Conversei com Antônio Valério, doutor em computação, coordenador de inovação do Núcleo de São Carlos do CIESP e empreendedor que vem conquistando o mercado – desde universidades até bifês infantis, incluindo a Campus Party e a Copa do Mundo da África – com produtos mecatrônicos feitos em São Carlos, no interior paulista.

Conheça a trajetória da startup Cientistas, com sua spin-off Xbot, e entenda por que a região e o modelo institucional de subvenção ao desenvolvimento tecnológico não se torna paixão nacional.

Já ouvi dizer que São Carlos é a Capital da Tecnologia. Li na Wikipedia que a cidade é baseada em atividades industriais (Volkswagen, Faber-Castell, Electrolux e Husqvarna) e agropecuária (incluindo a excelência nacional Embrapa). Mas ainda não tinha conversado (ao menos, não lembro) com um empreendedor típico daquele ecossistema, entendedor de como as coisas funcionam por lá e bem-sucedido. E foi com esse assunto que comecei a conversar com Antônio.

Primeiro, veio o capital intelectual como resposta. “Aqui temos várias universidades, como UFScar e USP, vários laboratórios. Dos quase 230 mil habitantes, 45 mil pessoas estão ligadas ao mundo acadêmico”, contextualizou Antônio. A cidade chega a ser chamada de “Atenas Paulista”, devido a um aclamado polo tecnológico, educacional e científico. Ok, mas, cadê a tecnologia no desenvolvimento econômico da cidade que tem o maior número de habitantes do interior paulista?

Ele segue firme: “temos aqui grande capacidade técnica e de conhecimentos, pessoas ligadas a mecatrônica e sistemas inteligentes, e há uns 15 ou 20 anos o pessoal começou a abrir empresas. Uma delas tem bastante sucesso, mas já tem 30 anos de atuação e acabou se instalando em São Paulo. As demais são pequenas, faturam até R$ 3 milhões por ano”. Isso explica o destaque da tecnologia na economia local, mas não o destaque da região no cenário tecnológico.

Qual parte da história está faltando? Isso faz de São Carlos a Capital da Tecnologia? Afinal, não estou duvidando, apenas tentando entender. “Aqui, no geral, ainda não somos tão bons na parte de produtos e comercial”, informa Antônio. Aha! Então, falta a parte em que tanto conhecimento e equipamento ganham forma de produto, pois produto é o que as pessoas conseguem usar, e produto é o que as pessoas conseguem comprar. A Cientistas conseguiu isso, inclusive com a Xbots, mas de uma forma demorada e que o atual sistema de fomento e financiamento de pesquisa tecnológica não consegue ajudar direito – esta conclusão é tanto minha quanto do doutor empreendedor.

O dinheiro que o governo disponibiliza para pesquisa e desenvolvimento pode até ser bom, mas é parcial. “Precisamos contemplar uma série de requisitos com relação à disponibilidade e qualidade dos envolvidos, mas não podemos usar o dinheiro para pagar uma série de coisas que são necessárias a uma empresa. Então, temos de abrir mão de uma dedicação completa para buscar outras formas de receita, trabalhando com outras coisas”, lamenta meu articulado entrevistado. Na verdade, há coisas difíceis mesmo de se ajudar, a responsabilidade sempre é do empreendedor mesmo, mas dá pra contar com as coisas que acontecem ao redor.

Hans Donner e Valéria Monteiro jogaram Robogol (e parece que gostaram) durante a Copa do Mundo na África

Ajudar em produto e na parte comercial? Parece uma missão que investidores e anjos de negócio geralmente abraçam. Opa, mas que investidores e anjos atuam em São Carlos? “Somos servidos pelo pessoal do Criatec, de Campinas. Tinha outro fundo aqui, que já fechou. E não sei se conta, à s vezes alguns professores acabam formando empresas junto com alunos”, revela Antônio. É, conta, mas sem que as invenções, puras e aplicadas, inclusive como inovação, não forem adotadas pelo mercado, a região ainda tem um grande potencial – de agregar valor. Mas não tem outro jeito de fazer isso, mesmo sem investidores?

O que banca toda a operação da Cientistas, fundada em 2003 e incubada na CINET da Fundação Parqtec até 2007, é a venda de sistemas para o setor de energia e de utilities. “Nosso foco é em sistemas interativos para treinamento. Nosso último produto é o TIS“, expressa Antônio, referindo-se a um sistema simulador para treinamento de policiais – veja no vídeo abaixo.

Já a Xbot, primeira empresa latina a fazer robôs para educação, contou com investidor anjo em 2007 e já vendeu em 3 anos mais de 150 robôs, em seus vários modelos (que variam de 10 a 35 mil reais), e conta com 12 pessoas trabalhando com CLT. “Inclusive temos certificado de exclusividade expedido pela ABIMAQ, que garante que somos os únicos fabricantes brasileiros de robôs para o mercado de educação”, acrescenta. Os compradores incluem desde universidades e pesquisadores, que daí não precisam mais construir os robôs do zero para desenvolver em cima, até bares e bufês infantis que compram o Robogol para entreter o público. “Já teve vezes em que não puderam comprar, então alugamos. Cada negócio é único”, revela.

Enquanto segue firme realizando seu sonho de vender robôs para educação e entretenimento, bem como simuladores de treinamento, Antônio espera também conseguir ver São Carlos tornar-se um polo de negócios, tanto quanto de conhecimento e tecnologia. Além disso, ele é tão entusiasta de empreendedorismo e projetos inovadores que chegou a escrever dois livros: Gestão de Pequenas e Médias Empresas de Base Tecnológica e Estratégias Competitivas para Pequenas e Médias Empresas de Tecnologia