Apesar da liderança norte-americana, aqui no Brasil passamos por uma era de ouro de startups de tecnologia. Para aproveitar esse cenário, os empreendedores contam hoje com uma ferramenta resultado de 10 anos de aprendizado após o final da bolha de tecnologia dos anos 90“.

É o que explica o autor convidado de hoje, Fernando de la Riva.

O software vai dominar o mundo. É o que defende o empreendedor Marc Andreessen em um recente artigo publicado no The Wall Street Journal. O executivo dá exemplos de empresas como Google, Apple, Facebook, Linkedin e Netflix que, além de sua relevância no mercado de capitais, estão tomando espaços importantes na economia, antes dominados por empresas de DNA não tecnológico. No meio desta revolução, os EUA continuam líderes devido à combinação (sem paralelo) de boas universidades, cultura de negócios pró-risco, respeito a contratos e grande quantidade de capital de risco buscando inovação e negócios confiáveis.

Apesar da liderança norte-americana, aqui no Brasil passamos por uma era de ouro de startups de tecnologia. Para aproveitar esse cenário, os empreendedores contam hoje com uma ferramenta resultado de 10 anos de aprendizado após o final da bolha de tecnologia dos anos 90. Trata-se do Lean Startup, conceito já comumente utilizado nos Estados Unidos e criado pelo norte-americano Eric Ries. De forma simplificada, pode-se dizer que é fazer startups com pouco desperdício e ciclo de aprendizado rápido, a partir de duas práticas: o desenvolvimento de clientes (customer development, criado por Steve Blank) e o uso de metodologias ágeis para desenvolvimento de software.

Considerado o aspecto mais revolucionário da prática, o customer development consiste em três passos iniciais: o primeiro é buscar um modelo de negócio no qual o produto seja adequado ao mercado; o segundo é evoluir e trabalhar o processo de venda até que ele se torne repetível e o empreendedor esteja seguro e confortável para utilizá-lo; e o terceiro é contratar gestores que sejam capazes de dar andamento ao processo de crescimento da empresa, que neste ponto busca escalar rapidamente o modelo de sucesso e se apropriar da oportunidade. Ao fim das três fases, que se “encaixam”, a empresa está pronta para executar o modelo de negócios.

Após 13 anos de experiência, passagem pelas duas bolhas e 17 tentativas com erros e acertos, chegamos a um modelo que consideramos, hoje, o mais adequado para empreender em TI. Primeiro, descobrimos que deveríamos abandonar as premissas de que sabemos qual é a necessidade do cliente e como atender essa necessidade. Com elas, utilizávamos métodos tradicionais de lançamento de produtos (como waterfall e, depois,unificado) nos quais elaborávamos cada fase do processo de forma sequencial. Para agir de maneira mais rápida e evolutiva, optamos pelos métodos ágeis, que têm no SCRUM seu principal representante. O SCRUM é uma forma empírica de criar software sem desperdícios. Com a metodologia, os projetos não têm escopo rígido e cada etapa é construída de forma evolutiva, com cliente e fornecedor atuando conjuntamente.

Porém, apesar de endereçar o espaço da solução, a adoção de metodos ágeis não ajudava a entender o problema. Precisávamos também de desenvolvimento do cliente, o que, no processo de busca do modelo de negócios, significa responder a uma série de questionamentos, como para quem vender, o que e como oferecer, quais serão as relações que teremos com os clientes, quanto eles estarão dispostos a pagar pelo serviço, quais serão os recursos de que precisaremos e quais deles serão essenciais, quais atividades serão cruciais para desenvolvimento do negócio, quem serão os parceiros e fornecedores que vamos precisar e, por fim, qual é a estrutura de custos que teremos. Após alcançar as respostas para essas perguntas, temos o modelo de negócio. Para colocá-lo em prática, usamos o SCRUM.

A soma de tudo isso é a prática de Lean Startup que, associada ao uso de ferramentas open source e cloud computing, é considerada atualmente a melhor forma de estruturar um novo negócio de tecnologia. Os modelos de open source e de cloud computing democratizaram o espaço de competição, eliminando a necessidade de investimentos na infraestrutura computacional e dando uma adaptabilidade fluida a esta estrutura, que se adapta perfeitamente ao negócio.

Sem esquecer, é claro, a evolução das pessoas. Isso porque o sucesso não depende apenas do empreendedor, é fundamental que haja um alinhamento de interesses do time como um todo. É importante estimular constantemente a equipe, tornando-a parceira, inclusive com divisão dos lucros. Outro ponto a ser destacado é o DNA do empreendedor, que deve combinar adaptabilidade com resiliência. É preciso muito esforço, leitura e conversas. A máxima “a verdade está fora do escritório” é uma realidade. Se quiser empreender, converse com muitas pessoas e ouça opiniões para criar um negócio com “robustez”, que possa ser transformado em outro se necessário. É a troca do “plano A” pelo “plano que funcione”, como aconselha Ash Maurya.

Por fim, sugiro algumas referências teóricas para candidatos a empreendedores. Os livros “The four steps to epiphany”, de Steve Gary Blank; “Running Lean”, de Ash Maurya; e “Business Model Generation”, de Alexander Ostwalder, são bases importantes, além do “The Lean Startup”, de Eric Ries, que será lançado em setembro deste ano. Apresentações de Steve Blank no slideshare e blogs como www.businessmodelalchemist.comwww.startuplessonslearned.com e theleanstartup.com também podem ajudar. Boa sorte em seu novo negócio!

* Fernando de la Riva é sócio-fundador e diretor-presidente da Concrete Solutions, consultoria global de tecnologia da informação especializada no desenvolvimento de negócios digitais. Foi CEO de transição e COO da Teknoland do Brasil e fundador da Atness Computing Services, empresa que foi adquirida pela Teknoland RTT, companhia espanhola de TI e internet do Grupo Terra/Telefônica. Bacharel em Engenharia da Computação pela PUC-RJ, pós-graduado em gestão empresarial pela COPPEAD, MBA pela Columbia Business School e mestrado pela London Business School.