* Por José Ricardo de Bastos Martins

Num recente comunicado aos seus acionistas, a Uber anunciou que seus prejuízos continuam a disparar, sendo que, no primeiro semestre de 2016, atingiram a espantosa soma de US$1,2 bilhão. Apesar desse cenário, a Uber informou que pretende continuar investindo em estratégias para expandir sua participação no mercado.

Essa situação tem gerado diversos questionamentos sobre a viabilidade do seu modelo de negócio. Para arriscarmos uma resposta a essa pergunta, é preciso tratar de uma diferença conceitual que, por vezes, não é devidamente explorada por aqueles que se aventuram a investir em startups: a diferença entre perder dinheiro e investir.

É fundamental que todos aqueles de alguma forma relacionados ao ecossistema do empreendedorismo se apropriem desses conceitos tão diferentes, a fim de que grandes projetos não deixem de vingar por conta dessa confusão.

Voltando à Uber, precisamos levar em consideração que a sua proposta é oferecer para seus clientes um modo totalmente novo de se locomover. E isso tem um custo enorme, pois, além dos custos operacionais, há a necessidade de convencer o mercado sobre a viabilidade daquele novo modelo. E, no caso da Uber, o esforço parece estar valendo a pena, a medida em que ouvimos falar mais e mais a cada dia que uma certa empresa quer ser “a Uber” do seu mercado.

Por outro lado, a Uber parece estar deixando a economia de compartilhamento para trás para ser tornar uma das grandes catalisadoras mundiais da economia sob demanda. A forma pela qual vem condicionando seus clientes a conseguirem o que desejam, quando desejam, usando um smartphone e um aplicativo, é, sem dúvida, a maior razão para acreditarmos no seu sucesso.

Isso é muito mais poderoso do que qualquer economia de compartilhamento. A Uber está mudando as expectativas e comportamentos do consumidor como resultado de algo que vai muito além do transporte.

É óbvio que uma conquista como essa não se faz sem percalços e quebras de paradigmas, o que requer muito investimento.

É preciso investir enormes quantias de dinheiro em subsídios para acelerar um processo de mudança e crescimento de mercado. Se, por um lado, prejuízos no valor de US$1.2 bilhão são pesados, o impacto da empresa ao longo do tempo exige uma discussão e análise de um tipo diferente de valor, diante da inovação e da disrupção que ela pretende – e está efetivamente criando – no mercado.

Assim, é fundamental que aprofundemos a discussão sobre investimentos versus prejuízos, principalmente num momento em que grande parte dos negócios em fase de desenvolvimento buscam efetivamente a criação de novos modelos de negócios, pois investidores inseridos nesse contexto precisam compreender que estão diante de uma nova realidade que poderá trazer resultados expressivos, mas que também demandará um período de maturação e investimento maiores do que aqueles observados em negócios tradicionais.

Nesse sentido, necessário aplaudir as iniciativas que começam a brotar em nosso país, com objetivo de trazer mais informação e preparo para aqueles que pretendem investir em empresas com modelos de negócios inovadores, a fim de que compreendam as peculiaridades desses negócios, o que deverá contribuir para reduzir a alta de taxa de frustração que hoje ainda se observa no relacionamento entre investidores-anjo e startups, principalmente aquelas voltadas à inovação.


José Ricardo José Ricardo de Bastos Martins é advogado, sócio coordenador da área de M&A do Peixoto & Cury Advogados e presidente do Comitê de Empreendedorismo da ABRADi.