Se as startups percorrem um caminho, certamente ele é pavimentado pela linguagem de programação Ruby. Você pode nunca ter ouvido falar – mas ela é onipresente internet afora. Sites como o SlideShare, por exemplo, são edificados a partir dela.

Startups que hoje são produtos estabelecidos, como o Twitter, também construíram a sua plataforma a partir da Ruby – ou melhor, da evolução dela, o framework conhecido como Ruby on Rails.

A significância dela pode ser mensurada pelo Rubyconf Brasil, congresso que vai aglutinar desenvolvedores brasileiros e gringos durante os dias 29 e 30 de agosto no teatro Frei Caneca, no coração de São Paulo. Segundo o organizador Fabio Akita, a expectativa é que 700 pessoas compareçam às palestras dos 27 conferencistas – 15 deles de fora do Brasil e, dentro desse número, seis são brasileiros que moram e trabalham no exterior.

A linguagem de programação Ruby antecede a existência das mais badaladas, como Java, .NET e PHP. Criada de forma low-profile por Yukihiro Matsumoto e permaneceu restrita a poucos conhecedores até a sua redescoberta, em 2001, por alguns programadores do então recém-formado Manifesto Ágil, cujo objetivo era agilizar o desenvolvimento de sistemas operacionais. “Por isso coisas como desenvolvimento orientado a testes (TDD) e outras boas práticas foram rapidamente incorporadas à flexibilidade da linguagem”, diz Akita.

Conversamos com o organizador da conferência para saber mais sobre o evento, a linguagem e a relação indissociável com startups. Veja abaixo.

Por que ela a Ruby é essencial em uma startup em detrimento das outras?

Não seria em “detrimento”, mas em muitos casos é “em conjunto”. Se há algum detrimento é a utilização de ferramentas, tecnologias ou práticas antiquadas que já foram ultrapassadas mais de uma década atrás mas continua sendo usado. Isso é visível principalmente no mundo corporativo que está, no mínimo, 20 anos atrasado em relação ao que fazemos nas startups de tecnologia atuais.

Embora na teoria toda linguagem tenha capacidade de fazer tudo que a outra faz, existem pontos fortes e pontos fracos em cada uma delas. Em 2004, surgiu o framework web chamado Ruby on Rails, construído sobre Ruby, que foi uma revolução na forma de se desenvolver aplicações web de forma “rápida” (que PHP já fazia), mas com uma estrutura de engenharia de software robusta (que o Java e .NET faziam), mas sem a burocracia e lentidão que eram associada à construção de estruturas robustas, e ainda adicionando pensamento Ágil (ela já via com infraestrutura para desenvolvimento orientado a testes, TDD, como disse antes, influenciado pela semente Ágil). Além disso tornou simples fazer coisas como Ajax e organizar elementos de HTML, Javascript, CSS, influenciando toda uma geração de construção front-end.

Rails é ainda hoje o teto a ser superado e todos os outros frameworks web que surgiram depois se influenciam nela. Dezenas de bibliotecas e serviços que abrangem gerenciamento de projetos, automatização de infraestrutura, ferramentas de testes e qualidade de código, monitoramento e otimização de sistemas evoluíram graças à linguagem.

Qual o envolvimento do evento em si com os conceitos de startup?

O mundo Ruby e Ruby on Rails foi moldado quase exclusivamente pela comunidade de startups, e essa foi a primeira vez que isso acontecia numa nova plataforma.

O framework nasceu num mundo de startups, mais especificamente na famosa 37signals. Ela não tem um roadmap pré-definido corporativo como Microsoft e Oracle (e Sun antes dela). Quem adota open source tem um filosofia diferente do mundo corporativo, buscando definitivamente o melhor resultado pelo menor custo e com a maior qualidade possível. No mundo corporativo o resultado final não é tão importante quanto a negociação comercial por trás dela. E isso fundamentalmente muda tudo.

Como o mundo Ruby, em particular o mundo Ruby on Rails, nasceu pós-2004, numa época onde técnicas ágeis já estavam mais estabelecidas e sem precisar manter todo um legado de pensamento antiquado de engenharia gerado pré-2000, criou-se um terreno fértil, especialmente porque pós 2005 uma nova geração de startups começou a crescer novamente, vimos Facebook nascendo em 2004, Twitter nascendo em 2006.

Qual o diferencial da linguagem de programação Ruby para uma startup?

Ferramentas como Pivotal Tracker (para gerenciamento de projetos Ágeis), Travis-CI ou Circle-CI (para automatização de testes contínuos), CodeClimate (para análise de qualidade de código), Github (o maior repositório de código open source do mundo), Heroku (a melhor e mais ágil plataforma Cloud para instalar suas aplicações), e muitas outras grandes ferramentas do mundo de startups nasceram da comunidade Ruby. Mesmo se você não usa Ruby provavelmente está usando um serviço feito em Ruby sem saber. Exemplo disso é que, se você já viu slides de uma palestra no Slideshare.net, saiba que ela é feita em Ruby.
Você fala da comunidade Ruby on Rails no Brasil e no mundo – pode dar mais detalhes sobre ela? Qual o elo fundamental com a gestação de start-ups?

Startups de tecnologia não podem jogar dinheiro fora, e o pouco que tem precisa ser investido em software que vai se manter em pé depois. Para isso existe uma longa história de boas práticas – que a comunidade Ruby on Rails englobou desde o começo e praticamente reinventou na última década. O mundo web em geral pós-2004 é influenciado fortemente pela comunidade Ruby. O maior exemplo disso é que o maior repositório de código do mundo veio da comunidade Ruby, e é o Github.

Pode enumerar os grandes cases a partir do uso da tecnologia Ruby em startups? Que tipo de formato foi desenvolvido em cada um com ela?

Existem dezenas, e como expliquei antes, não significa que todas elas usam somente Ruby. Pelo contrário, seguimos a filosofia de “Best of Breed”, usamos Ruby principalmente na camada Web e criamos integrações com outras peças em background feitas em Java, Erlang, Scala. Exemplos famosos são Twitter, Groupon USA, Github, todos os produtos da 37signals, cloud como Heroku, Hulu.com (NBC e Universal), Shopify, YellowPages. Aqui no Brasil, a Editora Abril tem quase todos os seus principais sites (incluindo Veja) feitas em Ruby. A Locaweb foi uma das pioneiras no Brasil e muitos dos seus produtos e filosofia interna de desenvolvimento vem da comunidade Ruby (por isso eles organizam a Rubyconf Brasil comigo faz seis anos).

Quais start-ups no Brasil usam a tecnologia Ruby? Elas vão contar seus cases no evento também?

Aqui no Brasil uma das primeiras startups de sucesso a usar Ruby foi o Boo-Box, da Monashees. E da Monashees temos muitos cases de sucesso em Ruby como o RunRun.it, Baby.com.br, Olook, Bidu, eduK, GetNinjas. Praticamente todos os palestrantes da Rubyconf são de uma startup. A ideia do evento não é ser comercial ou institucional, é uma conferência onde os palestrantes vão contar alguns aspectos técnicos de Ruby que usam nas startups onde trabalham. Não serão palestras do tipo “por que você deve usar Ruby” ou “como gostamos de Ruby na nossa startups”. Passamos dessa fase faz pelo menos cinco anos. Hoje, ela é para juntar os melhores profissionais que por usarem Ruby significa que estão inseridos na comunidade de startups, para aumentar o networking e aprender ao vivo com quem está trabalhando no dia a dia com startups no Brasil e fora do Brasil.