Aleksandar Mandic é um empreendedor pioneiro no Brasil. Prestes a completar 60 anos, é conhecido por ser um dos primeiros brasileiros a apostar na internet. Em 1990, sem graduação de ensino superior, ele saía da Siemens, onde tinha uma carreira, para criar a Mandic BBS.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Ele recebeu grandes investimentos em sua empresa, que leva seu sobrenome e se tornou uma das maiores de internet no final dos anos 90; vendeu-a; se tornou sócio-fundador do IG; comprou a Mandic novamente, e depois a vendeu por mais de US$ 100 milhões.

No ano passado criou o Mandic MagiC, aplicativo que ajuda as pessoas guardarem e compartilharem senhas de WiFi. Os usuários, quando pedirem a senha de determinada rede, podem salvá-las na rede social e deixar para que outras pessoas também tenham acesso quando irem ao mesmo local.

Um ano depois do lançamento, o serviço chegou a 5 milhões de usuários e está presente em quase todos os países do mundo. Conversamos com Mandic para entender um pouco mais da visão do empreendedor que, duas décadas depois de criar sua primeira empresa, se mantém como referência para muita gente nova.

Ele diz que a motivação para criar o aplicativo veio de uma dificuldade que ele mesmo enfrentava quando viajava. “Quando estou em outro país e não conheço o idioma, tenho dificuldade em conseguir a senha de determinado estabelecimento. Imagine, por exemplo, quando um americano chega aqui, pede a senha de um restaurante e o garçom diz que é ‘Palhoça’ – ele vai sentir certa dificuldade em digitar a palavra”, explica. “Procurei por um aplicativo que me ajudasse a gerenciar as senhas de WiFi, como vi que não existia esse app dos sonhos, fui lá e fiz”, diz.

Apesar de nunca ter investido em marketing ou publicidade, Mandic diz que o aplicativo cresce rapidamente. “Só ontem, tivemos 35 mil downloads; em julho foram mais de 800 mil”, comemora. Segundo sua assessoria de imprensa, o serviço cresce a uma média de 20% ao mês.

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Mesmo assim, o aplicativo não tem nenhuma forma de monetização. “Estou no break even, não ganho nada mas também não gasto nada. Plataformas como a App Store, Google Play e Windows Store são gratuitas e oferecem todo o suporte necessário para que o aplicativo chegue às pessoas”, diz.

Exatamente por conta desse cenário, Mandic diz que não está preocupado em monetizar o app ainda. Seu foco, no momento, é crescer e fidelizar ao máximo sua base de usuários. “Eu tenho dois planos: um para ganhar muito dinheiro, e outro para ganhar menos. Agora, estou focado na primeira opção, que é oferecer um serviço tão bom cuja base de usuários cresça muito e eu consiga vender o aplicativo para uma grande empresa, como Google ou Facebook. Se isso não der certo vou atrás do ‘pequeno dinheiro’, colocando mídia e rentabilizando o aplicativo na medida do possível”, explica.

Apesar dos planos atuais, ele diz que não empreende por dinheiro. “Empreendedor que se preocupa, de cara, com o dinheiro, deve mudar de área. As coisas não decolam rápido, elas demoram. Se está preocupado com o financeiro é melhor ir fazer outra coisa. O Mandic BBS levou um ano para dar dinheiro, eu o criei como hobby – só fui pensar na grana quando ele pegou firme”, defende.

Mesmo assim, ele indica que há muito dinheiro interessado no Mandic MagiC. Há empresas considerando investir nele e as negociações não foram fechadas. Mas, segundo ele, já se fala em valores de US$ 100 milhões por 10% da empresa.

“Uma coisa que os investidores gostaram de ouvir é que a minha empresa não vai ter mesa, secretária ou café. Eu quero testar o modelo mais enxuto possível, com todos trabalhando remotamente”, diz. “Mas isso é possível fazer quando a empresa é pequena, e podemos garantir que todos os funcionários são capacitados”, completa.

Depois de toda a conversa, uma pergunta que Mandic já deve ter respondido muitas vezes: “O empreendedorismo no Brasil evoluiu muito desde 1990?”. “Empreender nunca será fácil, é sempre fazer mais com menos. Mas o empreendedorismo tem que existir, é uma lei da natureza”, defende.