Basta uma pequena busca no Google sobre startups para encontrar milhares de fontes de informação como livros, palestras e artigos com receitas de como podemos ser bem sucedidos. Quando lemos o livro “Lean Startup” do Eric Ries, nos damos conta de que temos que ser enxutos e que os investimentos devem ser feitos na medida em que comprovamos empiricamente os passos a seguir. Genial! Basta aplicar todos estes conceitos na minha startup e estarei no caminho certo! Certo?

Bem… pensar desta maneira é a mesma coisa que planejar uma guerra. No papel, na sala dos generais, estamos falando de maquetes e modelos que representam os nossos soldados, os inimigos e temos um desenho geral da nossa estratégia. Não tem como falhar! No campo, onde os soldados realmente veem o inimigo cara a cara, as coisas geralmente não acontecem de forma limpa e clara. Bombas para todo lado, pessoas gritando, chorando. Não se sabe qual o lado certo para avançar, enfim, um caos. Aqueles oficiais com mais tempo de batalha, acabam se acostumando com isso e fazendo um link entre a estratégia traçada e o que ele vê no campo, se adaptando e lidando com os problemas.

Em uma startup, creio que acontece um pouco isso. Ao lermos as dezenas de matérias sobre empreendedores de sucesso e empresas fabulosas, nos esquecemos que eles lutaram duro para chegar onde chegaram, que contaram também com a sorte e que as coisas não foram tão claras e certeiras desde o início. Da mesma maneira, quando lemos as teorias e técnicas que os novos livros sobre empreendedorismo apresentam, podemos acreditar que a jornada vai ser fácil e simples: testo o meu mercado, o meu produto, consigo um investidor, cresço (ou escalo, como falamos hoje) e tudo vai dar certo. Talvez realmente aconteçam estes passos, mas o caminho até lá será bem mais tortuoso do que você imagina.

Quando falo em caminho tortuoso, quero dizer que as coisas não vão se apresentar de forma linear e fria como muitas destas teorias nos fazem imaginar. No campo de batalha do empreendedor as coisas não acontecem de maneira perfeita. Nosso programador se demite para trabalhar em uma multinacional no meio do projeto. Nosso único cliente rescinde o único contrato da empresa, que financiava toda operação. Procurei mais de 20 investidores e todos disseram que minha empresa é interessante, mas que não era para eles. Já estou há mais de dois anos trabalhando neste negócio e não consigo ver a luz no fim do túnel. Estas situações são apenas alguns exemplos entre milhares de situações que acontecem no dia a dia do empreendedor. A boa (ou má) noticia é que você tem que passar por isso. Faz parte da sua formação como empreendedor e é a coisa mais importante que você vai aprender na sua carreira profissional.

Em alguns anos (sim, anos, não meses) você vai entender que estas dificuldades não são azar, são partes integrantes do que chamamos de empreender. Elas vão continuar acontecendo, de outras formas e com outra intensidade, é claro, mas o que vai ter mudado é sua capacidade de lidar com elas. Sim, você passa a ser aquele oficial veterano que consegue ver o norte em meio ao caos, uma das grandes habilidades a ser adquiridas com o passar do tempo.

Neste contexto, quando me procuram para perguntar se a ideia em que estão trabalhando tem potencial, eu sempre tento avaliar o perfil dos empreendedores, antes de qualquer coisa. Eu acredito que ideias são commodities e que qualquer um consegue pensar em um modelo interessante, mas poucos são aqueles capazes de chegar ao outro lado. E acredito que um dos componentes mais importantes seja a capacidade de lidar emocionalmente com o fato de você estar mergulhado no risco e sujeito a frustrações diárias. Não é tarefa para qualquer um e também não acho que seja algo que você não consiga aprender. Basta entrar em campo sabendo o que te espera. E se você acha que a vida de uma startup é basicamente glamour e capas de revista, minha sugestão é que você não largue o seu emprego. 

PS: Eu adoro as teorias do Eric Ries e os formatos mais recentes de gestão de startups!

PS2: Meu titulo faz referência ao ótimo livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas“. Recomendo!