* Por Santana Dardot

Todo empreendedor começa seu negócio cheio de incertezas e medo. Mesmo tendo planejado, testado e atritado o modelo de negócio, ninguém sabe ao certo se aquela ideia vai ser um sucesso total.

Mesmo com dúvidas, o empreendedor é movido ao desconhecido pelo poder de realizar. A grande maioria deles se aventura sem ter muita noção do que vai encontrar pela frente. Foi o meu caso e de meus sócios em minha primeira experiência no empreendedorismo. Na verdade, segunda, se eu contar com um carnaval na minha infância em que eu e um amigo (salve, Ernesto!) resolvemos fazer e vender picolés nos blocos de rua – o que foi também o primeiro fracasso e primeiro pivot, pois sobrou muito picolé e aí depois resolvemos fazer uma “festa do picolé” com amigos. Começamos um negócio sem nem saber direito o que era realmente montar um negócio.

Éramos todos estudantes de design gráfico nos nossos 20 e poucos anos: eu, Gustavo Timponi, que continua como sócio, Marcelo Borges e a Emília Chamone, que foram trilhar outros caminhos depois e mais tarde, o Augusto Magno, que compartilhou desse sonho por um bom tempo também. Aquele desejo de criar o novo começou de forma ingênua, com um grupo de estudos de correntes da história do design. Líamos sobre cada movimento que aconteceu no design e, a partir daí, discutíamos e criávamos para nós mesmos peças gráficas.

Um amigo nosso tinha um jornalzinho sobre cinema chamado Cine&Cia e nos convidou para fazermos o projeto gráfico. Acontecia todo mês e sempre tinha um artigo sobre alguma escola do cinema, então a gente mergulhava nos textos e os relacionava graficamente com as escolas do design.

De repente o grupo de estudos se transformou em um embrião de um escritório de design: a Sapien. O escritório funcionava em um quarto do apartamento de um dos sócios, com um computador para três pessoas utilizarem (sim, isso mesmo, você leu certo). Um dinheirinho entrava e uma hora o computador se transformou em três, depois quatro, e fomos depois parar em uma sala comercial.

Em 1997 a internet estava na era da banda discada e já tínhamos feito algumas “homepages” (era assim que se chamava na época). Um dia, perto dos anos 2000, resolvemos que o caminho seria esse e abandonamos aos poucos a criação de material impresso para nos dedicarmos somente à comunicação on-line.

A empresa cresceu, nos planejamos, tivemos escritório em São Paulo, fizemos grandes projetos da internet brasileira, até que, em 2010, decidimos que era a hora de dar um novo passo. Conversávamos sobre o que estava por vir e já antecipávamos um processo que julgávamos inevitável: em breve, não haveria a separação entre o mundo on-line e off-line. Mais do que antecipar, era uma mudança em cujo poder a gente acreditava: para a comunicação, não existe pessoas on-line e pessoas off-line; o que existem são as pessoas e seus momentos.

Isso significava que o que a gente acreditava ser o caminho não era mais uma agência digital especializada em somente um desses momentos, mas sim uma agência onde não houvesse essa separação entre o mundo do consumo de informação física e o dos bits.

Percebemos então que, para isso acontecer, havia dois caminhos: adicionar à operação atual o mundo off-line ou fazer uma fusão com uma agência já estabelecida no mercado. Como já tínhamos feitos vários projetos com a Tom Comunicação, uma das maiores agências do mercado mineiro, que era liderada por Adriana Machado e Vinicius Alzamora, a segunda opção foi se apresentando como uma opção inspiradora.

A admiração pelo trabalho era mútua, compartilhávamos da mesma visão e tínhamos muitas coisas em comum, inclusive na carteira de clientes. Mas dar um passo em direção a uma fusão exigiu muita coragem, paciência, desprendimento, compreensão. E sim, tivemos muitos medos e dúvidas antes e durante a fusão.

Está na hora de acontecer? O mercado vai receber bem? A dinâmica entre os colaboradores será positiva? Os sócios terão um bom relacionamento no dia a dia?

Contratamos um belo time de advogados e consultores especialistas em fusões e aquisições, mas essas perguntas na verdade somente a gente podia responder. E a verdade é que a gente não tinha nenhuma dessas respostas.

Éramos duas empresas bem estabelecidas no mercado que podiam se manter com uma certa tranquilidade no mercado como estávamos. Porque então arriscar o que já tínhamos, rumo a algo que não tínhamos nenhuma certeza se daria certo?

A verdade é que o que realmente nos moveu foi a forte convicção de que o passo certo e a melhor oferta para nossos clientes seriam a operação integrada 100% entre o on e o off-line, e que o mundo se movia para isso.

Em setembro de 2011, então, a fusão chegou em seu ápice: juntamos as equipes e as empresas fisicamente. A partir dali, houve um longo trabalho de ajustes de processos e culturas para colocar a operação rodando em sua melhor performance.

Daí em diante, tivemos belas conquistas para nossos clientes com a nova empresa integrada, a Tom Comunicação. E na verdade, não paramos por aí: incubamos uma empresa de marketing direto e relacionamento, a Maio; montamos uma área de inovação, o Tom Lab; criamos uma startup de pagamento de contas de bares e restaurantes via mobile, o PagVai; alcançamos mais de 170 edições do Grupo Tom de Estudos; e de quebra, ganhamos três pratas no Clio Awards, um dos mais famosos prêmios da publicidade internacional.

O que aprendi com isso tudo (e continuo aprendendo) é que ter decisões corajosas é domar seu medo e se mover mais rápido do que ele. É não encarar seus medos como fraquezas, mas como algo que te leva a uma melhor preparação para seus desafios. Que para muitas perguntas não teremos as respostas. Que a resposta certa vai surgir com o aprendizado a partir da tentativa de coisas que não funcionam e que vão nos levar ao desenvolvimento das coisas que funcionam. Que se você tem respostas para todas as suas perguntas, possivelmente está fazendo as perguntas erradas. E que se ao tomar uma decisão importante, você não sentir um certo medo, é porque provavelmente não foi corajoso e ousado o suficiente e tomou a decisão errada.


foto_santanaSantana Dardot é um dos líderes do Comitê de Empreendedorismo da ABRADi Nacional, Vice-Presidente da ABRADi-MG, Sócio e Diretor de Proatividade da Tom Comunicação.