A esta alque faz uma série de perguntas instigantes a empreendedores que se destacam no cenário brasileiro. Hoje, no centro das atenções, temos Brian Requarth, fundador e CEO da VivaReal, portal de classificados para venda, compra e aluguel de imóveis. A VivaReal já recebeu duas grandes rodadas de investimentos de milhões de reais –apenas na segunda, foram aportados R$ 30 milhões. Entre os “aportadores” estão grandes nomes como a Monashees e a Kaszek Ventures.

Nesta entrevista, Brian conta que parte de sua inspiração vem de pessoas que não acreditam nele, lembra dos “mini negócios” que criou quando criança e confessa que passa “muito” do seu tempo com a área de vendas da empresa.

Veja a conversa, na íntegra:

O que te inspira na vida e no trabalho?

Uma das coisas que mais me inspira tanto na vida quanto no trabalho tem a ver com as pessoas que duvidam ou não acreditam em mim. É um grande desafio e eu me sinto bastante motivado ao realizar ou promover algo que as pessoas acreditam que não é possível. Eu amo provar para as pessoas que elas estão erradas.

Por outro lado, a energia que recebo de pessoas que acreditam em mim é muito forte. Minha família sempre me apoiou e eles têm sido um exemplo incrível para mim. Minha esposa e eu estamos esperando nosso primeiro bebê e isto funciona como uma inspiração totalmente nova para mim.

Você lembra como foi seu primeiro contato com a tecnologia?

Lembro-me de ouvir algo sobre essa coisa chamada World Wide Web quando eu tinha 10 anos. Eu tinha um amigo que morava perto de casa e seu pai, um engenheiro, comprou um computador 386. Depois da escola, eu costumava ir para a casa dele quase todos os dias e para conectar e brincar pela internet.

O que te fez começar a empreender? Como você se preparou para ser um empreendedor?

De tudo o que eu me lembro, sempre tive um espírito empreendedor. Eu tive vários “mini negócios” quando era criança. Eu me lembro de quando estava na 5a. série e ganhei de natal uma estilosa jaqueta Chicago Bulls. Então, eu tive a ideia de alugá-la para outras crianças para conseguir um dinheiro extra. E também quando eu estava no colégio, comecei um acampamento de verão com esportes para crianças, onde eu ensinava natação, tênis e basquete. O acampamento ficou lotado e com isso eu consegui mais de US$ 1,5 por semana. Era muito dinheiro para um jovem de 15 anos. Mas foram experiências como estas que me fizeram gostar de empreender, de definir meu próprio destino e da emoção de criar algo do zero.

Quando você começou esta startup, qual foi sua visão de sucesso?

Minha visão de sucesso foi trabalhar para que o VivaReal chegasse a ser considerado indispensável para as pessoas que procuram imóveis no Brasil. Lembro-me de pensar que eu queria ser o Mercado Livre dos imóveis. Esta empresa foi uma inspiração para mim.

No Brasil, todo mundo é meio técnico da seleção e quer escalar o time dos sonhos. Como você fez para escalar o seu time?

Construir uma boa equipe é provavelmente a parte mais difícil de um negócio, supondo que você já tem uma boa ideia e um bom mercado de atuação. E isso é algo que temos feito muito bem. Quando você está tão apaixonado por algo, como eu estou com o VivaReal.com.br, essa emoção se torna contagiosa e isto é muito importante para a equipe. Criar um ambiente de trabalho incrível onde as pessoas têm a oportunidade de contribuir para a visão do negócio é fundamental.

Além disso, é importante capacitar a equipe e estimulá-la a compartilhar suas ideias, resultados e sucessos. Ainda hoje e provavelmente ainda por muito tempo eu considero o recrutamento um dos meus mais importantes trabalhos. Estou sempre à procura de pessoas inteligentes e apaixonadas para nos ajudar a construir uma empresa líder na internet. Neste vídeo, você pode acompanhar nosso depoimento sobre isso.

Você gasta quanto do seu tempo com vendas?

Eu passo muito do meu tempo com vendas. Todo homem de negócios trabalha com vendas e, na verdade, você precisa ser capaz de vender a si mesmo, afinal você está constantemente vendendo uma ideia a investidores, parceiros e novos colaboradores. Eu gostaria de trabalhar “one-on-one” com cada cliente. Semana passada eu decidi dedicar algumas horas em reuniões com nossos clientes para entender como está a experiência deles conosco. O contato com o cliente é extremamente importante.

Eu assisti a um vídeo de um de nossos investidores, Greg Waldorf, ex-CEO da eHarmony, onde ele faz uma apresentação na Universidade de Stanford para estudantes de Negócios. Ele recomenda que os estudantes saiam da universidade e trabalhem por alguns anos em um job na área comercial. Isto é algo até estranho para a maioria das pessoas, já que muitos pensam que pelo fato de estarem cursando uma Universidade de Negócios não precisem trabalhar em vendas.

Prefere bootstrap ou empreender com o dinheiro de sócios?

