* Por Elber Mazaro

Dando seguimento aos artigos que se baseiam na minha pesquisa para o mestrado em empreendedorismo (FEA/USP), quero abordar o tema de transições profissionais. No estudo que estou desenvolvendo, o foco está em como um executivo pode se transformar em um empreendedor, mas as ideias básicas para a transição se aplicam a maioria das funções e mudanças que encaramos na vida pessoal e profissional.

Também aproveito aqui a experiência como mentor profissional, onde ajudo pessoas e empresas em transições que podem ser de carreira ou de rumo/modelo de negócios.

A teoria que ancora a minha dissertação aborda a transição de identidades profissionais ou de carreira, a qual é resultado da pesquisa de Hermínia Ibarra, que publicou o livro “Identidade de Carreira – A experiência é a chave para reinventá-la”. Este livro foi uma recomendação do colega Sandro Magaldi, quando nos encontramos após minha decisão de largar a vida executiva e ainda estava em busca de novos caminhos e opções. Ele exerceu uma influência muito grande na minha transição profissional e por isto sou muito grato ao Sandro e, sempre que possível, recomendo a leitura a quem busca novos rumos na carreira.

A principal ideia do livro, que se baseia no estudo de muitos casos, ou seja, de pessoas que passaram por transições profissionais e pessoais, reside em abandonarmos a velha identidade profissional e através de experiências e experimentações, construirmos algumas identidades alternativas enquanto estamos em transição e com o aprendizado e o tempo, evoluitmos para um nova identidade profissional. Resumindo: é um processo que se baseia na ação para se explorar novas possibilidades e a partir dos nossos sentimentos e aprendizados, moldarmos uma nova identidade profissional que nos faça mais feliz.

O ponto de partida para uma transição deve ser o entendimento da posição atual, de quem somos, do que estamos sentindo e o porquê. Tudo começa com o autoconhecimento que nos permite compreender qual a nossa atual identidade e o que está nos incomodando, nos fazendo infeliz e nutrindo o desejo por mudança. Qual a nossa motivação para a mudança?

O segundo passo na transição é identificarmos para onde desejamos ir, ou quais são os nossos sonhos, para definirmos objetivos e metas de curto e longo prazos. Aqui não estamos necessariamente argumentando que este ponto seja preciso, mas que a partir do entendimento sobre os nossos pontos fortes, do que gostamos de fazer e no que somos bom, podemos buscar alternativas no mercado e no mundo para investigarmos e experimentarmos caminhos e possíveis identidades. Usamos o autoconhecimento para afunilarmos as muitas opções de posições finais da nossa transição.

Quando um executivo decide que deseja ser independente, trabalhar por conta própria e ser dono do próprio nariz, e articula isto como desejo de transição para empreendedor, eu sempre argumento se ele realmente sabe o que é um empreendedor, como é a vida da maioria das pessoas que escolheram este caminho, se entende as diferenças de perfil e comportamento em comparação a identidade profissional de um executivo (veja artigos anteriores); antes de promover qualquer experiência.

Também ouço de profissionais na mentoria, que buscam sucesso e/ou dinheiro. Estas são buscas superficiais e que precisam ser melhor definidas e especificadas, principalmente em quais condições e com uma visão realistas “pé no chão”, para que a transição tenha chances de realmente acontecer de acordo com as expectativas. O ponto de chegada precisa ser validado, costumo pedir para as pessoas visualizarem um momento no futuro em que estejam vivendo a sua nova identidade “idealizada”.

Após saber onde se está, o que representa todas as dimensões da sua identidade atual/real e para onde se deseja ir, que é qual será a sua identidade ideal após a transição, o próximo passo é o desenvolvimento de um plano de ações para viabilizar a experimentação, o aprendizado, os primeiros passos e os testes dos caminhos/opções que podem levar a definição da nova identidade de carreira.

O plano de ações deve incluir a expansão da rede de contatos e influência (o capital social) para suportar a transição, considerando-se a identidade desejada. Também o desenvolvimento de competências que chamo de aumento do repertório (capital intelectual), além de frequentar novos ambientes e eventos de acordo com os objetivos e as características da nova identidade. Então no exemplo de se tornar empreendedor, é importante estar com outros empreendedores, com investidores, com mentores e ter consciência de quais são as competências complementares que serão necessárias para o desenvolvimento próprio e de negócio, vale lembrar que podem até ser adquiridas com sócios.

Outro elemento do plano de ações é o entendimento das necessidades financeiras (capital financeiro) de cada identidade profissional e de como deve ser o seu posicionamento durante a transição (marketing pessoal). Abordarei o processo de Planejamento Estratégico Pessoal como uma alternativa para estruturação e detalhamento do plano de transição, em artigos futuros, uma vez que este é o terceiro pilar de minha pesquisa (lembrando o primeiro é o entendimento do perfil do empreendedor e o segundo é este tema de como fazer a transição efetivamente).

O profissional pode percorrer alguns caminhos em paralelo, como seguir empregado e ao mesmo tempo experimentar atividades empreendedoras. Pode-se explorar mais de uma identidade ao mesmo tempo, e mesmo que se decida mudar e se inicie o processo, também demora um tempo para “se livrar” dos hábitos, rotinas e pensamentos da identidade antiga. A transição pode demorar anos.

O mais importante é termos a mente aberta para aprendermos com as experiências, para nos conhecermos cada vez mais, buscarmos e recebermos feedback, reconhecermos erros (fracassos), entendermos o ambiente e “as regras do jogo”, demonstramos otimismo e gratidão, e assim com foco em uma jornada evolutiva, equilibrada e prazerosa, conseguirmos realizar qualquer transição sonhada.


Elber Mazaro - Espaço do ExecutivoElber Mazaro é cofundador do Descomplicando Carreiras. Assessor, consultor e professor em Estratégia, Marketing e Carreiras. Mestrando em Empreendedorismo na USP, com pós-graduação em Marketing e bacharelado em Ciências da Computação. Possui mais de 25 anos de atuação mercado de tecnologia e liderança de negócio, marketing, vendas, serviços e área técnica.