Se tem um tipo de palavra que eu gosto são os verbos. Entretanto, se tem um verbo escorregadio que eu não gosto é ajudar, pois esconde uma indefinição e um descompromisso por trás do ar de nobre. Felizmente, não ouvi esta palavra na entrevista que tive com Claudio Bessa, cabeça da unidade de desenvolvimento de ecossistema para a América Latina na IBM. Pelo contrário: dele e do Felipe Matos, cabeça operacional do Start-Up Brasil, só ouvi estratégia, estratégia e estratégia.

“Vemos uma sinergia muito boa com o programa Start-Up Brasil. Todos participantes deste programa de aceleração já vão estar automaticamente credenciados para fazer negócios com a IBM”, iniciou Bessa – que talvez vocês lembrem dos eventos SmartCamp, promovidos pela IBM; vejam na foto. Mas, como assim, as startups vão estar credenciadas? Esta é uma pré-aprovação para fazerem o que?

“Vamos disponibilizar profissionais, todas as nossas ferramentas e nossas soluções de software para que as startups possam ir bem no mercado. Podemos compor soluções combinadas e podemos ir juntos aos clientes. Temos tecnologia e relacionamento em diversas verticais. Quanto mais a gente puder agregar valor para que essas empresas possam crescer, isso é bom também para a IBM. Em muitos casos, as soluções poderão ser utilizadas não apenas localmente, mas pode ser que cresçam para outros mercados”. Ou seja, pessoal, não é uma parceria para venture capital. É melhor ainda: fortalecer produto e comercial. É bom ouvir isso, Bessa. Ainda mais que a nova tecnologia Watson, da IBM, parece oferecer novas possibilidades para todo tipo de startup (veja no vídeo abaixo).

Em tempo: parece que está na moda as pessoas definirem sua função como “head” disso, “head” daquilo. Você sabe que isso significa cabeça, certo? Acaba parecendo coisa da Idade Média, tipo “mão do Rei” (hand of the King), função em alta no seriado “Game of Thrones” e que em alguns países evoluiu para Primeiro-Ministro ou Chanceler. De qualquer forma, o que a cabeça tem de específico é a capacidade de ver, ouvir, pensar e (só depois) falar. Então vale.

Mas vejamos se é isso que o cabeça do Start-Up Brasil enxerga. O nome do cargo de Matos no corpo público-privado de aceleração não é cabeça, mas ele exerce esses atributos, então vale chamá-lo assim, né? “Estar mais próximo do mercado corporativo é muito importante para startups com modelo business-to-business (que vendem para outras empresas), porque nem sempre elas tem acesso a esse tipo de clientes. Fazer a conexão da startup com o produto certo dentro da corporação é o benefício da parceria. Nem sempre isso é fácil”, pontuou. E acrescentou: “para startups de business-to-consumer (que vendem para pessoas, consumidores finais), a parceria também é interessante, pois poderão contar com serviços, produtos, soluções e profissionais da IBM. Aliás, eles aumentaram a equipe, são bem sênior e estão bem dedicados”. Ótimo.

Mas peraí, tudo isso que a IBM chegou para fazer… não é o que as aceleradoras iam fazer?

As aceleradoras já não comemoravam o fato de contarem com diversos parceiros corporativos fornecendo serviços, produtos, parcerias, descontos, gratuidades, aberturas? “A maioria das aceleradoras tem vários benefícios adicionais ao processo de aceleração, já trazem algumas dessas parcerias de benefícios. Entretanto, fazer as parcerias direto via Start-Up Brasil permite que as startups acessem um leque maior de benefícios, que algumas vezes talvez as suas aceleradoras não tenham. E, fique claro: descontos e gratuidades não são as coisas mais difíceis de conseguir, o diferencial é claramente acessar parcerias e proximidades mais específicas”. Faz sentido.

Faz tanto sentido que o Start-Up Brasil contratou uma pessoa só para cuidar deste tipo (e nível) de parcerias. “Estamos em conversas adiantadas com uma série de empresas e corporações”, adiantou Matos. Assim seja. Espero que os empreendedores não percam a mão (nem a cabeça) e acabem deixando seus produtos com jeitão Frankenstein, uma mistura de coisas diferentes feita por comitê. Confio em vocês, surpreendam-nos!

Em tempo: o programa Start-Up Brasil está com inscrições abertas para startups brasileiras e estrangeiras – veja como se inscrever.