VivaReal foi bootstrap por vários anos. Nos primeiros 9 meses eu não recebi nenhum salário e durante os dois primeiros anos, eu recebi US$ 400 por mês. Eu acho que a experiência de não ter dinheiro é muito importante para os empresários. Ela ensina você a ter jogo de cintura. Quando eu cheguei ao Brasil, eu dormi no sofá da sala de meus cofundadores. Eu sempre digo aos novos profissionais que começam no VivaReal que minha primeira mesa foram duas caixas de PC e um pedaço de vidro que alguém tinha jogado no lixo.

Você aprende a buscar novos recursos quando você não tem outras opções. Se eu tivesse começado o VivaReal com uma grande quantidade de dinheiro, acho que teria sido um desperdício. Finalmente, chegamos a um estágio onde ficou claro que precisávamos de mais dinheiro, pois a oportunidade era muito grande. Quando estávamos prontos, os investidores vieram e foi uma das melhores coisas que fiz. Hoje eu tenho um pequeno pedaço de um bolo maior, mas o valor total do que eu tenho hoje é muito maior se não tivéssemos recebido o investimento. Além disso, o mais importante, é o quanto o VivaReal traz de benefícios para a vida das pessoas, tanto para seus usuários, equipe e clientes. Isso me dá uma grande satisfação.

Você venderia sua empresa e se desligaria dela? Como isso aconteceria?

Eu duvido que venderia o VivaReal hoje. Algo extraordinário teria que acontecer. Mas se alguém deixar cair pelo escritório um cheque de algumas centenas de milhões de dólares, eu definitivamente consideraria esta possibilidade. No entanto, eu acho que ficaria entediado muito rapidamente. Eu amo o que faço.

Para onde o mercado brasileiro vai? E as startups vão junto, vão na frente ou vão atrás?

Estou muito otimista com o mercado brasileiro. As coisas deram uma acalmada, mas eu não acredito no curto prazo. Eu acredito que o Brasil é um ótimo lugar para estar e acho que em 2013 e 2014 provavelmente será um pouco mais difícil para startups arrecadarem dinheiro de investidores, mas também não vai ser tão difícil como na época em que eu tentei levantar investimento em 2007/2008. Startups têm uma oportunidade incrível para os próximos anos no Brasil. Há muita coisa para fazer e as pessoas que pensam a longo prazo vão se dar bem.

Você se sente realizado? já conquistou o sucesso? Sua noção de sucesso alterou conforme a trajetória da startup?

Eu tenho uma expressão que eu sempre digo no VivaReal: “estou contente, mas não chega nem perto de estar satisfeito”. Eu acho que temos conseguido um certo grau de sucesso, mas sinto que estamos apenas começando. Minha ideia de sucesso não necessariamente mudou, mas nosso progresso permitiu-me melhorar minha visão sobre o que o sucesso realmente é – construir uma grande e sustentável empresa traz um impacto positivo para a vida das pessoas e as ajuda a encontrar imóveis pelo Brasil.

Quais startups te deixam mais feliz como cliente?

Eu amo startups que resolvem os problemas que eu tenho. Empresas como Dropbox criam produtos simples que tornam a vida das pessoas mais fácil ou melhoram de alguma forma. Fico feliz quando tenho uma experiência incrível, onde eu posso ver que alguém realmente se importa comigo. Quando Diego Simon e eu começamos o VivaReal no Brasil, nós lemos um livro de Tony Heish, chamado “Delivering Happiness”. A primeira pessoa que contratamos também leu o livro. Temos feito um bom trabalho de fornecer uma grande experiência para nossos clientes, mas lembrando nossas raízes, nós recentemente lançamos uma iniciativa chamada “Fale com a Diretoria”, pela qual qualquer cliente pode nos enviar uma mensagem e nos dizer sobre sua experiência. Ela teve um impacto incrível e até um case em que um cliente compartilhou em detalhes alguns problemas que tivemos. Nossa equipe foi capaz de resolvê-los e eu pude ver quão feliz estava este cliente.

Se você fosse se tornar sócio investidor de uma startup, qual ou quais seriam elas?

Em algum momento eu gostaria de começar a ser um investidor-anjo em diferentes empresas no Brasil. Não há nenhum projeto específico que eu queira fazer parte, mas a coisa mais importante que eu iria olhar seria a equipe.

Quais dicas você daria para quem está pensando em empreender uma startup?

  • Não deixe ninguém lhe dizer que você não pode fazer algo
  • Cerque-se de pessoas que são mais inteligentes do que você
  • Encontre bons mentores
  • Se você ama o que faz, você nunca terá que trabalhar mais um dia de sua vida
  • Se você está lançando uma startup porque você acha que pode fazer dinheiro rápido e fácil, você provavelmente será surpreendido por uma realidade diferente
  • Não dê ouvidos as suas dúvidas sobre se você pode ou não pode fazer algo

 

LEIA AS OUTRAS EDIÇÕES DO PING PONG