;
  • eu não queria as conversas baratas de pessoas que só sabiam falar de novela e futebol, enquanto trabalham em um emprego que não as completa;
  • eu não queria usar roupa social. Eu não queria voltar a ser “gente grande” de novo;
  • eu não queria ter responsabilidades, que não fossem as que eu mesmo estipulasse;
  • eu não queria ter um chefe de novo.

De repente, o sair da zona de conforto pareceu ainda mais abominável do que o mesmo de um tempo atrás. Foi aí que o cérebro deu um “click”, e as 2 próximas semanas foram incríveis:

  • troquei 12 horas de sono por 4 horas e dois cochilos de 20 minutos durante o dia, no melhor esquema de sono polifásico. (procure por “everyman polyphasic” no Google, se você não conhece);
  • sai de casa todos os dias, nem que fosse para ir em um café usar o wi-fi;
  • levantei todos os dias e tomei uma chuveirada gelada para acordar de verdade (é incrível como funciona!);
  • parei de beber bebidas alcoolicas e qualquer tipo de comida porcaria;
  • diminuí de 3 cafés/ dia a 1 café por semana;
  • acordei mais cedo para meditar 20 minutos, diariamente, e mais 20 antes de dormir;
  • consegui me reinventar e me reposicionar no mercado;
  • voltei a criar disciplina para escrever meu livro todos os dias.

Isso tudo foi combinado com diversas propostas de emprego, longe da chatice do mundo corporativo, mas que tinham a ver com meu perfil e com as ambições e habilidades que estava disposto a enfrentar nesse ano. Diversas ideias de novos negócios começaram a surgir, inclusive comecei a executar algumas (pode ser que eu comece a empreender antes do que esperava).

Tudo isso, para falar que: ou você faz o que tem que ser feito, ou você acaba gerando hábitos que começam a te afundar cada vez mais em uma espiral negativa, com um medo do mundo e de viver. Tudo isso para falar que a montanha russa do empreendedorismo é cruel, e que você deve ser sua prioridade número um, em saúde mental e física, para que você possa sempre atender à todas as demandas que exigem o seu máximo.

Como você espera empreender, se as vezes você mesmo está incompleto? Com uma gestão péssima? Comece empreendendo em você mesmo. E você? Já passou por uma situação parecida? Comenta aí!

Artigo de Renato Stefani, criador do LiveMemo e do ArchyAutor de outro artigo no Startupi: Como viver no Vale do Silício com pouco dinheiro.