Artigo escrito por Gary Whitehill (fundador da Entrepreneur Week,  Relentless Foundation e membro do Conselho da AOL) para publicação no Startupi/iG Startups.

 

Há um traço dos empreendedores que as pessoas amam e odeiam ao mesmo tempo – o seu otimismo.

Vamos encará-lo: saltar da segurança para o desconhecido tem de ser suportado por uma dose saudável de otimismo. Se esse não fosse o caso, a maioria das pessoas não o faria, pois não? Ninguém começaria um negócio se não tivesse completamente a certeza, no fundo do seu interior, que iria ser bem sucedido.

Contudo, se quer construir um plano estratégico, aderir a um financiamento através de um ‘investidor-anjo’ ou de capital de risco, e enfrentar os primeiros anos duros, é necessário que tempere o seu entusiasmo com uma dose saudável de realidade.

A armadilha do “melhor cenário”

A minha irmã é alguém que adora fazer listas. Ela estima todos os seus rendimentos para um mês e para o ano inteiro, e calcula o montante que espera ganhar. O problema é que no seu modelo ‘perfeito’ ela baseia-se na hipótese de que vai trabalhar com o número máximo de clientes desde segunda a sexta, durante todo o mês – o “melhor cenário”. Depois ela comete ainda um erro maior – um que muitos empreendedores cometem também – ao basear os seus fluxos de caixa nas suas projeções.

É claro, quando a vida e o negócio penetram na realidade, o modelo ‘perfeito’ que ela criou torna-se crescentemente impreciso, deixando-a desapontada, frustrada e stressada.

É um erro que muitos empreendedores cometem. Eles baseiam todas as suas projeções nos melhores cenários possíveis, não tomando em consideração todas as dificuldades do dia-a-dia que tornam um modelo ‘perfeito’ num objetivo impossível de atingir.

Ser demasiadamente otimista afasta os financiadores

É óbvio, não é apenas o seu fluxo de caixa e planeamento que são postos em risco quando é demasiado otimista – também pode afugentar potenciais financiadores.

Enquanto empreendedor, já sabe provavelmente que se está a tentar atrair investidores, quer seja capital de risco ou investidores-anjo, terá de elaborar um plano de negócio e uma apresentação. Sobrestimar receitas e subestimar custos é muito provavelmente uma das razões para potenciais investidores não o levarem a sério.

Confrontado com um plano de negócio repleto de números demasiadamente otimistas, potenciais investidores poderão pensar que na melhor das hipóteses é ingénuo, e isso não é uma característica que um investidor queira ver num empreendedor que está a considerar financiar.

Aprenda a temperar o seu entusiasmo

Você sabe que a sua mais recente invenção, invento XYZ, vai ser a melhor coisa desde o pão fatiado? Está convencido do seu espírito empreendedor combativo, e de que o seu negócio vai crescer e atingir o equilíbrio num tempo recorde?

Ambas são atitudes importantes a manter – vai precisar desse entusiasmo enquanto cria o seu negócio.

Contudo, ao invés de basear os seus cálculos, projeções e planos assumindo que tudo vai correr bem 100% das vezes, porque não considerar apenas 50%? Dessa forma, é mais provável que planeje melhor, gaste menos, e atinja os seus objetivos: é inclusive capaz de os superar. O que pode ser mais motivante que exceder os seus objetivos?

O empreendedor inteligente vive de acordo com o velho mantra: espere pelo melhor, planeje o pior. Seja modesto e realista – muito provavelmente irá atingir e exceder os seus objetivos. Ambicione demais – e é provável que fique aquém.

Uma última palavra sobre realidade – Você não sabe metade do que pensa que sabe

Projeções financeiras irrealistas são uma deficiência num plano de negócios de um empreendedor. Outro aspeto que é exponencialmente mais negativo para o negócio, quer no curto quer no longo prazos – acreditar que sabe tudo.

Você pode perceber todos os aspectos associados ao negócio que pretende criar – o que de fato deve acontecer, em primeiro lugar. Mas mesmo que tenha trabalhado na área durante décadas, você nunca tentou gerir uma empresa ao mesmo tempo, certo?

O ‘negócio’ de gerir um negócio (e ter sucesso como empreendedor) depende de muito mais do que ser um perito numa determinada área. Você terá de aprender novas capacidades, adquirir conhecimento e enfrentar situações com as quais nunca imaginou – tudo sem a rede de segurança que outrora teve no seio de uma empresa. Ter-se-á de empenhar no processo de vendas, planejar as suas finanças e manter debaixo de olho todos os pormenores do seu negócio à medida que este cresce – inquestionavelmente uma curva de aprendizagem inclinada.

Quer seja um novo ou antigo proprietário, a abordagem humilde será a de perceber que você não sabe tudo. Na realidade, aceitar o fato de que há sempre uma oportunidade para aprender é uma muito melhor ideia. Aceite conselhos dos empreendedores que já gerem negócios com sucesso há anos.

Ouça quando potenciais investidores rejeitam as suas ideias – há sempre lições valiosas a retirar dessa crítica. Tome atenção quando os clientes se queixam – eles são a espinha dorsal do seu negócio.

Não tendo de renunciar à paixão e ao entusiasmo pelo seu negócio, você deve entender que apesar de ser um mundo excitante, o empreendedorismo é também muito exigente – se o não fosse, toda a gente entraria nele. Ser realista e manter os pés no chão vai ajudá-lo a lidar com o dia-a-dia e permitir aceitar sem grande dificuldade qualquer potencial deceção.

Uma vez que tenha aprendido a ser realista e a aceitar sem grandes preocupações pequenos e grandes desafios, você é capaz de atingir aqueles objetivos elevados e sonhos distantes no final das contas. Mesmo que não consiga, será mais do que provável ser bem sucedido em virtude da sua visão realista.

 

Imagem: bredmaker (SXC)