*Por Gabriela Manzini

Às vezes, é importante dar um passo atrás para saltar mais longe. Especialmente quando esse “mais longe” traz um terreno bastante diferente do que se está acostumado e muito mais inovador.

Essa foi uma das lições aprendidas por nosso grupo da Silicon Valley Digital Mission 2016, durante visita à agência Pereira & O’Dell. Pelo segundo ano consecutivo, a Missão pelo Startupi em parceria com o Digitalks e levou comunicadores, marqueteiros e empreendedores ao Vale do Silício para uma imersão executiva de uma semana.

No terceiro dia de visitas, finalizamos a quarta-feira com uma conversa muito especial, ouvindo como um brasileiro decidiu largar um momento muito importante de sua carreira no Brasil para tentar fazer propaganda no Vale do Silício. “Quando vim pra cá, eu tinha sido convidado para ser presidente do júri de Cannes. Cheguei aqui e o Brasil ganhava mais prêmios que todo mundo, cheguei cheio de moral. Pensei: ‘Vou mostrar pros gringos como se faz’. Me ferrei”, contou PJ Pereira sobre o início da sua carreira, em tom bem-humorado.

PJ contou que aprendeu publicidade literalmente sentando ao lado dos criativos e vendo-os trabalhar. Ele já tinha tido a oportunidade de trabalhar em algumas áreas de agência, inclusive Atendimento, mas dava o seu horário, ele saía por uma porta, entrava pela de serviço e ia ver como os profissionais da Criação trabalhavam. “Se você quer ter uma ambição muito grande, você também tem que ter uma humildade muito grande. Eu sentava do lado do criativo e aprendia.

Mais tarde, depois de ter ganhado prêmio, ter sua própria agência – ele foi um dos fundadores da Agência Click –, ter trabalhado com digital, atendendo empresas como o Ig, Visa e Coca-Cola, ele queria ter a experiência de negociar com os clientes que cuidavam de América Latina, “que cuidavam de mundo”. Ele sentia que, no Brasil, ficava restrito no trabalho com os clientes e, para atingir um patamar maior, teria que se mudar do país. Assim, decidiu ir para os Estados Unidos em um cargo menor para aprender e juntar dinheiro “para se pagar”.

Citando filosofia, PJ explicou que, quando você atinge uma função maior, se faz um bom trabalho, você é visto como apenas fazendo aquilo para o qual foi contratado. No entanto, se ainda tem espaço para se desenvolver, fica mais fácil mostrar o potencial aos superiores e continuar crescendo. “Quando você chega no cargo que queria, você chegou no seu nível de incompetência. Você não é mais respeitado e para de crescer. Se está abaixo, o chefe vê que pode fazer mais e te dá um aumento para não te perder.”

Foi com esse pensamento e com sua humildade que PJ decidiu encarar o desafio de ir aos EUA para se aventurar no mundo da comunicação. Ele contou ao grupo que o início foi difícil: “eles não queriam fazer negócio com brasileiro, queriam fazer negócio com americano”. Uma alternativa foi conhecer alguém que fosse bem relacionado e que pudesse ajudá-lo em sua entrada no mercado. Andrew O’Dell, com seu background de Digital, hoje CEO da Pereira O’Dell, ajudou PJ a fundar a sua atual agência. PJ é hoje COO da empresa, liderando a parte operacional da companhia.

No entanto, nove anos atrás, quando fundaram a Pereira & O’Dell juntos, ainda existia “uma arrogância sem limites” quando o assunto era fazer comunicação digital. “As agências que faziam digital eram fundadas por alguém que também fazia TV. [Pensamos que,] se tinha espaço para [agência] híbrida, se eles falavam que faziam internet sem fazer um ‘catzo’, a gente podia fazer televisão também”, comentou PJ. Assim, a agência começou a fazer TV com internet, uma propaganda integrada.

“Só que eu descobri que não era isso. A maior habilidade que havia desenvolvido era saber criar e manter minha própria audiência. Aí a gente descobriu que o A + B, o digital mais a TV não era A + B. Era C! Era Conteúdo. Dois anos depois, a gente ganhou um Emy.”

De um Emy para cá, as coisas mudaram. A evolução continuou e essa é hoje a parede de troféus da Pereira & O’Dell – Foto: Gabriela Manzini

O Mindset do Vale do Silício

PJ Pereira confessou ao grupo que o que fez diferença nesse caminho todo até o ponto em que se encontra profissionalmente na região de Bay Area foi aprender a pedir ajuda para as pessoas certas.”Uma coisa que aprendi com os americanos é que não existe presente. É tudo uma troca. Para você trazer a pessoa que você quer trazer, você precisa oferecer alguma coisa que elas querem. Para ser um de nós, você tem que dar antes. Tem que vir, tem que contribuir.”

Ele contou também que a mentalidade do Vale é propícia para estrangeiros que vão para lá com foco em ajudar e resolver problemas. “Você contribuindo vai ter respeito. Você tendo respeito, alguém vai te dar emprego”, explicou.

Hoje, a agência possui dois escritórios: um em São Francisco e outro em Nova Iorque. Eles chegaram a ter uma filial no Brasil, mas decidiram fechar. PJ conta que a empresa trabalha hoje com conteúdo e narrativas, e que seus competidores são empresas de entretenimento. Sobre o posicionamento da marca Pereira & O’Dell perante o mercado, PJ conta que o propósito é simples e atual: “se a propaganda tivesse sido inventada hoje, como a gente faria?

*Gabriela Manzini é jornalista, trabalha com comunicação há oito anos e é especialista em Comunicação Corporativa. Atua hoje com comunicação estratégica, marketing digital e marketing de conteúdo. Em suas passagens por agências de comunicação e marketing, atendeu clientes como Microsoft, Philco, Wacom Brasil, Toshiba Brasil, Citibank, Credicard Hall, Omron, Internacional Shopping Guarulhos, e os cantores Fábio Jr. e Paula Lima. Na área corporativa, trabalhou no departamento de marketing da Shoestock e é a atual gerente de Conteúdo do Digitalks.