Em 2006, a empresa TradingMarkets pediu que 10 playmates da Playboy fizessem um portifólio de investimentos com 5 ações na bolsa de valores. Depois de um ano o resultado da escolha das playmates foi comparado com o resultado dos fundos de ações tradicionais. A ganhadora foi Deanna Brooks, apurando 43% de retorno com um portifólio que incluía a Petrobrás.

Caso eu pedisse para a mesma Deanna Brooks que fizesse 10 obturações em dentes cariados, o resultado não seria o mesmo. Nunca um leigo conseguiria uma melhor performance que um profissional numa área como odontologia.

Existem profissões em que a habilidade é o fator que importa. Não existe muita sorte numa cadeira de dentista. Existem contratempos, mas eu não diria que a sorte desempenha um papel fundamental na profissão de um dentista ou de um piloto de avião.

Já não posso dizer o mesmo da profissão de quem trabalha em mercado de capitais ou – no caso de muitos que lêem este texto – de quem é empreendedor. Você precisa de sorte e você precisa entender o papel que a sorte exerce sobre o seu destino.

Para isso, vamos pensar que o resultado é a combinação de habilidade com acaso. A sua habilidade pode variar de -50 até 50 e a sua sorte pode ser de -100 a 100. Sorte negativa, neste caso, é o que chamamos de azar. Habilidade negativa é não entender nada. Habilidade zero é treinamento mínimo para desempenhar a função.

Se você começasse a operar na bolsa de valores no período de Jun/2005 e saísse em Dez/2007, sem treinamento específico, iria somente por chance ganhar muito dinheiro. A sua habilidade teria sido -50, mas a sorte contou a seu favor. Pois na nossa equação, a sua habilidade foi -50, sua sorte é foi 100 e o seu resultado final foi 50. Se você entendesse muito de mercado de capitais você teria uma habilidade de 50 com a sorte de 100 e teria o resultado de 150.

Há casos em que você já entraria no jogo perdendo. Se, da mesma forma, você é colocado num avião a 35.000 pés e pedem para você pousar, não existe nada neste mundo que deixe acreditar que por chance você consiga um resultado positivo. A sua habilidade é -50, a sua sorte é zero (um dia normal para um piloto) e neste jogo se o seu resultado for menos que zero, você está morto. Para sair vivo, neste caso, sua habilidade mínima é zero.

Da mesma forma, pense em duas pessoas. Moram uma do lado da outra em um condomínio, estão com 40 anos e conseguiram 2 milhões de reais de patrimônio. Um é dentista, muito bem sucedido, nascido em uma família de classe média com uma boa educação. O outro é um catador de lixo que achou um bilhete premiado na loteria. Caso a vida destas pessoas recomeçasse e em cada momento crucial da vida dela (ambiente em que nasceu, escolha da profissão, escola do primário, com quem se casou, etc) fosse sorteado um resultado, quantas das vezes o dentista chegaria ao mesmo patrimônio que tem hoje e quantas o lixeiro? Qual a probabilidade de um lixeiro achar um bilhete premiado da loteria? E se fossem bebês trocados na maternidade? Quem seria o lixeiro e quem seria o dentista?

Isso acontece todos os dias. A cada decisão que você toma como empreendedor, você está colocando em jogo a fórmula do acaso mais habilidade. Você pode tomar uma série de decisões, inclusive ruins, o mundo conspirar ao seu favor e o resultado ser positivo. Você pode tomar boas decisões, mas o acaso ir contra o seu jogo.

Desta forma, a única estratégia é aumentar a sua habilidade e se colocar em posição de boa sorte. Da mesma forma que um bom investidor tenta comprar uma ação para a qual a probabilidade de alta seja maior que a de baixa, você deve se colocar em situações em que a sorte fique ao seu favor.

A sua chance de encontrar um bom cliente é maior fora do seu escritório do que dentro dele. A sua chance de impressionar um cliente ou investidor é maior com uma demonstração do que com uma apresentação de slides. A sua chance de encontrar um investidor é maior em um café da Vila Olímpia em São Paulo do que em um bar no Rio Vermelho em Salvador.

Não se impressione com histórias sensacionais. Você pode estar na frente de um caso único de sorte. Pense o quanto o acaso foi a favor destes casos extremos. Procure aprender com pessoas que prosperaram em 3 ou 4 negócios, que estão no jogo há mais de 20 anos. A estas pessoas, o acaso já deu tanto a sua parcela de má quanto a de boa sorte.

Obrigado a Roxana Borges, Roberto Pinho e Gabriel Benarros.

Foto de abertura: vavva_92/Flickr(CC)