* Por Dagoberto Hajjar

O setor de TI teve o pior trimestre de vendas desde 1999. A constatação vem da pesquisa que a Advance faz trimestralmente para identificar a percepção dos empresários de TI com o momento de mercado.

O que mais chama a atenção no resultado é a grande mudança de humor que aconteceu da pesquisa feita em Abril para esta pesquisa feita em Julho – fomos do mel ao fel.

A pesquisa de Abril foi feita dias depois da aprovação de continuidade do processo de impeachment na Câmara. O clima era de grande otimismo por parte dos empresários de TI. Eles achavam que haveria oportunidade e tempo para que o mercado de TI desse um salto ainda em 2016 atingindo 5.2% de crescimento comparado com 2015.

Os clientes estavam desengavetando as propostas e pedindo que as empresas de TI as atualizassem visando uma provável retomada da negociação. Mais de 50% das empresas de TI estavam planejando aumentar o quadro de colaboradores e os investimentos em marketing e vendas, e 64% das empresas estavam planejando buscar novos clientes, com expansão geográfica ou estabelecendo canais de vendas e distribuição. Puro mel!

A pesquisa de Julho mostrou um crescimento de apenas 2.7% no trimestre Abr-Jun comparado com o mesmo período de 2015. Os empresários demonstraram grande ceticismo com a evolução da economia, projetando para o mercado de TI, em 2016, um crescimento de 3.1%, sem contar a inflação. Aparentemente os clientes voltaram a engavetar as propostas.

Pela primeira vez, desde Janeiro de 2014, o percentual de empresas de TI reduzindo o quadro de colaboradores e investimento em marketing e vendas é maior do que o percentual de empresas aumentando o quadro de colaboradores e investimentos em marketing e vendas. As empresas mudaram sua estratégia de expansão para vendas na base, ou seja, demonstrando grande “cautela”. Chamou a atenção, também, que 25% das empresas estão lutando bravamente para manter apenas o status quo, ou seja, não perder clientes ou funcionários. Puro fel!

A primeira dúvida que me veio a cabeça foi “será que os empresários foram muito otimistas em Abril ou será que estão sendo muito pessimistas em Julho?”. Uma análise mais detalhada mostra que eles foram realistas nas duas ocasiões. Desde o início da crise econômica, os clientes estavam vendo TI como um dos principais instrumentos para minimizar os impactos da crise. Os clientes chegaram a fechar alguns bons projetos principalmente nas áreas de mobilidade, nuvem e datacenter.

Os fornecedores destas novas tecnologias (mobilidade, nuvem e datacenter) tiveram crescimentos acima de 15%. É certo que, de outro lado, os fornecedores de tecnologias tradicionais, como infra-estrutura, tiveram retração muito acima de 15%.

As incertezas, políticas e econômicas, geradas no início de gestão interina do Temer fizeram com que os clientes “colocassem o pé no freio” para projetos de TI de qualquer natureza. E daqui surge a “cautela” dos empresários de TI para o restante de 2016.  Teremos 34% das empresas reduzindo o quadro de colaboradores, daqui até o final do ano. Os investimentos em marketing e vendas serão reduzidos. O grande foco estratégico estará em “Aumentar as Vendas” para recuperar o baixo resultado do segundo trimestre.

Os fabricantes de equipamentos e fornecedores de software básico, tipicamente empresas multinacionais, reduziram drasticamente seus orçamentos de marketing para o segundo semestre, comprovando o baixo desempenho do primeiro semestre e sinalizando cautela.

Será que existe algum coelho na cartola do mágico?   Será que passado o processo de impeachment, em Setembro, o governo conseguirá colocar na mesa as cartas certas e, com isto, fazer as engrenagens do mercado voltarem a andar?   Será que teremos tempo hábil, em 2016, para fazermos as vendas e garantir um resultado satisfatório?

O que os empresários de TI estão dizendo, na pesquisa, é “na dúvida, vamos ter cautela, vamos focar em vender os produtos e serviços que temos para a atual base de clientes”. É pouco, mas é o que temos para hoje.


Foto_Dagoberto_150x150Dagoberto Hajjar trabalhou 10 anos no Citibank em diversas funções de tecnologia e de negócios, 2 anos no Banco ABN-AMRO, e 9 anos na Microsoft exercendo, entre outros, as atividades de Diretor de Internet, Diretor de Marketing e Diretor de Estratégia. Atualmente é sócio fundador da ADVANCE – empresa de planejamento e ações para empresas que querem crescer.