* Por Daniel Ibri

É notório o destaque que o tema sustentabilidade ganhou nas últimas décadas em todo o mundo. Não apenas teorias ou conceitos, mas muitas ações concretas e projetos com excelentes resultados, amplamente divulgados pela mídia mundial. A sustentabilidade ganhou relevância no mundo empresarial, e diversos empresários e executivos de grande destaque passaram a dedicar seu tempo e recursos para projetos de conservação ambiental, combate a fome e inclusão social, por vezes via suas empresas multinacionais, ou através de Fundações ou ONGs, como é o caso de Bill Gates, fundador da Microsoft, que dedica seu tempo agora junto à sua esposa em sua Fundação – Bill & Melinda Gates Foundation.

Porém, a questão econômica da sustentabilidade sempre se mostrou um tema mais árido e difícil de ser analisado, pensado e planejado pelas empresas e seus executivos. Como seria possível ser sustentável, fazer o bem, seguir as regras éticas dos negócios, ajudar as pessoas e comunidades necessitadas e, ainda assim, garantir geração de riqueza aos stakeholders e, principalmente, o lucro significativo e crescente aos acionistas, sendo este o maior e último objetivo de uma empresa atuando em nosso sistema econômico atual?

Esse pensamento intrigou grandes pensadores e também empreendedores e executivos de todo o mundo, que buscavam ganhar dinheiro de forma sustentável. Dois trabalhos, entre outros, tiveram grande destaque nos últimos 10 anos: o primeiro do professor indiano-americano C.K. Prahalad, que trata da “Riqueza na Base da Pirâmide”, e o segundo do indiano Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz com sua iniciativa de microcrédito para população de baixa renda na Índia. O mundo começava a enxergar que havia dinheiro, potencial, consumo e lucro em mercados alternativos, começando a considerar a população de menor poder aquisitivo como um grande mercado alvo para suas ações. Ao longo do tempo se provou, principalmente em grandes empresas de capital aberto, que os retornos e valorização de suas ações é maior quando as empresas seguem boas práticas globais de sustentabilidade e governança corporativa.

Agora estamos na época do empreendedorismo, da micro, pequena e média empresa, de iniciativas inovadoras e centenas de startups que surgem no mercado todos os anos, principalmente no Brasil. A pergunta que ainda persiste é qual a vantagem para estas empresas buscarem práticas sustentáveis e se existem recursos disponíveis para investir nesta empresas e auxiliar em seu crescimento. Pois bem, digo que o cenário é positivo. Investidores buscam, cada vez mais, em todos os níveis, empresas com práticas sustentáveis, que tratem adequadamente seus funcionários, que sejam transparentes com a sociedade, que cuidem do meio ambiente e que gerem valor para comunidades onde estejam inseridas, sempre, é claro, dentro de sua capacidade e compatíveis com o tamanho de seus negócios. Os recursos estão cada vez mais seletivos, e os investidores já reconhecem que empresas com estas práticas e “consciência sustentável” se tornam mais lucrativas e duradouras ao longo do tempo. O dinheiro mundial está migrando, cada vez mais, para projetos que gerem lucro e também benefício social. Um modelo que ainda deve ser provado em grande escala, mas que alguns casos já demonstram a grande oportunidade de gerar retornos significativos gerando também valor social e/ou ambiental àqueles envolvidos. Este novo conceito, que não para de crescer, é chamado de Investimento de Impacto, ou, no termo original do inglês, Impact Investing.

O Investimento de Impacto nada mais é do que o investimento em empresas, fundos de investimento ou outras organizações com o intuito de gerar impacto social e ambiental junto a retornos financeiros satisfatórios. Parece um conceito abstrato, mas não é. É mensurável e facilmente avaliado na prática por investidores e empreendedores no Brasil e ao redor do mundo. Diversas organizações surgiram para auxiliar empreendedores que buscam construir seus negócios de impacto, como a Artemisia; diversos investidores buscando estes tipos de negócio e organizações pesquisando e divulgando conhecimentos sobre o tema, como a GIIN (Rede Global de Investimento de Impacto, em inglês). Os números divulgados são impressionantes, e também animadores: a pesquisa do GIIN com o banco americano JP Morgan, divulgada em Maio deste ano, revela a disponibilidade de cerca de 12,7 bilhões de dólares em fundos de investimento de impacto ao redor do mundo, em busca de projetos e empresas boas, que unam sustentabilidade e lucro. Isso representa um crescimento de quase 20% com relação a 2013, sendo que os setores de micro finanças, serviços financeiros, energia, habitação, agricultura e saúde respondem por cerca de 75% desta alocação, sem contar outros incentivos e linhas de crédito oferecidos pelos governos de diversos países, inclusive o Brasil, através de programas do BNDES e incentivos fiscais, por exemplo.

Para aproveitar estes recursos, diversos empreendedores, micro, pequenas e médias empresas estão mudando suas práticas e desenvolvendo projetos que possam atrair este capital, tão desejado para o crescimento acelerado e consistente de um negócio. Mas o capital, por incrível que possa parecer, não é o mais difícil. O mais difícil são bons projetos – aqueles que possam gerar impacto e lucro simultaneamente – e bons empreendedores – que realmente se dedicam e acreditam verdadeiramente pelo que trabalham, e não apenas seguem conceitos ou teorias para aproveitar o momento ou se mostrar bons perante a sociedade. O Brasil ainda tem muito a aprender com o que já foi desenvolvido no restante do mundo, mas com a quantidade de capital disponível, competência dos empreendedores e quantidade de problemas sociais e ambientais que enfrentamos todos os dias, creio que chegaremos lá.

A sustentabilidade dos negócios está cada vez mais atrelada à sustentabilidade do mundo. O capital está disponível, o conhecimento divulgado e os problemas e necessidades a nossa frente. Basta agora que um grande número de empresários assumam este movimento, inovem, transformem o microambiente onde estão inseridos e, assim, um dia atingiremos o tão desejado ciclo virtuoso de empreendedores que geram empresas sustentáveis, que recebem investidores, que dão lucro e retorno aos investidores, que poderão investir em mais empresas, que também crescerão, geraram lucro, e assim por diante.

A mudança do paradigma e situação atual de pobreza, falta de inclusão social e degradação ambiental mundial só virá e se sustentará através de empreendedores e empresários que conseguirem construir negócios com a fórmula mágica: negócio + investimento = lucro + impacto positivo.


daniel ibriDaniel Ibri é COO & Head of M&A at Acelera Partners, e membro do Comitê de Inovação, Empreendedorismo e Capital Semente da ABVCAP