* Por Fernanda Nascimento

No último final de semana tivemos o bootcamp, final do primeiro ciclo de aceleração do InovAtiva Brasil em 2016, um evento intenso em mentorias, pitches e muitas novas ideias. Mais de 150 startups se reuniram com uma legião de mentores e jurados na apresentação de suas ideias de negócio. Bem organizado, com profissionais e conteúdo excelentes.

Estar em evento de startup é um exercício de tremenda riqueza para os apaixonados por empreendedorismo, qualquer que seja o seu papel. Não só pela beleza de conhecer novos conceitos e propostas, mas para entender o quanto é possível ser criativo e usar a informação a favor da inovação e também perceber onde empreendedores que estão iniciando suas empresas podem falhar.

Segundo um estudo feito pela Startup Farm, 18,06% das startups fecham nos dois primeiros anos de funcionamento, enquanto 66,67% duram de dois a cinco anos e 73,68% encerram as atividades após 5 anos. Embora em diferentes fases de evolução os problemas não sejam os mesmos, há algumas armadilhas a se evitar quando seu MVP ou protótipo ainda está sendo validado. Três delas sempre “pulam” na minha frente nas sessões de mentoria.

Você deve ter um negócio, não um produto

Não é difícil que como mentor de startup, nos deparemos com empreendedores apaixonados pela solução tecnológica que criou. Pode ser uma plataforma, um aplicativo, um produto químico. Certamente esse empreendedor investiu horas prolongadas trabalhando no projeto, usou suas próprias economias como investimento, deixou seus momentos de lazer e descanso para priorizar o desenvolvimento de sua ideia. Mas sua paixão não pode cegá-lo a ponto de não modificar o projeto ou a estratégia por não considerar a possibilidade de recomeçar ou abrir mão do que já foi criado.

Muitas vezes, no meio do caminho, descobrimos que a solução – produto ou serviço – que imaginávamos ideal não é tão perfeita assim. Também não é difícil, num ambiente em que a tecnologia muda hábitos radicalmente em uma questão de dias e que o consumidor pode adotar novos modelos tão rapidamente, que a necessidade de revisão de nossos conceitos seja constante.

Por isso, temos que entender muito bem qual problema resolvemos para o nosso consumidor. O grande valor está em solucionar esse problema enquanto ele for real, não importa se através de site ou aplicativo, de um produto que se compra ou se aluga: insista em validar o que é melhor para o seu cliente, mesmo que isso possa doer.

A viabilidade econômica precisa ser clara

Meu coração bate mais forte quando vejo uma projeção de crescimento em números em uma apresentação. Primeiro porque ela tangibiliza ou não o negócio, mostra a concretude do plano. Também, porque ela nos faz entender as expectativas que podemos ter com os resultados. Por fim, porque nem sempre vemos essas projeções em pitches de startups, o que automaticamente gera vantagem para o empreendedor que o faz.

Uma estimativa de faturamento e de ganho de mercado, de 3 a 5 anos, nos leva a compreender o que é provável ou não nos números coletados, nas chances de sucesso, de retorno sobre o investimento e de necessidade de capital para dedicação ao negócio até que ele supere o ponto de equilíbrio. E aproveitando esse tópico, precisaremos estimar que se vamos ganhar mercado, com quem vamos competir e como vou me organizar para atingir as metas durante esse período.

Seu mercado não é controlável, embora pareça

Para esse item, há três fatores de destaque. O primeiro é que a monetização – ou como se vai ganhar dinheiro com o novo empreendimento – não é tão homogênea. Venda de big data, patrocínio, publicidade são frequentemente apontados como a principal forma de rentabilizar o negócio. Adianto aos entusiastas desses modelos: a concorrência é muito grande, pois a oferta é abundante e a verba de publicidade está cada vez mais curta. Além disso, é muito difícil gerar resultados para o anunciante, que é o principal entregável da publicidade.

O segundo é que as barreiras tecnológicas são cada vez menores e uma cópia rápida da sua solução, se ela não for patenteada, pode ser colocada no mercado com aprimoramento. Para isso você deve ter um excelente roadmap, prevendo a evolução do seu produto e um passo a passo, considerando prazos, para atingir as novas etapas.

Para terminar, o amplo conhecimento do mercado pelos empreendedores é facilmente desmistificado por jurados e investidores, onde normalmente revelam um concorrente desconhecido que já deu certo, que já recebeu investimento, é acelerado e faz o sonho de quem faz o pitch virar uma cópia com menos chances de sucesso. Uma investigação profunda e detalhada do cenário é necessária para evitar decepções futuras.

Criar um novo negócio dá um trabalhão e exige muito estudo, esforço e determinação. As variáveis são muitas, o mercado é agressivo e fórmulas mágicas definitivamente não existem. Mas o caminho é delicioso e recompensador, além de juntar entusiastas muito interessantes, pessoas com visões e experiências fantásticas e que agregam valor à caminhada. Prepare-se, tentando antecipar ao máximo os imprevistos. E curta a jornada, porque é ela que vai agregar valor à sua história empreendedora.


fernanda Fernanda Nascimento tem mais de 21 anos de experiência em marketing estratégico. É especialista em marketing digital e branding. Diretora de Desenvolvimento de Negócios da Rede Mulher Empreendedora, sócia da Stratlab, consultoria para PMEs na área de Desenvolvimento de Negócios e Planejamento Estratégico.