Resolvi escrever esse artigo para contar um pouco da trajetória do Bondfaro, desde sua fundação até a venda, com os altos e baixos usuais das startups.

Meu nome é Gustavo Guida Reis e fui cofundador e Diretor de Produto do Bondfaro, ex-acionista e VP de Produto do BuscaPé. Atualmente estou no Help Saúde, empresa que fundei em 2009 e sou CEO.

Empreendo desde 1999, ainda na (primeira?) bolha da internet. Depois de menos de seis meses de carteira assinada, no meu primeiro emprego após me formar, comecei a ficar inquieto com as oportunidades neste novo setor. Eram várias capas de revistas, no Brasil e no exterior, retratando empreendedores da minha idade tocando empresas cujos valores de mercado superaram por vezes centenas de milhões de dólares. Sou economista e refletia sobre a racionalidade por trás desses empreendimentos, mas, não obstante, sabia que existiam oportunidades reais para se gerar e capturar valor com a internet.

Como eu, havia várias pessoas ao meu redor interessados em empreender. Em alguns encontros, fechamos um grupo de cinco integrantes. Um time com viés um tanto de negócios – quatro advindos do setor bancário, incluindo eu – e apenas um de TI. Mais tarde, tivemos que mudar isso e equilibrar um pouco mais nossas capacidades. Num momento dos mais desgastantes, tivemos que nos despedir de um futuro-sócio e, posteriormente chamar mais um para ajudar no desenvolvimento.

No meio disso tudo, dentre diversas possibilidades, optamos por criarmos um pure player – que não demandaria grandes investimentos (ex: logística). Uma observação importante: em 1999 não havia cloud e o custo de hosting era tão elevado que a maioria das startups comprava seus servidores e os colocava em datacenters ou os hospedava em seus próprios escritórios. De fato, gastamos 300 mil dólares do nosso funding inicial em servidores Sun e inicialmente tínhamos um rack no nosso escritório com um link dedicado para servirmos o site.

Voltando para onde eu estava: a escolha do que fazer. Analisando as possibilidades, eu como economista estava fascinado em criar algo que resolvesse alguma ineficiência do mercado. Estudei na PUC-Rio, berço do Plano Real. Lá a doutrina liberal prevalece e eu sempre compartilhei a ideia que o governo sempre deve zelar para que o mercado funcione da melhor forma possível, sem se meter muito mas corrigindo as desigualdades. Não ia trabalhar no governo, mas podia, com um site, colaborar! Surgiu a ideia de um site de pesquisa de preços.

Interface em 2006

Interface em 2006

Nossa ideia era criar um site no qual mostrássemos todas as opções de compra, uma verdadeira fotografia do mercado, com a qual o consumidor pudesse estar seguro de realizar sua compra. O preço dos produtos era o principal ativo, mas simplesmente mostrar quais lojas estava comercializando os produtos já era um grande serviço.

Mais uma observação importante: ferramentas de busca não eram populares e o próprio Google tinha acabado de ser criado. Talvez algumas pessoas se lembrem de que nas bancas havia revistas com mapas da internet, com nomes de endereços de sites relevantes!

Já tínhamos um time e já tínhamos uma ideia. Agora faltava dinheiro para iniciarmos! Procuramos pessoas do nosso círculo, afinal três dos fundadores estavam no mercado financeiro, e conseguimos nosso seed capital dos sócios do Banco Fator, que optaram entrar na sociedade como anjos. Começamos a trabalhar, abrimos a empresa, alugamos o escritório, montamos nossa equipe e iniciamos o desenvolvimento do protótipo. Depois de seis meses de trabalho, o site entrou no ar. Então a bolha estourou!

Nosso seed era para colocar o site no ar e planejávamos outra rodada para marketing. Aqueles servidores Sun que falei antes e os demais investimentos que fizemos comeram mais da metade dos um milhão que captamos…

A empresa estava ficando sem caixa e fomos para uma reunião fatídica com nossos investidores. Tínhamos cerca de R$30 mil no banco e isso dava para um pouco mais de um mês de sobrevida. Um dos investidores defendeu que queimássemos nosso caixa em propaganda para tentarmos fazer o site pegar tração. Quem se lembra do site Muitolegal.com que lotou São Paulo com outdoors (quando podia) e promotoras balançando bandeiras na Marginal?

Enfim, a ideia desse sócio era fazer o mesmo, já que o Muitolegal.com conseguiu ser um dos sites mais acessados na época em poucos meses após seu lançamento. Ele propôs que tentássemos e se não desse certo, fechássemos a empresa e cada um seguisse seu caminho. Imaginem como recebemos essa notícia? E tinha 23 anos e muitos planos, não dava para abdicar deles tão precocemente! Decidimos tentar mais com o Bondfaro e bolamos um plano de sobrevivência.

O plano era basicamente um breakeven forçado, como costumo dizer. Cortamos a equipe radicalmente, saímos de um escritório de 160 m² para dividir um de 50m com outra empresa, alguns sócios deixaram de receber salários. Sem a pressão de falta de dinheiro, pudemos finalmente focar em desenvolver o produto. E foi o que fizemos.

Tínhamos o BuscaPé como grande competidor. Ele era grande, capitalizado (9 vezes mais capitalizado que nós) e com um ano a mais de operação. Era em quem mirávamos. O mercado estava crescendo bastante e tinha espaço para ambos.

A empresa cresceu, operávamos com muita eficiência. Um time pequeno e extremamente dedicado. Conquistamos diversos prêmios pela qualidade do nosso site, o que me deixava extremamente recompensado por ser o Diretor de Produto. Em 2005, compramos um concorrente com nosso próprio caixa. No mesmo ano, distribuímos dividendos. Contávamos com cerca de 40 colaboradores, ocupávamos um escritório de 300 m², e possuíamos filiais na Argentina e no México.

Passamos a ser procurados por diversos interessados em investir na empresa, desde concorrentes, lojas virtuais, portais, VCs. Dentre as propostas, optamos por fundir as operações com o BuscaPé. O Bondfaro faturava metade do BuscaPé na época e apostávamos que juntos seriamos mais valiosos que separados.

Tornei-me sócio do BuscaPé e assumi a Vice Presidência de Produto. Trabalhei arduamente na fusão das práticas e dos processos -€“ algo bem complicado dado a enorme diferença entre as culturas das empresas. Afastei-me das operações no inicio de 2007 e permaneci participando do Board, acompanhando a empresa até 2009 quando vendi minha participação para a Naspers, juntamente com os demais fundadores e investidores do Bondfaro.

Espero que a história do Bondfaro sirva para mostrar como é árduo o caminho para o sucesso de um empreendimento. Como bem descreveram, empreender é uma montanha-russa. Apesar das instabilidades, só com muito trabalho e suor é possível alcançar o almejado.

Gustavo Guida Reis é empreendedor desde 1999 quando, com 23 anos, fundou o Bondfaro.com. Em 2005 tornou-se sócio do BuscaPé e em 2009 vendeu sua participação numa das maiores transações do mercado de internet no Brasil. Atualmente é fundador e CEO do Help Saúde e mentor/ advisor de startups.