* Por Rosana Jamal Fernandes

Uma das grandes polêmicas que enfrentamos no mundo do empreendedorismo de alto impacto é se startups de base hardware (aquelas que têm produtos físicos associados) são aceleráveis.

Frequentemente nos deparamos com depoimentos do tipo “aceleração só funciona para startups web-mobile, ou para aplicações, ou para Marketplace, ou ainda mais genérico, para startups de base software”.

Por trás desta ideia está a facilidade, a rapidez e o custo com que um produto base software é desenvolvido e colocado no mercado, bem como atualizado, alterado ou mesmo pivotado. Uma mudança de rota significa redirecionar a equipe para um novo software ou modelo de negócio – basicamente, os maiores custos deste movimento são em recursos humanos e algumas ferramentas e infraestrutura.

Quando se trata de startups hardware, o desenvolvimento é, de fato, mais complexo e custoso – há custos de prototipação, de infraestrutura e insumos para desenvolvimento assim como o tempo necessário para evoluir do protótipo ao produto. No caso de pivotar o produto, os custos podem ser relevantes (ex: material estocado, descarte de protótipos) impactando diretamente os custos de desenvolvimento. Por isso, no mundo hardware, entender o seu mercado e os requisitos do produto são essenciais para o desenvolvimento da solução.

Quando comparamos os dois perfis de startups, é natural pensar que é mais seguro investir em startups de base software, que têm custo de alavancagem e prazo menores para escalar sendo, portanto, uma opção atrativa para a maioria das aceleradoras e investidores.

Este cenário, entretanto, tem mudado de forma significativa nos últimos anos. Com a redução de custos de prototipação a partir dos kits como Arduinos, Raspberrys, módulos padronizados, suporte de laboratórios como os Fab Labs, ficou muito mais fácil desenvolver provas de conceito e MVPs (Minimum Viable Product) e testá-los em condições reais, de forma a validar a viabilidade do negócio e os requisitos de produto. Tudo isso a um custo atrativo e em prazos bastante palatáveis. Além disso, a barreira de entrada natural para este tipo de solução, transforma este patinho feio em um belo atrativo para investimento. Neste novo cenário, várias aceleradoras com foco em hardware apareceram no cenário mundial nos últimos anos. No Brasil, não foi diferente.  Algumas aceleradoras da ABRAII ousaram e decidiram acelerar também startups de base hardware.

Elas sabem que a validação do produto/mercado é fundamental para evitar retrabalho e viabilizar sua evolução.  Sabem também que chegar a uma prova de conceito ou a um MVP não é suficiente para uma escalabilidade relevante. Além disso, sabem que a solução escalável exige design dedicado, certificações, logística de componentes e de distribuição, estratégia de negociação com fornecedores, processo produtivo, modularidade para viabilizar evoluções, formas inovadoras de financiamento do lote piloto, além dos desafios estruturais e tributários brasileiros.

Sempre é bom lembrar que a solução completa também contempla desafios do software embarcado e software aplicativo, uma vez hardware e software formam a solução integrada necessária para o sucesso do negócio.

Com relação ao apetite do investidor para startups hardware, a boa notícia é que os investidores começaram a colocar alguns perfis de startup hardware (como IoT, cidades inteligentes, robótica, entre outros) em suas teses de investimento. Eles estão ativamente conversando com as aceleradoras em busca de bons negócios, bem como lançando desafios mundiais nestas áreas. São investidores que entendem bem negócios baseados em hardware e o segmento foco, têm em seu portfolio startups com certa similaridade e acompanham a startup de forma ativa durante a fase de crescimento.

Em resumo – SIM, é possível acelerar startups de base hardware e a regra para escolha da aceleradora é a mesma –  avaliar se o processo e a equipe de aceleração são adequados, se há conhecimento no segmento de mercado e na tecnologia alvo e se a rede de mentores e parceiros pode ajudar. E bola pra frente – hora de acelerar seu negócio.


 

rosana-jamal-fernandesRosana Jamal Fernandes é sócio-fundadora da Baita Aceleradora de Startups e presidente do Unicamp Ventures, rede de relacionamento de empreendedores ligados a Unicamp. Foi Diretora de Desenvolvimento de Produtos para América Latina da Motorola Mobility, onde liderou o desenvolvimento de produtos para o mercado regional e global.