Para mim, duas coisas marcaram a Campus Party no que tem a ver com startups. Sim, os estandes Startup & Makers estavam bem mais organizados, a qualidade das demonstrações estava bem melhor. Os painéis e palestras tinham temas bons. Mas, a meu ver, as coisas mais significativas para nosso mercado não estavam lá para aparecer.

Coisas que nem todo mundo reparou

Achei sensacional a Faby Lima estar lá comentando com as pessoas sobre como bateu 130% da meta de “equity crowdfunding” (ou “crowdequity”) na plataforma Broota, conquistando investidores sob seus próprios critérios. Para quem tinha dúvidas se o formato ia funcionar, ou se dava para confiar: existe até a Associação Brasileira das Empresas Administradoras de Plataformas de Equity Crowdfunding (Abpec, ou Equity), encabeçada por Adolfo Melito e Paulo Milreu. Mais startups vem conseguindo se financiar desta forma, que conta com liberação na CVM.

Gostei de ver o senso de oportunidade do Daniel Marigliano em pegar emprestado o palco de Robótica, montar e executar um desafio patrocinado. Achei curioso ver a Mavir Bernal fazer um encontro da Startup Anonymous, espécie grupo de ajuda mútua aos moldes do Alcoólicos Anônimos (talvez empreender seja um vício irresistível; certamente tem efeitos colaterais).

Se a Campus Party parecia um encontro de diferentes grupos de startups, vindas de diferentes regiões, então é como se fosse uma grande cidade das startups. E é aqui que entra o grego. Eles usavam o termo “polis” para designar suas cidades, “politike” para designar sua estratégia geral e “politikos” para chamar todos os seus cidadãos. E é aí, na fonte grega dos estudos e práticas do Estado e da Cidade, que me inspiro para tentar entender e compartilhar um pouco do que vem acontecendo.

Encontro de Agentes do Ecossistema

O Márcio Brito, do Sebrae Nacional convidou mais de 20 pessoas para entrarem no seu Domus (parecido com um iglu de plástico, uma verdadeira bolha – que felizmente não estourou) e, com a facilitação de Yuri Gitahy, alinhassem seus entendimentos e ações acerca do ecossistema de startups. Fiquei feliz de participar, ao lado de representantes da ABStartups, Endeavor, ABVCap, Equity, Apex-Brasil, Start-Up Brasil, BizSpark, Demo Brasil, Anjos do Brasil e uma série de outras entidades e empresas consideradas agentes deste ecossistema. Alguns empreendedores também participaram. Teve sim um caráter simbólico, de reunir todo mundo, mas também mostrou que pode ser produtivo usar a colaboração e simultaneamente pensarmos em uma proposta de valor conjunta, integrada.

Fizemos até um business model canvas do ecossistema (na verdade, 4 canvas), debatendo durante 4h o que seria bom para o ecossistema e como fazer isso acontecer. Felizmente não se criou mais uma associação – imagine termos uma “associação das associações” antes de termos um “fundo of funds”. De concreto, por enquanto, foi definido que haverá encontros no formato de fórum, que haverá um alinhamento para que os eventos de startups não aconteçam nas mesmas datas e que será disponibilizada uma lista de players do ecossistema (“onde buscar ajuda”).

Pode parecer pouca coisa, mas a agenda de eventos e a lista do ecossistema estão entre as páginas permanentes mais acessadas no Startupi, há alguns anos. Resta aguardar o pessoal consolidar todos os problemas e soluções apresentados e avançarmos com esta coalisão que poderia ter o slogan “Unidos Cresceremos”. Afinal, o crescimento de cada uma das startups é a coisa principal e ideal no ecossistema e todo mundo que pretende ajudar deve se lembrar disso.

Sentar junto e botar na mesa os recursos que tem para ajudar a solucionar os problemas coletivos é uma verdadeira política – no sentido bom e original do conceito. Fazer política deveria ser sempre assim. Mas não é fácil nem entre 20 pessoas com a mesma ideologia; imagina então como deve ser difícil entre centeeeeeeeeeeenas de políticos adversários e milhões de brasileiros.

Brasil Mais Empreendedor

Nos últimos meses, mais de 100 pessoas contribuíram para a construção de um documento referencial em torno do que ficou conhecido como Brasil Mais Empreendedor. Depois de reuniões presenciais e virtuais, muitas mensagens de Whatsapp, muitos e-mails, telefonemas, papos e quetais, diversos empreendedores realizaram um painel no palco Startups & Makers para anunciar ao mundo que um grupo de entendidos e interessados elencou e especificou uma série de propostas de ação para o avanço da atividade empreendedora (e startupeira) no país.

Tal documento foi entregue para alguns políticos presentes no evento (não vou citar, podem procurar nas redes sociais) e será ativamente levado a representantes do povo tanto em Brasília como nos estados da nação. O Geraldo Santos se ofereceu para articular a questão em cada um dos 20 e tantos estados onde vai realizar eventos do circuito Demo Brasil este ano, e outras pessoas com conexões também se prontificaram para fazer as ideias avançarem por toda sociedade, especialmente nas esferas governamentais, onde ainda falta muita coisa a ser feita – não apenas para facilitar a vida dos empreendedores, mas para achar um norte para a inovação brasileira, um modelo de desenvolvimento baseado em valor agregado, em diferenciação, em protagonismo tecnológico e econômico (lembram que Peter Thiel explicou: a tecnologia não é uma coisa, é uma força de concentração econômica).

Muita gente permaneceu no Poder depois dessas eleições, mas muita gente está saindo e entrando. Todos serão pautados e terão nas mãos a oportunidade de cumprir seu dever para com o presente e o futuro do Brasil enquanto terra de riquezas. “Unidos Venceremos” se eles fizerem valer o slogan “ordem e progresso” que parece flamejar muito mais na bandeira e nas ruas do que na lida política.

Já era hora de todo esse povo que ajuda startup se organizar para atuar de forma coordenada, fazer junto (este é o significado de “política”) e também para coordenar os que tem poder oficial. Outros setores econômicos, verticais e áreas de atuação já vem fazendo isso há muito tempo. Talvez seja sinal dos tempos para o país e para as startups: uma nova era já chegou, e outra ainda mais nova vem aí. Para frente e para cima!